Santo Estêvão: prefeitura vaza exames de HIV de crianças e dados bancários na web, comunica A Tarde

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Ponto mais crítico da denúncia envolve a exposição de dados de menores de idade

A rotina de prestação de contas na rede pública de saúde de Santo Estêvão, município do centro-norte baiano se tornou uma grave violação de privacidade da população. Uma representação protocolada nesta terça-feira, 18, no Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) e no Tribunal de Contas dos Municípios (TCM-BA) aponta um grave vazamento de dados de saúde de pacientes da rede pública da cidade.

A falha, conforme denúncia a qual o portal A TARDE teve acesso, ocorreu sob a gestão do prefeito Tiago Gomes Dias, conhecido como Tiago da Central (União Brasil), ao disponibilizar relatórios de faturamento sem restrição de acesso em portal público, o que ocasionou na publicização de dados de saúde dos pacientes da cidade baiana.

A dimensão do vazamento atinge a intimidade de famílias inteiras. Sem necessidade de senha ou cadastro prévio, qualquer cidadão tinha acesso a nomes completos, CPFs, datas de nascimento e resultados de exames de mais de 290 pacientes em um único mês. A exposição alcançou o processo de prestação de contas do Tratamento Fora do Domicílio (TFD), colocando ao alcance do público cartões do SUS, certidões de nascimento, extratos bancários e faturas residenciais.

Outro ponto crítico da denúncia envolve a exposição de dados de menores de idade e diagnósticos protegidos por legislação federal específica. Foram divulgados:

Exames de HIV e Hepatite B: uma lista filtrada expôs 46 pessoas testadas para as patologias, grupo que inclui 22 menores de idade (de recém-nascidos a adolescentes).
ISTs em menores: ao menos dois menores constavam na lista de procedimentos de infecções sexualmente transmissíveis.
Alertas ignorados: os relatórios médicos continham o aviso explícito de documento sigiloso, mas foram publicados na íntegra.

Irregularidades administrativas
A apuração indica que a exposição não decorreu de um ataque hacker, mas de um protocolo interno deficitário. O próprio checklist do setor de compras da prefeitura previa a anexação das listas nominais sem prever etapas de anonimização.

Além disso, o contrato firmado com o laboratório credenciado carecia de cláusulas de confidencialidade alinhadas à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), e a fiscalização do serviço era atestada por uma servidora sem portaria pública de nomeação. A representação aponta ainda discrepâncias financeiras, com o volume faturado pelo laboratório sendo cinco vezes superior ao comprovado nos documentos anexados.

Ou seja, entre as falhas identificadas estão:

Rotina interna: o checklist do setor de compras previa a anexação da lista nominal sem qualquer etapa para tarjar ou anonimizar dados.
Contrato sem proteção: o instrumento firmado com o laboratório credenciado não continha cláusulas de confidencialidade ou LGPD.
Fiscalização sem designação: o atesto do serviço foi assinado por servidora sem portaria pública de nomeação para a função.
Inconsistência financeira: o volume faturado pelo laboratório é cinco vezes superior ao comprovado nos relatórios anexados.

Pedido de sanções e cerco jurídico
O documento submetido aos órgãos de controle exige uma resposta institucional rigorosa e imediata. A representação solicita o envio do caso à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) para apurar infrações à LGPD, a remoção imediata dos arquivos, auditoria ampla nos pagamentos da prefeitura e a notificação às vítimas.

No plano político e administrativo, o desgaste recai diretamente sobre a cúpula da pasta. Diante da gravidade, a ação pede expressamente a exoneração imediata do Secretário Municipal de Saúde, Uallen Barbosa, sob o argumento de prevaricação e falha grave de fiscalização na salvaguarda de informações sensíveis

A exposição viola a LGPD, a Lei de Acesso à Informação, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Lei 14.289/2022. Para além do desgaste, a exposição indevida projeta consequências concretas sobre a população, submetendo os cidadãos a riscos iminentes de estigmatização social, vazamento de dados bancários e golpes financeiros.

MP-BA investiga
O Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) confirmou o recebimento da notícia de fato, registrada formalmente na última terça-feira, 18. O expediente foi encaminhado à Promotoria de Justiça com atribuição para avaliar o assunto. De acordo com a instituição, o documento passará por triagem inicial para definir os desdobramentos legais e as providências a serem tomadas.

Prefeitura se cala

Procurada pela reportagem para esclarecer as falhas no sistema de publicação, a ausência de mecanismos de anonimização e os indícios de inconsistência financeira nos contratos, a Prefeitura de Santo Estêvão optou pelo silêncio. A gestão não respondeu questionamentos enviados até o fechamento desta reportagem.

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