
No aniversário de 471 anos de São Paulo, seguimos contando histórias que inspiram. Hoje, destacamos a trajetória de uma instituição que transforma vidas com base no amor e na solidariedade. A ONG Mulheres da Luz tem se dedicado à prevenção, acolhimento e assistência, promovendo qualidade de vida para as trabalhadoras do sexo na região da Luz, no centro da cidade. Fundada pela ativista Cleone Santos, que faleceu em 2023, a organização já apoiou milhares de mulheres em situação de prostituição ao longo de mais de 20 anos de atuação.
Essas mulheres fazem parte de um grupo social que representa uma parcela significativa das pessoas mais afetadas pelo HIV/aids e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Por isso, a ONG coloca essa causa no centro de suas ações.
De acordo com o relatório global do Unaids Enfrentando Desigualdades – Aprendizados dos 40 anos de Aids para respostas a pandemias, publicado em 2021, as trabalhadoras do sexo estão 26 vezes mais expostas ao risco de contrair HIV em comparação à população geral, enquanto mulheres trans estão 34 vezes mais expostas.
Atualmente, o ativista João Silva lidera a organização, dando continuidade ao legado de Cleone Santos, sempre com o propósito de melhorar as condições das trabalhadoras do sexo. Em entrevista à Agência Aids, João compartilhou os desafios e as iniciativas da instituição.

“Na região, temos em torno de 600 mulheres. Elas se dividem porque a prostituição de rua tem características diferentes das outras formas de prostituição. Muitas vezes, essas mulheres migram para outros locais dependendo das datas ou do fluxo de clientes. O maior desafio é que a prostituição de rua tem características próprias. Enquanto a prostituição em geral já enfrenta estigmas e preconceitos, a de rua é ainda mais marginalizada”, explicou.
Segundo ele, fatores como idade e cor da pele agravam ainda mais o preconceito. “As mulheres, muitas vezes, não têm idade avançada, mas, para a prostituição, já são vistas como ‘velhas’. A maioria das mulheres que atendemos tem mais de 40 anos, com algumas chegando a 78. Já as mais jovens, geralmente negras, acabam na rua porque muitas casas de prostituição não as aceitam. Elas privilegiam mulheres brancas ou de pele mais clara”, destacou.
João também apontou que um dos principais focos da ONG é a prevenção de ISTs. A organização conta com cerca de 25 voluntários que atuam em diferentes áreas, como saúde, alimentação e atendimentos emergenciais.
A ONG mantém um espaço de acolhimento no Parque da Luz, em parceria com a Secretaria do Verde e Meio Ambiente. “O local conta com três salas pequenas, onde as mulheres podem descansar, conversar e tomar um lanche. Também realizamos atividades com psicólogas e assistentes sociais voluntárias, além de oferecer serviços de saúde. Muitas mulheres têm dificuldade de acessar o SUS por causa do constrangimento que sentem como trabalhadoras do sexo. É importante que elas se sintam bem atendidas e acolhidas”, afirmou.

Muitas mulheres atendidas pela ONG não revelam às famílias que são trabalhadoras do sexo, o que dificulta o uso de materiais informativos por medo de serem descobertas. Além disso, o analfabetismo ou dificuldades de compreensão limitam o alcance de estratégias como o autoteste para HIV.
João ainda comentou sobre as mudanças recentes na região da Luz que impactam diretamente a prostituição. “Dois prédios usados exclusivamente para serviços sexuais foram fechados, assim como outros pontos de prostituição. Isso fez com que muitas mulheres migrassem para as ruas e ocupassem áreas diferentes da cidade.”
Apesar dos avanços na redução dos casos de HIV em São Paulo, João acredita que é preciso ampliar as ações de prevenção com foco nas trabalhadoras do sexo. “As trabalhadoras do sexo ainda são vistas sob uma ótica médica ou policial. Falta um olhar mais abrangente para elas. Muitas não conseguem continuar na profissão porque deixam de ser vistas como ‘mercadoria’ pelos clientes e acabam sem opções de reinserção na sociedade”, concluiu.
Histórias que inspiram
Bia Oliveira*, 45, é uma das mulheres atendidas pela ONG e hoje atua como agente de prevenção. Moradora de Perus, na zona norte de São Paulo, ela foi profissional do sexo na região da Luz por mais de 20 anos. “Conheci a ONG durante a pandemia. A rua ficou muito difícil para trabalhar, e eles me ajudaram com alimentação, fraldas para minha filha, leite e produtos de higiene íntima. Foi assim que conheci Cleone e João”, contou.
Após esse período, Bia foi convidada para integrar as ações de prevenção às ISTs. “Eles mudaram a minha vida. Hoje, além de ser agente de prevenção, acompanho outras mulheres para acessar o posto de saúde no Campos Elíseos. A ONG distribui kits de higiene, cestas básicas e, sempre que possível, doações como shampoos e produtos de beleza”, disse emocionada.
“Há um ano, tivemos uma oficina de bijuteria que mudou minha perspectiva. Hoje continuo trabalhando com a ONG e também faço bijuterias. Graças a eles, consegui sair das ruas. Sou muito grata por tudo o que fizeram por mim”, finalizou.
Outras histórias de transformação continuam sendo escritas diariamente pela ONG Mulheres da Luz, uma iniciativa que segue iluminando vidas no coração de São Paulo.
*O nome da entrevistada foi alterado para preservar sua identidade.
Kéren Morais (keren@agenciaids.com.br)
Dica de entrevista
Instagram: @mulheresdaluz_


