São Paulo, 471 anos: Prevenção Para Todxs, transformando a Brasilândia com educação sexual e acesso a informações sobre prevenção combinada

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São Paulo, uma metrópole vibrante com mais de 12 milhões de habitantes, é um mosaico de histórias e culturas. Embora conhecida por suas oportunidades, riqueza, inovação e arte, a cidade também enfrenta profundas desigualdades, especialmente em suas periferias. No aniversário de 471 anos da capital paulista, a Agência Aids presta homenagem às diversas vozes que combatem o HIV/aids, destacando iniciativas de luta e resistência.

Na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, surgiu o Projeto Prevenção Para Todxs, uma iniciativa dedicada a oferecer acolhimento e disseminar informações de qualidade sobre prevenção ao HIV/aids, autocuidado, consentimento e cidadania para crianças, jovens e adolescentes. Desde sua fundação em 2021, o coletivo tem intensificado suas atividades nas comunidades, com ênfase na educação em saúde sexual e no acolhimento.

Prevenção nas escolas

As ações do projeto incluem palestras em escolas públicas, rodas de conversa em igrejas, batalhas de rima e feiras de rua, impactando centenas de pessoas. Em 2022, foram distribuídos mais de 2.000 preservativos internos, 3.975 preservativos externos e realizados 71 autotestes de HIV. No ano seguinte, em 2023, foram entregues 580 preservativos internos, 580 géis lubrificantes, 1.740 preservativos externos e realizados 27 autotestes de HIV. Em 2024, o total distribuído foi de 985 preservativos internos, 3.455 preservativos externos, 3.455 géis lubrificantes, 223 autotestes de HIV, além de 19 atendimentos em parceria com o SAE Nossa Senhora do Ó.

Thiago Araújo, ativista, fundador e coordenador do coletivo, relata que a ideia do projeto surgiu a partir de uma experiência pessoal. Após uma relação sexual desprotegida, ele buscou a Profilaxia Pós-Exposição (PEP) na Brasilândia, mas, devido à pandemia de Covid-19, o serviço não estava disponível na Zona Norte de São Paulo naquele momento. “Eu tive que ir até a Barra Funda para conseguir acesso. Eu consegui, mas fiquei pensando: e se fosse uma pessoa vítima de abuso sexual? Ela teria que se deslocar da Brasilândia até o centro, porque na região não tinha PEP disponível”, compartilha.

 

Diante dessa realidade, Thiago e o comitê do bairro, que já distribuíam cestas básicas, começaram a fornecer preservativos e autotestes de HIV para avaliar o nível de informação da população local. Os resultados foram alarmantes: muitas pessoas nunca tinham ouvido falar do autoteste ou visto um preservativo interno. “Descobrimos que essas informações simplesmente não chegam à periferia”, relembra Thiago.

O que começou como uma pequena iniciativa transformou-se em um coletivo organizado, hoje composto por quatro integrantes. A iniciativa foi contemplada por um edital público da Coordenadoria de IST/Aids no final de 2021, focado em apoiar coletivos. “Nós moramos na região da Brasilândia, mas atuamos onde vemos oportunidade. Então aqui pela região tentamos abraçar escolas de outras áreas, como Taipas, Cachoeirinha, Carumbé e etc.”, explica Thiago.

Periferias na promoção da saúde

O Projeto Prevenção Para Todxs exemplifica a força das periferias paulistanas na promoção da saúde e na luta contra o HIV/aids, evidenciando que, mesmo diante de desafios, é possível construir pontes de conhecimento e cuidado nas comunidades.

Thiago destaca a força das vozes das favelas, mas ressalta os inúmeros desafios enfrentados. Ele lamenta que as comunidades periféricas sejam frequentemente negligenciadas. Abordar a educação em sexualidade, que envolve temas sensíveis como violência, com um público vulnerável, é uma tarefa desafiadora. Thiago enfatiza que o principal objetivo das atividades é fornecer informação, sem julgamentos. “Explicamos que estamos ali porque o poder público não alcança a periferia. Nós falamos como iguais, dentro do bairro. Dizemos: se nós não estivermos aqui falando com vocês, ninguém vai falar, a informação não vai chegar.”

Ele observa que, embora haja avanços, eles ocorrem de forma lenta. “Notamos um progresso: hoje eles têm um nível de informação maior do que na época em que me formei, em 2017. Muitos já ouviram falar sobre PrEP e autoteste, mas ainda é difícil tratar do tema dentro das escolas. Tivemos que negociar com uma escola por seis meses para conseguir entrar.”

Nas escolas da Brasilândia

Nas escolas, o coletivo incentiva os alunos a dialogarem com seus pais sobre prevenção, ISTs e HIV. Contudo, a maioria relata a ausência desse diálogo em casa, com pais transferindo a responsabilidade para a escola, que, por sua vez, devolve essa responsabilidade aos pais.

Thiago observa que os meninos tendem a fazer perguntas mais imaturas, enquanto as meninas demonstram preocupação com formas de prevenção à gravidez e sobre a PEP, refletindo um possível medo de violência sexual. Além disso, o coletivo aborda temas como identidade de gênero e sexualidade, sendo convidado a discutir LGBTfobia e a história do movimento LGBT em algumas escolas, aproveitando essas oportunidades para ensinar sobre preservativos internos e externos, utilizando uma nomenclatura inclusiva.

Apesar das dificuldades em acessar certos espaços, Thiago considera o saldo geral positivo. “Não imaginávamos, mas no ano passado, fizemos uma palestra em uma igreja. Isso nos surpreendeu.”

Periferias no centro das discussões

São Paulo é uma cidade de muitas oportunidades, mas também de profundas desigualdades, que não apenas vulnerabilizam certos grupos, mas limitam oportunidades e sonhos. Iniciativas como o Prevenção Para Todxs existem para contrariar essa norma, transformar a realidade e garantir um pouco mais de dignidade para a juventude periférica paulistana.

Coletivo cria banco de imagens para quebrar os estereótipos sobre a periferia

“A mensagem que fica nesse aniversário de São Paulo é que as periferias não podem ser esquecidas. A cidade avançou sim [na luta contra a aids] e isso é incrível, mas também é bizarro ver o contraste. O avanço precisa ser completo”, finaliza.

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

E-mail: prevencaoptodxs@gmail.com

Instagram: @prevencaoparatodxs

WhatsApp: 11930502429

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