Projeto de musicoterapia existe desde 2008 e ajuda na criação de vínculo entre frequentadores; Usuários do serviço tocam instrumentos, e roda de samba se apresenta em outros centros de saúde
Jorge dos Santos, 51, aprendeu a gostar de música com as emissoras de rádio AM que sintonizava na década de 1980, em Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense, a 20 km do Rio de Janeiro.
Marcos Machado, 40, conheceu o pai somente na adolescência, mas atribui a ele, um compositor de sambas, o gosto pela música popular desde a infância.
Os dois fazem parte de uma roda de samba dentro do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) Mané Garrincha, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Jorge canta e toca pandeiro, Marcos toca tantã. Os integrantes são usuários do SUS (Sistema Único de Saúde) em tratamento por uso abusivo de álcool e outras drogas.
Homem sorridente toca pandeiro sentado em ambiente interno, com toalha no ombro. Outra pessoa ao fundo também segura pandeiro, enquanto duas pessoas estão desfocadas em primeiro plano.Homem sorridente toca pandeiro sentado em ambiente interno, com toalha no ombro. Outra pessoa ao fundo também segura pandeiro, enquanto duas pessoas estão desfocadas em primeiro plano.
“Neste tratamento, a gente foge da rotina de medicação, o procedimento básico. É um momento de descontração e de voltar a momentos felizes do passado, que por algum tropeço da vida acabamos nos afastando”, diz Marcos.
A ideia da roda foi de Vinicius de Souza Teixeira, profissional que atua com musicoterapia na rede pública municipal de saúde desde 2008. A prefeitura mantém 43 Caps no Rio, nem todos possuem a atividade.
No Mané Garrincha, onde 408 pessoas estão com atendimento ativo, as apresentações de samba às sextas-feiras nasceram como um braço da terapia musical com os usuários do serviço. O grupo, com cerca de 15 integrantes, se apresenta em clínicas da família e centros de saúde do município.
Músico profissional e identificado com o rock, Teixeira aprendeu a tocar cavaquinho com um usuário do Caps. Segundo ele, quase todos os integrantes semanais são pessoas em tratamento —eventualmente, algum funcionário do Caps completa o time. A roda é aberta a familiares.
“Cada gênero musical é parte de uma coletividade. Chamamos de identidade sonora na terapia. No caso do Rio de Janeiro, de um povo negro e periférico, o samba aparece forte nessa coletividade. Eles conseguem contar suas histórias através das músicas”, afirma.
Um dos maiores entusiastas da roda é Jorge, que diz precisar de tratamento psicológico desde 2015. Ogã do candomblé e artista de rua na juventude, ele conheceu o Caps Mané Garrincha em momento de vulnerabilidade pelo abuso de substâncias.
“Já fiz diversos tratamentos em diversas instituições. O tratamento tem altos e baixos, como a vida, e cheguei neste Caps em uma fase de baixa. Mas quando entrei, descobri que além de todo o suporte psicológico e de enfermaria, ainda tem terapia musical e roda de samba. Você acha que vou querer ter alta daqui?”, brinca.
A roda de samba é uma atividade livre, quase autogerida. Já na terapia musical, em outro horário, Teixeira usa o violão para tocar músicas que provocam a memória afetiva dos atendidos, na busca por abertura ao diálogo e reflexão.
O Caps Mané Garrincha também oferece círculos de conversa sobre família e trabalho, além de oficinas de higiene pessoal e atividade com poesia. Mas a roda é a mais esperada por eles.
“O paciente usuário de álcool e outras drogas tem maior dificuldade de vinculação ao SUS. Então, chegar num espaço que não tem cara de hospital, com música rolando, cria aberturas. A maioria dos pacientes tem algum grau de inadequação social, e a roda ajuda psiquicamente. Com o tempo, eles começam a fazer contato entre si”, diz Teixeira.
O paciente usuário de álcool e outras drogas tem maior dificuldade de vinculação ao SUS. Então, chegar num espaço que não tem cara de hospital, com música rolando, cria aberturas. A maioria dos pacientes tem algum grau de inadequação social, e a roda ajuda psiquicamente
Seis homens sentados e um em pé tocam diversos instrumentos de percussão em sala com paredes claras e plantas ao fundo. A iluminação natural entra pela lateral, destacando os instrumentos e expressões concentradas.Seis homens sentados e um em pé tocam diversos instrumentos de percussão em sala com paredes claras e plantas ao fundo. A iluminação natural entra pela lateral, destacando os instrumentos e expressões concentradas.
O conjunto de integrantes do samba é rotativo e varia conforme a presença. Alguns deixam o tratamento e param de frequentar. Quem recebe alta médica acaba sendo uma baixa na roda.
Na visita que a reportagem da Folha fez ao samba, no dia 9 de janeiro, Marcos estava de mochila porque sairia dali para o trabalho. Ele tem a alta médica encaminhada.
“A gente chega em vulnerabilidade social total e é ajudado a se reerguer. Mas somos tão bem tratados, bem aparados, que demoramos para assimilar essa informação [a alta]. Eu estou com um pé fora e outro dentro, assimilando aos poucos.”



