Pré-conferência internacional antecede a Aids 2026 e reunirá lideranças indígenas, pesquisadores, ativistas e pessoas vivendo com HIV para defender respostas baseadas em ancestralidade, soberania cultural e autodeterminação
O Rio de Janeiro será palco, nos dias 24 e 25 de julho de 2026, de um dos encontros mais importantes do mundo voltados à saúde indígena e à resposta global ao HIV. A cidade sediará a 11ª Pré-Conferência Internacional Indígena sobre HIV e Aids (IIPCHA 2026), evento que antecede a conferência internacional Aids 2026 e que pretende reposicionar os povos originários no centro das discussões sobre HIV, ISTs, tuberculose, malária e políticas globais de saúde.
Com o tema “Nosso Mundo. Nossos Costumes. Nossa Visão.”, o encontro será realizado no Courtyard by Marriott Rio de Janeiro Barra da Tijuca, em formato híbrido, com tradução simultânea em português, inglês e espanhol. Mais do que um espaço de debates técnicos, a conferência se apresenta como um movimento político, cultural e espiritual de afirmação indígena diante de estruturas históricas de exclusão.
Organizada pela CAAN Communities, Alliances & Network, organização canadense de referência internacional na resposta comunitária ao HIV entre populações indígenas, a pré-conferência reunirá lideranças tradicionais, anciãos, jovens, pesquisadores, profissionais de saúde, ativistas e pessoas vivendo com HIV de diferentes partes do mundo. O objetivo é fortalecer respostas lideradas pelos próprios povos indígenas, com base em soberania cultural, autodeterminação e conhecimentos ancestrais.
A proposta parte de uma constatação histórica: os povos indígenas seguem invisibilizados tanto dentro das políticas globais de combate ao HIV quanto nos próprios espaços institucionais dedicados às pautas indígenas.
“Não se fala dos povos indígenas no movimento de combate ao HIV. Todas as discussões são baseadas nas premissas desenvolvidas pelos colonizadores”, afirmou Trevor Stratton durante entrevista à Agência Aids.

Uma resposta construída a partir da experiência indígena
Uma das principais vozes do movimento indígena internacional sobre HIV, Trevor Stratton atua como Gerente de Políticas de Liderança Indígena da CAAN e há décadas defende modelos de cuidado culturalmente seguros para povos originários, especialmente pessoas vivendo com HIV e comunidades 2SLGBTQIA+.
Integrante da comunidade Mississaugas of the Credit First Nation, no Canadá, Stratton foi diagnosticado com HIV em 1990, aos 25 anos, em um período em que ainda não existiam terapias eficazes contra o vírus. Recentemente, recebeu o nome indígena Thunder Bird Heart, símbolo de sua trajetória de resistência e reconexão espiritual.
“Na época, não havia tratamento. As pessoas estavam morrendo e sendo estigmatizadas não apenas pela sociedade, mas pelo próprio sistema de saúde e, muitas vezes, pelas próprias comunidades indígenas”, relembrou.
Sua experiência pessoal atravessa a própria construção da IIPCHA. Para Stratton, a existência de uma pré-conferência indígena internacional nasce justamente da necessidade de criar um espaço onde os povos originários possam falar por si mesmos — e não apenas serem objeto de estudos, políticas ou estatísticas produzidas externamente.
“Nada sobre nós sem nós”, resumiu.
Ao longo da entrevista, o ativista reforçou que políticas públicas de saúde frequentemente fracassam porque ignoram idiomas, cosmologias, espiritualidades e dinâmicas próprias das comunidades indígenas.
“Muitas campanhas chegam falando sobre PrEP quando a comunidade ainda não teve sequer uma conversa básica sobre sexualidade ou sobre o que é HIV”, afirmou.
Segundo ele, respostas eficazes só podem existir quando há escuta real e construção coletiva com os territórios.
O “casamento forçado” entre o movimento indígena e o movimento HIV
Para Stratton, um dos maiores desafios globais ainda é aproximar dois universos que historicamente caminharam separados: o movimento indígena e o movimento de resposta ao HIV.
“Eu chamo isso de casamento forçado. O movimento do HIV e o movimento indígena vivem em dois mundos diferentes. O que queremos é colocá-los para trabalhar juntos”, declarou.
A fala evidencia uma crítica profunda às estruturas internacionais de saúde, frequentemente construídas a partir de referências ocidentais e coloniais, sem considerar experiências culturais indígenas de cuidado, pertencimento e coletividade.
Nesse contexto, a IIPCHA surge não apenas como uma conferência temática, mas como um espaço de reconstrução política e epistemológica. O documento conceitual do evento destaca que a pré-conferência funcionará como um ambiente seguro e culturalmente enraizado para que povos indígenas possam definir prioridades globais em saúde, compartilhar conhecimentos e fortalecer estratégias alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Stratton afirma que o encontro também cria diálogos inéditos dentro dos próprios países.
“Muitas vezes reunimos pessoas que nunca conversaram antes. E sabemos que, para responder ao HIV de forma eficaz, todos os setores da sociedade precisam estar envolvidos”, explicou.

