Folha de S.Paulo: Mais educação e informação para que a prevenção chegue aos jovens antes do HIV – por Roseli Tardelli

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Ao promover saúde e conhecimento, é possível quebrar a cadeia de transmissão neste século 21

Educação e informação deveriam fazer parte de uma receita cotidiana quando o assunto é prevenção a infecções sexualmente transmissíveis e, particularmente, ao HIV e a Aids. Até hoje, 43 anos depois do surgimento dos primeiros casos, muita gente não sabe que o HIV é o vírus que causa a doença Aids.

Se não for tratada corretamente com adesão aos antirretrovirais, leva a pessoa a óbito. Os antirretrovirais surgiram em 1996 e estagnaram o número de mortes, que avançavam rapidamente. A maneira correta de se referir a uma pessoa que se infectou com o HIV é “pessoa vivendo”. Não se usa mais soropositivo e —jamais, jamais— “aidético”.

Nenhuma doença vem antes da pessoa. Faltou interesse, faltou curiosidade, faltou informação? Sim, mas, antes de tudo, tem faltado educação. Infelizmente, quatro décadas depois, as ações de educação, quando falamos sobre sexualidade saudável, são raras.

Considero sexualidade saudável diálogo sobre o tema, respeitando, incluindo, acolhendo todas as formas de expressão de amor. Esse diálogo não está presente nas famílias, nas empresas, nas escolas, na vida. O silêncio permeia as vivências de amor e sexualidade. O mundo vive uma onda conservadora de costumes que em absolutamente nada contribui com o nosso trabalho de esclarecer, informar e tornar acessíveis os diferentes instrumentos que temos quando falamos sobre prevenção.

Um bom exemplo é o “I=I”. Em 2016, a Prevention Access Campaign, uma importante ONG com sede em Nova York, baseando-se em um consenso científico lançou a campanha “I=I” —ou “Indetectável é igual a Intransmissível”. Uma pessoa que vive com HIV em uso dos medicamentos antirretrovirais por pelo menos seis meses fica com sua carga viral indetectável e não transmite mais o vírus em relações sexuais.

Imediatamente a Organização Mundial de Saúde, o Fundo Global, o Unaids (programa das Nações Unidas para o HIV e a Aids) e o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), dos Estados Unidos, aderiram à campanha. O “I=I” é importante porque a adesão é contínua ao tratamento, além de promover qualidade de vida para quem se infectou e barrar a cadeia de transmissão do vírus.

A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e a Profilaxia Pós-Exposição (PEP) são instrumentos à disposição no Brasil e no mundo. Ambas impedem a infecção pelo HIV. Para a utilização da PrEP, o paciente toma comprimidos antes da relação sexual. Um medicamento 2 em 1 (tenofovir e entricitabina). O acompanhamento é feito regularmente por profissionais de saúde, com testagem para o HIV e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Já a PEP é um tratamento de urgência que consiste na administração de medicamentos antirretrovirais para reduzir o risco de contrair HIV, hepatites virais e outras IST.

A PEP deve ser iniciada o mais rápido possível, de preferência nas primeiras duas horas após a exposição e no máximo em até 72 horas. As duas profilaxias estão à disposição no Sistema Único de Saúde (SUS). Também há distribuição gratuita de preservativo interno (feminino) e externo (masculino) e gel lubrificante.

Temos também testagem e tratamento e outras possibilidades à disposição, como a mandala da prevenção, adotada pelo Brasil. São a combinação de ações que contribuem para que a população em geral e as mais vulneráveis consigam se prevenir e barrar infecções pelo HIV.

Os alunos que frequentam os cursos do Senac São Paulo têm recebido anualmente essas informações, depoimentos de pessoas que vivem com o vírus e dicas sobre saúde sexual e reprodutiva feitas por psicólogos e infectologistas desde 2006. Um projeto que trouxemos e solidificamos com o passar do tempo.

Outras instituições de ensino que existem no Brasil podem educar mais, promover saúde e trabalhar contra novas infecções. Temos impactado positivamente adolescentes que participam dos cursos no Senac. A informação tem chegado a muitos desses alunos antes que o HIV surja. Fundamental para prevenir, promover saúde. Essencial mostrar que é sim possível, com a apropriação desses conceitos, contribuir para quebrar a cadeia de transmissão do HIV no século 21, principalmente entre os jovens.

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