
O Rio de Janeiro será, entre os dias 3 e 6 de junho, o epicentro latino-americano dos debates sobre infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e HIV/Aids. No Centro de Convenções Expomag, profissionais da saúde, pesquisadores, ativistas, estudantes e gestores públicos se reúnem para um dos maiores eventos da área: o XV Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis (SBDST), o XI Congresso Brasileiro de Aids e o VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids.
Mais que um encontro técnico-científico, os congressos apostam numa abordagem plural e sensível, reunindo temas como acolhimento, equidade, sexualidade e direitos humanos — sem deixar de lado o rigor da ciência. A programação inclui mesas-redondas, simpósios, apresentação de trabalhos e experiências, além de uma exposição inédita sobre a história da sífilis e sua representação nas artes.
Medicina conectada
Na abertura, o tema já anuncia o tom do encontro: “Humanidades na Era da Medicina Digital”. O objetivo é provocar uma discussão sobre o impacto das tecnologias na relação entre profissionais e pacientes, num cenário em que escuta, tempo e empatia muitas vezes se perdem diante de telas e prontuários.
“O atendimento médico virou, muitas vezes, digitar no computador sem olhar nos olhos do paciente. Mas como falar de sexualidade, múltiplos parceiros, práticas diversas, se não houver escuta e confiança?”, provoca o presidente do congresso, Dr. Mauro Romero Leal Passos, professor titular da Universidade Federal Fluminense (UFF) e idealizador do evento desde sua primeira edição, em 1996.
Segundo ele, o congresso nasceu como DST em Rio, no Hotel Glória, e se tornou o mais tradicional do Brasil na área. “Hoje, usamos o termo IST — infecções sexualmente transmissíveis — em vez de doenças, porque muitas vezes a pessoa está infectada, pode transmitir, mas não apresenta sintomas. A mudança de nomenclatura também reflete uma nova forma de encarar o cuidado, sem estigma.”
Dr. Mauro ressalta que o evento sempre teve como objetivo tratar a saúde sexual com dignidade. “Desde o primeiro congresso, já falávamos sobre respeito, equidade e direitos humanos. Não é só sobre diagnóstico, tratamento ou vacinação. É sobre olhar para quem vive com HIV, sífilis, gonorreia, HPV, tricomoníase, HTLV, hepatites. E, mais do que isso, é sobre acolher pessoas em situações de vulnerabilidade: mulheres em situação de rua, profissionais do sexo, idosos, população trans, jovens que não se reconhecem nas campanhas tradicionais.”
Um retrato da saúde pública
Em entrevista à Agência Aids, o professor destacou o papel do congresso na formação de profissionais mais empáticos e na construção de políticas públicas. “É um espaço onde discutimos ciência, mas também arte, memória, sexualidade e os desafios da vida real. Vamos, por exemplo, apresentar trabalhos sobre o aumento da sífilis entre pessoas com mais de 60 anos. Como fazer prevenção para essa faixa etária? Como falar sobre isso nas unidades de saúde sem julgamento?”
Ele alerta que, ao lidar com sexualidade, é essencial criar um ambiente de escuta e confiança. “Se o profissional não quiser saber dos dados — se a pessoa pratica sexo anal, oral, em grupo, se tem múltiplos parceiros —, como vai conduzir o atendimento? Por isso, nosso congresso propõe uma abordagem humanizada, com mesas sobre diagnóstico, epidemiologia, prevenção, saúde mental, direito e interseccionalidade.”
Ciência e arte de mãos dadas

A programação vai além das mesas técnicas. Entre os destaques culturais, estão a peça HIV no Tribunal, do Instituto Cultural Barong, que convida o público a refletir sobre estigma, discriminação e cidadania; e o documentário HIV e Aids, Suas Histórias: 20 anos do Global Village, produzido pela Agência Aids em parceria com o SescTV. O filme reúne 18 entrevistas com ativistas de diversos continentes que compartilham vivências sobre avanços, desafios e retrocessos em políticas públicas, ciência, cuidado e direitos humanos.
Haverá ainda uma exposição especial sobre a história da sífilis e sua representação nas artes. “Mostraremos cartazes, obras e filmes — como o de Akira Kurosawa, sobre um médico que contrai sífilis e transforma sua vida, ou o longa sobre Heleno, jogador do Botafogo que morreu de neurossífilis. É também por meio da arte que sensibilizamos, provocamos e transformamos olhares”, explica Mauro.
Convite à transformação

Voltado a profissionais da saúde, estudantes, pesquisadores e ativistas, o congresso é, nas palavras de seu presidente, uma convocação à responsabilidade. “Queremos que o participante saia daqui com uma visão mais ampla, que compreenda que cuidar de pessoas com ISTs exige sensibilidade, ética, escuta e compromisso com a dignidade humana. Porque as ISTs não estão diminuindo — estão aumentando, especialmente entre mulheres acima de 60 anos. Precisamos melhorar nossa atuação na saúde pública brasileira.”
Mais que um evento técnico, o congresso promete ser uma experiência transformadora — para quem cuida, para quem pesquisa, para quem luta.
Serviço
XV Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis (SBDST), XI Congresso Brasileiro de Aids e VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids
📍 Local: Centro de Convenções Expomag – Rio de Janeiro (RJ)
📅 Data: De 3 a 6 de junho de 2025
🔗 Mais informações e inscrições: https://dstaids2025.com.br/home.asp
🎟️ Clique aqui e confira a programação.
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dica de entrevista
Dr Mauro Romero
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