Em 25 de janeiro de 2026, a cidade de São Paulo completa 472 anos. Uma metrópole marcada por contrastes, desigualdades profundas e, ao mesmo tempo, por uma capacidade histórica de reinvenção. Ao longo de quase cinco séculos, São Paulo cresceu, adensou-se, espalhou-se e se tornou o maior centro urbano da América Latina. Mas, junto com o concreto, os trilhos e as avenidas, também se desenhou um mapa complexo da saúde pública — onde epidemias revelam, com nitidez, quem tem acesso ao cuidado e quem permanece à margem.
Para abrir esta série especial, apresentamos um raio-x da epidemia de HIV e aids na capital paulista, a partir dos dados do Boletim Epidemiológico de HIV/aids 2025, elaborado pela Coordenadoria de IST/Aids da Secretaria Municipal da Saúde. Os números mais recentes mostram avanços importantes, mas também expõem desigualdades persistentes que atravessam raça, território, gênero e geração.
Uma epidemia em queda — mas não homogênea
São Paulo vive, desde 2016, uma redução contínua nos novos casos de HIV. Em oito anos, o número de diagnósticos caiu 53%, passando de 3.761 para 1.766 casos em 2024. A taxa de detecção seguiu a mesma trajetória, com queda de 54,7%, chegando a 14,7 casos por 100 mil habitantes. Trata-se de um marco relevante para uma cidade que, por décadas, esteve no epicentro da epidemia no Brasil.
Essa tendência de queda é observada tanto entre homens quanto entre mulheres, embora de forma desigual. Entre os homens, a redução foi mais acentuada: 56,9% no período. Entre as mulheres, a queda foi de 33,3%. Essa diferença impactou diretamente a chamada razão de sexo — proporção entre casos masculinos e femininos — que historicamente se manteve em 5 homens para cada mulher diagnosticada, mas que caiu para 3:1 em 2023 e 2024. O dado sinaliza mudanças importantes na dinâmica da epidemia, mas não significa, necessariamente, equidade.
Juventude: uma virada histórica

Durante muitos anos, adolescentes e jovens concentraram parte significativa das novas infecções pelo HIV em São Paulo. Em 2024, porém, a cidade registrou um dado histórico: a faixa etária de 15 a 24 anos apresentou uma redução de 59% nos novos casos em comparação a 2016.
Entre adolescentes de 15 a 19 anos, as notificações caíram quase 64%. Entre jovens de 20 a 24 anos, a queda foi de 57%. Esses números refletem, em parte, a ampliação das estratégias de prevenção combinada, o acesso ao teste rápido, a expansão da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e ações extramuros voltadas especialmente às juventudes urbanas.
Ainda assim, o boletim mostra que as taxas seguem mais elevadas entre jovens homens, especialmente na faixa de 20 a 29 anos, revelando que o desafio da prevenção entre populações-chave permanece central na resposta à epidemia.
Raça e cor: onde a epidemia pesa mais

Se, no panorama geral, os números indicam queda, o recorte racial escancara desigualdades estruturais. Em 2024, 58,3% dos novos diagnósticos de HIV em São Paulo ocorreram entre pessoas negras — pretas e pardas — enquanto pessoas brancas representaram 38,8% dos casos.
Entre as mulheres, a disparidade é ainda mais contundente: quase 63% das mulheres diagnosticadas com HIV são negras. Entre os homens, esse percentual chega a 56,9%. Mesmo com a redução das taxas de detecção em todos os grupos raciais, as distâncias permanecem alarmantes. A taxa entre mulheres pretas é mais de seis vezes maior do que entre mulheres brancas. Entre os homens, a taxa entre pretos segue mais de quatro vezes superior à registrada entre brancos.
Esses dados revelam que o HIV não se distribui de forma aleatória na cidade. Ele acompanha linhas históricas de exclusão, racismo estrutural, desigualdade de renda e acesso desigual aos serviços de saúde.
O território importa
São Paulo é uma cidade de muitas cidades. E o HIV também se distribui de maneira desigual em seu território. Todas as Coordenadorias Regionais de Saúde apresentaram queda nas taxas de detecção, mas com ritmos distintos.
A região Central, historicamente marcada como epicentro da epidemia, registrou uma das maiores reduções: mais de 71% entre 2016 e 2024. Os casos caíram de 629 para 180, e a taxa de detecção despencou de 139,5 para 38,8 por 100 mil habitantes. O dado reflete o impacto de políticas focalizadas, ampliação de serviços especializados e ações de prevenção em áreas de maior vulnerabilidade.
Ainda assim, bolsões de maior incidência persistem, especialmente em regiões periféricas, onde o acesso ao diagnóstico precoce, à prevenção e ao cuidado contínuo segue sendo um desafio cotidiano.
Aids: menos diagnósticos, desafios antigos
A queda nos casos de HIV tem reflexo direto na redução dos diagnósticos de aids. Entre 2015 e 2024, os novos casos caíram 41,4%, passando de 2.466 para 1.445. O acesso mais rápido ao diagnóstico e o início imediato da terapia antirretroviral transformaram o curso da infecção, reduzindo a progressão para a aids.
Mesmo assim, em 2024, mais de 80% dos casos de aids ainda ocorreram entre homens. Entre eles, homens que fazem sexo com homens seguem representando a maior proporção das notificações, seguidos por homens heterossexuais. O dado reforça a necessidade de estratégias específicas de prevenção, testagem regular e cuidado contínuo para esses grupos.
A taxa de mortalidade por aids também caiu de forma expressiva: redução de 43,6% em uma década. Ainda assim, as mortes seguem mais frequentes entre pessoas negras, revelando que o acesso tardio ao diagnóstico e as barreiras ao tratamento continuam produzindo desfechos desiguais.
Transmissão vertical: um marco da cidade

São Paulo é referência nacional na eliminação da transmissão vertical do HIV. A cidade foi certificada pelo Ministério da Saúde em 2019 e recertificada em 2021 e 2023. Em 2024, a taxa de transmissão vertical foi de apenas 0,02 por mil nascidos vivos — muito abaixo do limite estabelecido para a certificação.
Mais de 96% dos recém-nascidos expostos ao HIV receberam profilaxia antirretroviral nas primeiras 24 horas de vida. O dado reflete a robustez da rede de atenção pré-natal e o acompanhamento sistemático de gestantes vivendo com HIV, mesmo em uma cidade que realiza mais de 120 mil partos por ano.
Prevenção combinada e inovação
Parte importante dessa virada está ligada à ampliação do acesso à prevenção. São Paulo conta hoje com mais de 62 mil pessoas cadastradas para uso da PrEP na rede municipal. Entre 2023 e 2024, o número de novos usuários negros cresceu 63%, sinalizando avanços na equidade do acesso.
A cidade investiu em estratégias inovadoras: serviços digitais, unidades itinerantes, ações extramuros, testagem em larga escala e máquinas automáticas de distribuição de PrEP e PEP em estações de metrô. Apenas em 2024, mais de 75 mil testes rápidos foram realizados fora das unidades de saúde — um aumento de 130% em relação ao ano anterior.

Uma cidade que envelhece — e convive com o HIV
Outro dado que emerge com força no boletim é o envelhecimento da epidemia. Cresce o número de pessoas com 50, 60 anos ou mais vivendo com HIV em São Paulo. Esse fenômeno reflete o sucesso do tratamento, mas também impõe novos desafios ao SUS: cuidado integral, manejo de comorbidades, saúde mental e enfrentamento do estigma em todas as fases da vida.
Ao completar 472 anos, São Paulo pode celebrar avanços concretos na resposta ao HIV e à aids. Mas os números, por si só, não contam toda a história. Eles apontam caminhos, denunciam desigualdades e lembram que epidemias são, antes de tudo, fenômenos sociais.
Este é apenas o primeiro capítulo de uma série que pretende olhar para São Paulo com lupa e humanidade — entendendo que, em cada dado, existe uma vida, um território e uma história que importa.
Redação da Agência de Notícias da Aids



