
O Rio de Janeiro se tornou, nesta terça-feira (3), o epicentro do debate sobre saúde pública, ciência e direitos humanos, com o início simultâneo do XV Congresso da Sociedade Brasileira de DST (SBDST), do XI Congresso Brasileiro de Aids e do VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids. Realizado na Expo Mag, o evento reúne mais de 1.200 especialistas e pesquisadores do Brasil e do exterior para discutir estratégias de enfrentamento às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), em um momento decisivo para o futuro das políticas de saúde no país.
O primeiro dia de atividades foi marcado por cursos pré-congresso, com temas como prevenção, diagnóstico e eliminação das ISTs. À noite, a cerimônia oficial de abertura reuniu mais de dez autoridades da saúde, incluindo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Durante seu discurso, o ministro anunciou que o Brasil entregou à Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS) a documentação para a certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV. Padilha destacou ainda o papel decisivo das parcerias com a OPAS, dos movimentos sociais, ativistas e gestores públicos na luta contra as ISTs e o estigma.
“Esse é um momento histórico. Nunca imaginei ver o Brasil entregar a documentação para a certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV. Isso é fruto de um esforço coletivo, com a força do SUS reconstruído, liderado hoje com coragem pelo presidente Lula e pela ministra Nísia Trindade”, declarou Padilha.
Com a taxa de transmissão vertical em queda, essa certificação representaria um marco histórico. O país também reiterou o compromisso de eliminar, até 2030, a transmissão vertical da sífilis, hepatite B, doença de Chagas e do HTLV — como parte das metas do programa Brasil Saudável.
Segundo a infectologista Beatriz Grinsztejn, presidente da International Aids Society, o congresso é um espaço estratégico para compartilhar avanços científicos e novas formas de prevenção.
“A gente tem um congresso tão bem estruturado, onde esses importantes eixos vão ser discutidos e vão trazer à luz as novas estratégias e tecnologias que temos hoje para prevenir as ISTs.” Na abertura, dra. Beatriz anunciou que o Rio de Janeiro sediará, pela primeira vez, a XXVI Conferência Internacional de Aids em julho de 2026 — o maior evento global sobre HIV/aids, realizado a cada dois anos.
“Com muito orgulho, anunciamos que a XXVI Conferência Internacional de Aids será sediada no Rio de Janeiro, no Brasil. Essa é a primeira vez que essa conferência vem para a nossa região. O Brasil se destaca com a sua longa e muito respeitada trajetória na resposta à epidemia. Temos uma abordagem baseada na ciência e no acesso universal, tanto à terapia antirretroviral, quanto às modalidades de prevenção ao HIV como a PrEP como uma política de saúde pública”, afirmou.
Grinsztejn também destacou o momento oportuno para discutir o uso da DoxyPEP, a profilaxia pós-exposição com doxiciclina — estratégia de prevenção para pessoas que se expuseram recentemente a ISTs, como após uma relação sexual sem proteção. O Ministério da Saúde já avalia sua implementação.
Apesar dos avanços, desafios persistem. Mariângela Simão, secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, chamou atenção para a ausência de uma vacina contra o HIV e para as desigualdades no acesso ao cuidado.
“Hoje o que a gente tem é uma perpetuação do tratamento altamente lucrativo para todos os produtores, mas não uma vacina para a cura da doença. Eu acho que precisamos da inconformidade para também com a transmissão vertical (de mãe para filho na gestação) de tantas doenças que não precisariam existir mais com crianças. A inconformidade tem que nos mover na direção da consolidação do sistema único de saúde”, afirmou.
Homenagens
A abertura também foi marcada por homenagens: a Medalha Walter Belga foi entregue a profissionais com atuação destacada na saúde pública, e certificados de sócio emérito foram concedidos a autoridades como o ministro Alexandre Padilha, o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, e a secretária estadual de Saúde, Cláudia Melo.

Na sequência, o Dr. Antonio Rodrigues Braga Neto ministrou a conferência “Humanidades na Era Digital”, oferecendo uma análise histórica das percepções sociais sobre as DSTs.
“A grande virada na história da saúde é quando a doença deixa de ser mítica-sobrenatural e passa a, em toda a obra de Homero, ser tratado o processo de humanização”, disse. Ele relembrou que, por séculos, as DSTs foram associadas a punições divinas e mitos sobrenaturais, até que passassem a ser vistas de forma racional com o avanço da ciência.
Preconceito e negacionismo ainda são barreiras

Na cerimônia de abertura, o presidente do congresso, Dr. Mauro Romero, destacou que as mudanças de nomenclatura — de “doenças venéreas” para DSTs e, depois, ISTs — não foram acompanhadas por transformações profundas nas atitudes sociais.
“Muitas vezes usamos nomes atualizados, mas mantemos a atitude de séculos atrás”, afirmou. Para ele, o respeito às pessoas que vivem com ISTs, HIV ou aids deve ser inegociável, e o cuidado em saúde precisa chegar com prioridade às populações vulneráveis.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) evidenciam a gravidade do problema: mais de 1 milhão de pessoas são infectadas diariamente por ISTs no mundo. “Atualmente, mais de 34 milhões vivem com HIV”, completou Romero.
A representante da sociedade civil Cleide Almeida reforçou que o estigma só será superado com o engajamento coletivo.
“Falta mobilização, apoio e divulgação em massa. Os movimentos sociais são os que levam educação sexual a quem realmente precisa”, afirmou, cobrando mais investimentos e políticas públicas direcionadas.
Bruna Aragão, especial para a Agência Aids
Dica de entrevista
XV Congresso da Sociedade Brasileira de DST (SBDST), do XI Congresso Brasileiro de Aids e do VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids


