Rodrigo Bressan: cuidar antes de adoecer — Estadão

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Referência em prevenção de transtornos mentais, psiquiatra defende um novo olhar para saúde mental

Há mais de duas décadas, o psiquiatra Rodrigo Bressan tenta mudar a lógica com que a sociedade encara o sofrimento psíquico. Em vez de tratar apenas as crises, ele busca evitá-las — antes que causem cicatrizes mais profundas. Professor livre-docente da Escola Paulista de Medicina da Unifesp e PhD pelo King’s College de Londres, Bressan é hoje um dos maiores especialistas brasileiros em prevenção de transtornos mentais. Foi presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria Biológica e coordena o Programa Nacional de Depressão na Infância e Adolescência — trajetória que o transformou em referência internacional no tema.

“Os transtornos mentais acometem cerca de 25% da população. Se você não tem um, alguém muito próximo tem — e não dá mais para ignorar”, afirma, em entrevista à Coluna. O estigma, explica, é uma das maiores barreiras à recuperação. “Ele pode atrasar em até doze anos a busca por ajuda. Isso significa mais sofrimento, perda de vínculos e incapacitação.” E as consequências aparecem cedo: jovens que abandonam a escola, famílias que se desestruturam, adultos que perdem perspectivas e propósito.

Para Bressan, o futuro da psiquiatria está na prevenção — e não no tratamento tardio. “Setenta e cinco por cento dos transtornos do adulto começam antes dos 24 anos; metade antes dos 14”, explica. É na infância e na adolescência, portanto, que se deve agir. Foi a partir dessa constatação que criou o Instituto Ame Sua Mente, voltado a estruturar intervenções educativas dentro das escolas. “O professor é um agente essencial de saúde mental. Quem conhece o jovem de perto percebe quando algo muda — e pode encaminhar para o cuidado.” O instituto, nascido de um projeto acadêmico na Unifesp, forma educadores, cria redes de acolhimento e dissemina o letramento em saúde mental. “Pouca gente faz prevenção com base científica. Essa é a forma mais eficaz de evitar sofrimento — e também de economizar recursos”, afirma. A proposta, explica, é incluir a saúde emocional na rotina escolar com a mesma naturalidade que se ensina matemática ou ciências. “Falar sobre o que se sente é uma competência. O jovem precisa ter vocabulário emocional.”

Falar sobre o que se sente é uma competência. O jovem precisa ter vocabulário emocional.

Em parceria com o psiquiatra Pedro Plana, Bressan fundou também o Mind Check, primeira startup brasileira dedicada ao check-up de saúde mental. “É onde tudo começa”, resume. A plataforma cruza dados sobre sono, batimentos cardíacos, tempo de tela e hábitos de vida com questionários respondidos por jovens e pais. “Usamos uma inteligência artificial que reflete a forma como pensamos”, explica. O objetivo é detectar riscos e orientar mudanças de comportamento antes que o sofrimento se instale. “É um jeito inovador de desmistificar o tema e ajudar as pessoas a agir na prática.” O projeto tem conquistado adesão crescente em escolas e empresas — e os resultados, segundo ele, confirmam o impacto de agir cedo: “Quando se cuida antes, reduz-se o sofrimento e evita-se o adoecimento.”
Nos últimos anos, Bressan viu a saúde mental dos jovens ganhar visibilidade. “Não é que piorou de repente — é que o que estava debaixo do tapete veio à tona.” Ainda assim, ele alerta para os efeitos da vida digital. “As redes sociais são muito eficazes em capturar nossa atenção, e isso afeta especialmente crianças e adolescentes. Eles passam quatro, seis horas diante da tela, deixam de viver a vida relacional e desenvolvem dependência.”

A identidade do adolescente se forma no olhar do outro — e esse outro, hoje, está na tela. Ser popular é ótimo, mas se você é impopular, está no lixo.

Essa imersão, diz, transforma a própria construção da identidade. “A identidade do adolescente se forma no olhar do outro — e esse outro, hoje, está na tela. Ser popular é ótimo, mas se você é impopular, está no lixo.” A preocupação aumenta com a chegada dos AI companions, assistentes virtuais criados para interagir emocionalmente com os usuários. “Ninguém sabe o impacto que isso vai ter. Não é apenas uma tela — é um companheiro constante. O problema maior não é a burrice artificial, é a estruturação emocional.”

Consultor da Meta em Palo Alto, Bressan participa de grupos que estudam a relação entre inteligência artificial e saúde mental juvenil — “um desafio sem manual”, diz. Ele acredita que lidar com as próprias emoções é uma competência que precisa ser treinada, como qualquer outra. “Temos que aprender a negociar estados de mente. Se recebo um estímulo triste, preciso entristecer e depois voltar. Se não passo pela tristeza, não consigo pensar.”

Quando se cuida da saúde mental antes, reduz-se o sofrimento e evita-se o adoecimento.

Ao falar sobre o fim do ano, quando comparações e balanços pessoais intensificam o estresse, faz um alerta: “É um momento potencial de felicidade, mas também de dor. Quando você espera estar cercado de gente e não está, sente exclusão. É preciso se preparar para isso.” Para ele, essa vulnerabilidade que se intensifica no fim do ano é um lembrete de como todos estamos sujeitos às oscilações da mente. O psiquiatra vê nesse reconhecimento um ponto de partida para o cuidado — o mesmo princípio que orienta sua atuação nas escolas e na pesquisa: olhar para o sofrimento antes que ele se instale.

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