Brasil no centro da discussão internacional
A escolha do Brasil como sede da edição de 2026 possui forte dimensão simbólica e política. O documento da conferência destaca que o país, que abriga mais de 300 povos indígenas, ocupa posição estratégica nos debates internacionais sobre direitos indígenas, preservação ambiental e acesso à saúde culturalmente adequada.
A realização da pré-conferência em território brasileiro pretende ampliar a visibilidade das iniciativas indígenas nacionais na área da saúde, fortalecer articulações regionais na América Latina e aprofundar o debate sobre desigualdades no acesso a serviços de HIV e ISTs.
Também estão entre os objetivos do encontro a aproximação entre organizações indígenas, governos, pesquisadores e organismos internacionais, em um momento marcado por disputas sobre financiamento global da saúde, direitos humanos e participação comunitária.
Mas Stratton alerta que qualquer aproximação precisa reconhecer as marcas profundas deixadas pela colonização.
“As comunidades indígenas estão cansadas de serem enganadas. Existe uma suspeita legítima quando alguém chega dizendo que quer ajudar”, afirmou.
A desconfiança, segundo ele, não é abstrata. Ela nasce de séculos de violência institucional, apagamento cultural, promessas rompidas e intervenções conduzidas sem consulta ou participação efetiva dos povos indígenas.
Estigma, violência e exclusão
Além das desigualdades no acesso à saúde, lideranças indígenas também denunciam situações extremas de estigma relacionadas ao HIV em diferentes partes do mundo.
“Alguns indígenas que contraem HIV são acusados de bruxaria ou expulsos de suas comunidades. Isso não acontece só no Brasil”, relatou Stratton.
A fala revela como o HIV continua atravessado por processos de discriminação que se somam às violências coloniais já enfrentadas historicamente pelos povos originários.
Nesse cenário, a conferência busca construir estratégias que integrem prevenção, tratamento, direitos humanos, fortalecimento comunitário e preservação cultural, reconhecendo que saúde indígena não pode ser dissociada de território, espiritualidade, idioma e pertencimento coletivo.

Juventude, ancestralidade e diversidade como eixo político
A programação da IIPCHA 2026 pretende reunir jovens indígenas, mulheres, lideranças tradicionais, pesquisadores, profissionais de saúde e representantes 2SLGBTQIA+, reconhecendo a diversidade como elemento central da resposta indígena ao HIV.
Para Stratton, a presença intergeracional é indispensável para a continuidade das comunidades.
“Os mais velhos transmitem conhecimento, cerimônias e valores. Mas os jovens também ensinam os anciãos sobre o mundo atual, sobre as perguntas e transformações do presente”, explicou.
A defesa da diversidade sexual e de gênero dentro das culturas indígenas também aparece como parte central do debate político da conferência. Segundo o ativista, muitas sociedades originárias historicamente reconheciam identidades dissidentes antes da imposição dos padrões coloniais europeus.
“O colonialismo retirou esse lugar intermediário e disse que ele era errado. Mas nossas culturas sempre reconheceram a existência das pessoas que vivem entre os binários”, afirmou.
A presença de representantes 2SLGBTQIA+ no encontro reforça justamente a tentativa de recuperar tradições culturais apagadas pelos processos coloniais e religiosos impostos ao longo da história.
Entre ciência e ancestralidade
Outro eixo central da pré-conferência será a defesa de modelos de cuidado que integrem ciência ocidental e conhecimentos tradicionais indígenas.
Para Stratton, essa combinação foi fundamental para sua própria sobrevivência.
“Os antirretrovirais salvaram minha vida. Mas sem os curandeiros indígenas me ajudando a me reconectar com minha língua, minhas cerimônias e minha comunidade, eu também teria morrido”, declarou.

A fala sintetiza uma das principais mensagens políticas da IIPCHA: a saúde não pode ser reduzida apenas ao tratamento biomédico. Ela envolve identidade, espiritualidade, pertencimento e reconstrução coletiva.
A proposta da conferência desafia modelos tradicionais de saúde pública ao defender que saberes ancestrais não sejam tratados como elementos folclóricos ou complementares, mas como componentes legítimos e fundamentais das estratégias de cuidado.
Um novo plano estratégico indígena global
Além das trocas culturais e políticas, a IIPCHA 2026 pretende construir um novo plano estratégico internacional indígena sobre HIV, ISTs, tuberculose e malária para os próximos anos.
O objetivo é fortalecer a participação dos povos indígenas em espaços globais de decisão, especialmente em um momento de reestruturação das políticas internacionais ligadas ao Unaids e à governança mundial da saúde.
Outro tema prioritário será a produção e o controle de dados epidemiológicos desagregados para povos indígenas — uma reivindicação histórica dos movimentos indígenas internacionais.
“Não sabemos realmente qual é o panorama do HIV entre os povos indígenas porque os dados não existem ou não estão sendo compartilhados adequadamente”, afirmou Stratton.
Segundo ele, a ausência de dados específicos contribui para a invisibilidade dessas populações nas políticas públicas, no financiamento internacional e nas estratégias globais de prevenção e tratamento.
Mais do que produzir números, o movimento indígena reivindica soberania sobre a própria narrativa.
“Queremos contar nossa própria história”, declarou.
A frase resume o espírito da pré-conferência que o Rio de Janeiro receberá em 2026: um encontro que pretende transformar povos historicamente silenciados em protagonistas das decisões sobre seus próprios corpos, territórios, culturas e futuros.

Serviço
11ª Pré-Conferência Internacional Indígena sobre HIV e AIDS
Quando: Sexta-feira e sábado, 24 e 25 de julho de 2026
Local: Courtyard by Marriott Rio de Janeiro Barra da Tijuca, Brasil
Inscrições virtuais e presenciais: Formulário de Registro de Evento
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
CAAN Communities, Alliances & Network
info@caan.ca



