
Durante o XV Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis, XI Congresso Brasileiro de Aids e VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids, realizado no Rio de Janeiro, o infectologista Dr. Álvaro Furtado, do Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo, apresentou a palestra “Prevenção do HIV: PrEP – presente e futuro”, um panorama abrangente sobre os desafios e inovações no uso da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) como estratégia de prevenção ao HIV no Brasil.
PrEP além da infectologia
Dr. Álvaro abriu sua fala destacando a importância de ampliar o alcance da PrEP para além dos consultórios de infectologia. “A prescrição da PrEP não deve ser exclusividade de especialistas. Ginecologistas, clínicos gerais, enfermeiros e farmacêuticos clínicos também precisam estar aptos a oferecer essa tecnologia”, defendeu. Para o médico, a ampliação de prescritores é uma das chaves para expandir o acesso à PrEP e alcançar populações vulneráveis.
Histórias reais no consultório
Para ilustrar os desafios práticos da prevenção, o médico compartilhou casos de pacientes fictícios, inspirados em situações reais. Uma mulher jovem, solteira, sexualmente ativa e sem histórico de vacinação contra hepatites, por exemplo, seria uma forte candidata à PrEP, mas nem sempre recebe essa indicação em consultas ginecológicas. “Muitas vezes, o profissional oferece um anticoncepcional, mas não fala sobre a PrEP”, observou.
Outro caso apresentado foi o de um homem bissexual, diagnosticado com uma IST por um urologista, que nunca havia ouvido falar de PrEP. “Se os profissionais não estiverem capacitados, esse paciente perde a chance de se proteger melhor”, pontuou.
O desafio da adesão e o futuro injetável
Apesar de a PrEP oral estar disponível no SUS desde 2017, o médico reconhece que o acesso ainda é desigual. “Homens cis gays e brancos, moradores de grandes centros urbanos, são maioria entre os usuários de PrEP. Mas há muitas outras populações que precisam ser contempladas: mulheres cis, pessoas trans, pessoas que usam drogas e heterossexuais com comportamento de risco.”
Nesse sentido, Álvaro destacou o papel promissor das tecnologias de longa duração, como o cabotegravir injetável, que vem sendo estudado e implementado em projetos piloto no Brasil. “É uma estratégia com alta aceitação entre os usuários, especialmente por oferecer maior privacidade, menor frequência de uso e menos estigma do que o comprimido diário”, explicou. Segundo o médico, estudos demonstram que a adesão à PrEP injetável é superior à oral e que a incidência de HIV entre os participantes dos testes foi praticamente nula.

Estigma e acesso: barreiras persistentes
A palestra também trouxe reflexões sobre o estigma ainda associado ao uso da PrEP. Álvaro relatou casos de pacientes que escondem o uso do medicamento por medo do julgamento. “É inadmissível que, em 2025, a gente ainda trate a vida sexual das pessoas como um tabu. Precisamos de acolhimento, não de moralismo nos serviços de saúde”, afirmou.
Ele também criticou a burocracia e a rigidez de alguns protocolos que dificultam o acesso à PrEP, sugerindo modelos de atendimento mais flexíveis, como consultas a cada quatro meses e redução de exames desnecessários. “A ideia é facilitar, não dificultar. Não podemos perder usuários por excesso de barreiras.”
Uma nova cultura em saúde sexual
Ao final, Dr. Álvaro reforçou que o sucesso da PrEP, seja oral ou injetável, depende de uma mudança cultural nos serviços de saúde. “Tratar a vida sexual das pessoas com respeito e empatia é parte essencial do cuidado. Precisamos perguntar mais, ouvir mais, entender os contextos. E, sobretudo, garantir que todos e todas que precisem da PrEP tenham acesso a ela”, finalizou.
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Dr. Álvaro Furtado
Instagram: @dr.alvarocosta
* A Agência de Notícias da Aids cobre os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério



