São Paulo reforça integração entre gestão e sociedade civil para eliminar a aids até 2030

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Gestores, especialistas e ativistas se reuniram em São Paulo, nesta semana, no encontro das Coordenações Municipais de IST/Aids e das Interlocuções Regionais de Vigilância Epidemiológica do Programa Estadual de IST/Aids de São Paulo. O objetivo foi claro: compartilhar dados, alinhar estratégias e reforçar compromissos para eliminar a aids como problema de saúde pública até 2030.

Entre avanços, alertas e falas contundentes da sociedade civil, um consenso ganhou força: sem integração entre estado, municípios e redes comunitárias — e sem uma comunicação direta e efetiva — não há resposta que se sustente.

“Avançamos muito nas questões médicas e técnicas — diagnóstico, remédios, PrEP, teste rápido —, mas ainda avançamos pouco no combate ao preconceito e à discriminação. O sucesso das políticas vem da soma: técnicos, gestores e pessoas que vivenciam as ISTs no dia a dia”, destacou Silvia Almeida, do Movimento Nacional das Cidadãs Positivas (MNCP).

A abertura do encontro teve um tom acolhedor e trouxe um recado coletivo: é urgente fortalecer laços técnicos, políticos e humanos para que as políticas públicas cheguem, de fato, a quem mais precisa. Representantes de redes de pessoas vivendo com HIV, conselhos municipais, áreas de vigilância epidemiológica e programas parceiros — como os de hepatites e tuberculose — ressaltaram o valor das parcerias e da presença nos territórios.

Do lado da gestão estadual, a mensagem foi reforçada: “trabalhar junto é o melhor caminho”. A promessa é que os dois dias de evento seriam guiados por boas práticas já em curso no estado, apontando para uma resposta mais integrada e eficaz. “Estamos sempre buscando melhorar nossa resposta”, afirmou Alexandre Gonçalves, do Programa Estadual de HIV/Aids de São Paulo.

Cenário epidemiológico do HIV/Aids em São Paulo

A primeira mesa de evento atualizou o retrato da epidemia. A enfermeira Mariza Vono Tancredi, do Programa Estadual de IST/Aids de São Paulo, apresentou tendências de longo prazo e recortes dos últimos dez anos.

“Nos últimos dez anos, a mortalidade por aids caiu 46% em São Paulo. Em 2014, registramos 2.749 óbitos (taxa 6,5/100 mil); em 2023, foram 1.562 (taxa 3,5/100 mil). É uma vitória, mas não um ponto de chegada.”

A enfermeira Mariza Vono Tancredi apresenta dados durante sua fala sobre o cenário epidemiológico em São Paulo

Ela detalhou que, desde 1996, a curva geral de casos deixou de crescer e assumiu tendência de queda, com oscilações por faixa etária. “Vimos picos em 2021 entre 20–24 e 25–29 anos; depois disso, a tendência volta a acompanhar a queda das demais faixas.”

Outro recorte mostrou mudanças por categoria de exposição. “Entre HSH, o modelo mostra crescimento até 2017 e queda a partir daí. Entre heterossexuais, a tendência é linear de queda, com redução média anual — seguimos derrubando casos ano a ano.”

Na dimensão territorial, ela chamou atenção às diferenças regionais. “Em 2023, a taxa de incidência do estado foi 13,3. Alguns GVE ficaram acima da média — como Santos, Caraguatatuba, Capital e São José do Rio Preto — enquanto outros tiveram patamares inferiores. Esse mapa orienta prioridades.”

Sobre o tamanho da coorte de cuidado, Mariza explicou a estimativa de pessoas vivendo com aids. “Calculamos ano a ano: novos casos menos óbitos, somando o ‘resíduo’ do ano anterior. Para 2023, estimamos 154.706 pessoas vivendo com aids no Estado. Esse número é chave para planejar tratamento, insumos e estratégias.”

E reforçou o foco em queda sustentada: “Taxa é risco; o número absoluto alimenta a taxa, mas é a taxa que nos diz se estamos protegendo melhor as pessoas. Manter a queda depende de diagnóstico, início rápido de TARV e retenção.”

Transmissão vertical do HIV e da sífilis: desafios para a eliminação

Na sequência, a pediatra e sanitarista Carmen Domingues, do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo, abordou ganhos e nós críticos da transmissão vertical — do HIV e da sífilis.

Carmen Domingues durante apresentação

“No estado, 2023 registrou 1.036 gestantes com HIV e 1.031 crianças expostas — a notificação do binômio mãe-bebê precisa caminhar pareada. A taxa de detecção em gestantes ficou em 2,1 por mil nascidos vivos, após um repique na pandemia.”

Ela ressaltou que a maioria das grávidas com HIV já era previamente diagnosticada. “Entre 70% e 72% já sabiam do diagnóstico ao engravidar, o que ajuda a cobertura de TARV no pré-natal — que foi de aproximadamente 95% no ano de certificação e se mantém alta, com necessidade de atualização do SINAN para refletir a prática.”

Sobre o marco da eliminação, Carmen foi direta: “Desde 2020, a taxa de transmissão vertical do HIV oscila entre 1,3% e 1,4% — abaixo de 2%, que é o critério para certificação. Isso mostra que São Paulo eliminou a transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública no agregado do estado.”

Mas trouxe um alerta novo e urgente. “Estamos identificando infecções maternas no período de amamentação. De 2019 a meados de 2024, investigamos 15 casos por aleitamento — cerca de 15% das transmissões verticais no período. Carga viral alta na soroconversão aumenta muito o risco: precisamos detectar e agir depressa.”

No bloco de desafios, encadeou pontos críticos e operacionais:

“Diagnóstico precoce é fundamental. Em 2023, 18% das gestantes tiveram diagnóstico no 3º trimestre — precisamos iniciar TARV imediatamente.”

“Tivemos 46 gestantes sem TARV na gestação e 187 com carga viral detectável perto do parto (66 acima de 50 mil cópias e 121 acima de 1.000). Não podemos deixar ninguém para trás.”

“É imprescindível tratar a parceria sexual — e vamos monitorar cobertura; penicilina em todas as UBS, teste rápido sem agendamento e capacitação para leitura e titulação de VDRL. Pré-natal de qualidade salva bebês.”

Ao falar de sífilis, foi taxativa: “Sífilis mata bebês e é 100% prevenível na gestação. A mortalidade subiu em série recente. E o dado que mais nos dói: a maioria das mães de sífilis congênita fez pré-natal. Isso exige rever fluxos, tratar parceiros e reduzir desigualdades regionais.”

Diretrizes nacionais

Representando o Ministério da Saúde, Maria Clara Gianna, que atualmente é consultora do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites e ISTs (Dathi), apresentou o documento nacional, construído entre 2023 e 2024, alinhado ao Brasil Saudável e às metas 95–95–95 do Unaids.

“Eliminar não é erradicar: é atingir metas que quebram a transmissão e diminuem a carga ao ponto de deixar de ser problema de saúde pública.”

Maria Clara Gianna

Ela resumiu os cinco objetivos e destacou metas de curto e médio prazo: “Ampliar prevenção combinada (com foco em PrEP), reduzir pela metade a detecção de novas infecções até 2027, diagnosticar 95%, diminuir diagnóstico tardio e melhorar vinculação. Integração TB-HIV é transversal: sem isso, não batemos as metas.”

Sobre governança e sociedade civil: “As diretrizes só têm sentido no território. Queremos duas chamadas públicas nacionais por ano para fortalecer organizações da sociedade civil, representação social em 100% das UFs e capitais e planos afirmativos para a população negra — enfrentando racismo institucional que dificulta acesso a diagnóstico e prevenção.”

Em transmissão vertical, reforçou o horizonte: “A meta é manter a transmissão vertical do HIV menor que 2% e ampliar a certificação nacional. O Brasil está no caminho da certificação nacional — e São Paulo já mostra capacidade instalada para puxar a fila.”

E fechou com o eixo cultural da resposta: “Sem comunicação em saúde potente, a gente se comunica mal. Precisamos inovar linguagem, reduzir estigma e trazer gente para perto.”

Plano Estratégico Estadual

A coordenadora-adjunta do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo, Rosa Alencar, apresentou a “bússola” paulista: missão, diretrizes e 31 metas. Quase 100% dos municípios prioritários já incorporaram objetivos de ISTs nos planos municipais.

“O plano mostra onde queremos chegar e como chegar. Nosso compromisso é eliminar a aids como problema de saúde pública — prevenindo novas infecções e cuidando melhor de quem vive com HIV.”

Rosa Alencar

Dra. Rosa listou avanços: “a PrEP já chega a grande parte dos municípios — nossa meta está 85% alcançada; PEP 24h cobre 76%; distribuição de preservativos cresceu 37%; e 82% das pessoas iniciam TARV em até 7 dias (queremos 90%). O Fique Sabendo segue com 99% de participação e 550 municípios já usam o SISLOGLAB (Sistema de Controle Logístico de Insumos Laboratoriais).”

E fez o “choque de realidade” na coinfecção: “Em TB-HIV, não estamos bem. Abandono do tratamento é alto e o tratamento preventivo da TB em PVHIV precisa subir muito. Sem enfrentar isso não reduziremos mortalidade.”

Na sífilis, a mesma franqueza: “Temos boa cobertura de tratamento, mas a incidência e a congênita pedem estratégias novas na atenção primária, formação contínua (dada a alta rotatividade), multiplicadores regionais e integração com escolas — agora amparada por lei estadual.”

Comunicação e controle social: “boa notícia também é notícia”

Encerrando o debate coletivo, a jornalista Roseli Tardeli, fundadora da Agência de Notícias da Aids, apresentou o trabalho de comunicação que essa Agência vem desenvolvendo por mais de duas décadas.

Roseli Tardeli destaca a importância da comunicação

Roseli revisitou equívocos históricos — “câncer gay, grupo de risco” — e o custo do estigma. “A comunicação equivocada custou vidas. Se lá atrás tivéssemos falado em vulnerabilidade, e não em comportamento de risco, teríamos menos gente estigmatizada.”

E deixou um manual sucinto para gestores e ativistas: “Seduzam a mídia. Convidem editores para conhecer o serviço, mostrem resultados. Boa notícia também é notícia.”

Entre metas e práticas: o que fica do encontro

O primeiro dia deixou um quadro bem definido:

  • Os dados mostram que é possível avançar — com queda da mortalidade e eliminação da transmissão vertical do HIV no estado.
  • As metas nacionais pedem integração entre programas (como HIV e tuberculose), além de financiamento e monitoramento constantes.
  • O plano estadual aposta em prevenção combinada, início rápido do tratamento (TARV), qualidade dos exames e fortalecimento da atenção primária.
  • Já a sociedade civil e a comunicação aparecem como forças-chave para manter o tema em destaque, ajustar os rumos quando preciso e enfrentar o estigma.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dica de entrevista:

CRT DST/AIDS-SP

Telefone: (11) 5087-9911

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