
“Não é todo mundo que consegue usar camisinha do jeito que ela protege. Também não é todo mundo que consegue tomar um comprimido todos os dias.” A fala do médico infectologista Rico Vasconcelos, durante o XV Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis, sintetiza um dilema central da luta contra o HIV: a prevenção precisa fazer sentido para quem vive a vulnerabilidade todos os dias.
Na sexta-feira, 6 de junho, especialistas de diferentes áreas se reuniram no Rio de Janeiro para discutir os desafios, inovações e rumos da Profilaxia Pré-Exposição ao HIV, conhecida como PrEP. Trata-se de uma estratégia biomédica de prevenção, na qual pessoas HIV negativas utilizam medicamentos antirretrovirais para evitar a infecção pelo vírus. Quando tomada corretamente, a PrEP pode reduzir em mais de 90% o risco de transmissão em relações sexuais.
Mas a tecnologia, por si só, não é suficiente. É preciso garantir acesso, respeitar escolhas, adaptar abordagens e, sobretudo, enfrentar desigualdades que seguem estruturando quem vive — e quem morre — com HIV no Brasil.
A mesa, intitulada “Profilaxia Pré-Exposição e HIV”, foi mediada pelo ginecologista Valdir Monteiro Pinto e contou ainda com as participações das médicas Valdiléa Veloso e Inês Dourado. Os três trouxeram contribuições complementares, que vão da ciência clínica ao contexto social.
A epidemia continua — e continua desigual

Dra. Valdiléa Veloso, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, iniciou sua fala lembrando que a epidemia de HIV não é coisa do passado. “Milhões de pessoas ainda vivem com HIV no mundo, sendo que 60% das novas infecções ocorrem entre mulheres e meninas”, afirmou. Na América Latina, o cenário é de uma epidemia concentrada, porém marcada por profundas desigualdades.
“Quando olhamos para os dados, vemos claramente que as pessoas mais afetadas são as que enfrentam múltiplas vulnerabilidades: mulheres trans, pessoas negras, privadas de liberdade, jovens com baixa escolaridade. Não é coincidência. É estrutura social”, explicou Veloso.
Ela também chamou atenção para a importância das políticas sociais como aliadas da saúde pública. “Estudos mostram que o programa Bolsa Família reduziu em até 39% a mortalidade por HIV. Isso nos mostra que enfrentar o HIV exige muito mais do que antirretrovirais — exige enfrentar a pobreza.”
Veloso ainda destacou os estudos em andamento com cabotegravir, uma versão injetável da PrEP, aplicada a cada dois meses. “Mais de 80% das pessoas que participaram dos estudos preferiram a versão injetável. Isso mostra que, quando damos opções, conseguimos maior adesão e impacto.”
A prevenção que escuta

Dr. Rico trouxe uma reflexão provocadora: “Se a camisinha existe há décadas, por que precisamos inventar a PrEP? Porque nem todo mundo consegue usar a camisinha da forma certa, de forma consistente. E o mesmo vale para a PrEP oral.”
Segundo o infectologista, a prevenção ao HIV precisa ser moldada pela vida real das pessoas. “O melhor método é aquele que a pessoa escolhe e consegue usar. Não adianta oferecer algo que não cabe na rotina, no desejo, no corpo, na vida.”
Vasconcelos também denunciou as desigualdades de acesso: “Hoje, quem mais se beneficia da PrEP são homens gays brancos, mais velhos e escolarizados. E isso deixa para trás jovens, pessoas trans, pessoas negras, moradores de periferia.”
Ele destacou avanços importantes, como a prescrição de PrEP por farmacêuticos e dentistas, o uso de autotestes e a entrega domiciliar de medicamentos em São Paulo. Também explicou o funcionamento da PrEP sob demanda (tomada apenas antes e depois do sexo) e da PrEP injetável, que demonstrou eficácia superior à oral em grandes estudos internacionais.
“Com a injetável, estamos vivendo uma nova primavera na prevenção ao HIV. Mas ainda é preciso garantir que essas novas tecnologias cheguem a quem mais precisa, com escuta, acolhimento e respeito”, defendeu.
A PrEP injetável no SUS: eficácia comprovada, acesso em disputa
Os médicos falaram sobre uma das pautas mais aguardadas na área da prevenção ao HIV: a incorporação da PrEP injetável de longa duração ao Sistema Único de Saúde (SUS). Dr. Rico enfatizou os resultados positivos dos estudos de implementação:
“Já temos a aprovação regulatória do cabotegravir injetável. Os estudos mostram que, quando as pessoas podem escolher, a maioria prefere essa opção. É fundamental que isso se traduza em política pública, porque estamos falando de uma ferramenta altamente eficaz.”
Na mesma linha, Dra. Valdiléa fez um alerta estratégico sobre o principal obstáculo à entrada da nova tecnologia no SUS: o preço.
“O cabotegravir só poderá ser incorporado ao SUS se tiver um custo compatível com o sistema público. Isso é essencial. Não adianta termos uma tecnologia eficaz se ela não for viável dentro das políticas públicas de saúde.”
Um método que cabe no corpo e na vida das mulheres

A epidemiologista Inês Dourado trouxe uma dimensão muitas vezes negligenciada na prevenção ao HIV: o corpo e a autonomia das mulheres cis. Sua apresentação foi centrada no anel intravaginal de dapivirina, uma nova estratégia de PrEP de longa duração, controlada pela própria mulher.
“O anel é inserido mensalmente na vagina, liberando o medicamento aos poucos. É uma tecnologia segura, bem tolerada e eficaz — principalmente quando há adesão consistente”, explicou. A eficácia nos estudos variou entre 35% e 91%, dependendo do uso correto.
Mas, para Inês, mais do que a eficácia, o anel representa autonomia. “É o primeiro método de prevenção de ação prolongada que pode ser usado por mulheres, sem depender da negociação com o parceiro. E isso, em contextos de violência ou desigualdade de gênero, é uma revolução silenciosa.”
Ela também ressaltou que o anel não protege contra outras ISTs nem durante sexo anal, e que há desafios de aceitação, logística e formação dos profissionais de saúde. “Mas o impacto potencial é enorme. Quando uma mulher escolhe se proteger, ela precisa encontrar acolhimento — não julgamento.”
Prevenir é um direito — não um privilégio
A mesa deixou claro que os caminhos da prevenção ao HIV precisam ser trilhados com mais escuta e menos imposição. Com mais respeito às escolhas e menos barreiras institucionais. E, acima de tudo, com mais compromisso com a equidade.
Como lembrou Rico Vasconcelos, “profissionais de saúde devem ser facilitadores da prevenção — não obstáculos”.
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
XV Congresso da Sociedade Brasileira de DST (SBDST), do XI Congresso Brasileiro de Aids e do VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids
Site: https://dstaids2025.com.br/home.asp
* A Agência de Notícias da Aids cobriu os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde


