Rio 2025: Especialistas apontam avanços e desafios no combate à tuberculose, HIV, Aids e hepatites virais no Brasil

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Durante o segundo dia do XV Congresso da Sociedade Brasileira de DST (SBDST), XI Congresso Brasileiro de Aids e VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids, especialistas do Ministério da Saúde e da área científica traçaram um panorama nacional do enfrentamento das epidemias de HIV, Aids, hepatites virais e tuberculose. Apesar dos avanços recentes, os desafios continuam — especialmente entre as populações mais vulneráveis. As apresentações, realizadas nesta quarta-feira (4) no Rio de Janeiro, trouxeram dados inéditos, propostas políticas e reflexões técnicas com vistas à meta de eliminar essas doenças como problemas de saúde pública até 2030, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Vulnerabilidades sociais no centro do debate

Um dos principais consensos entre os palestrantes foi o impacto desproporcional dessas doenças sobre grupos historicamente marginalizados.

A médica sanitarista Danielle Dell Orte, da Coordenação-Geral de Vigilância da Tuberculose, do Ministério da Saúde, alertou para a incidência altíssima da doença entre populações em situação de rua, pessoas privadas de liberdade, indígenas e imigrantes — que adoecem até 54 vezes mais do que a população geral. “O crescimento de casos entre venezuelanos na fronteira de Pacaraima (RR) nos mostra o quanto é urgente pensar respostas específicas e integradas para essas populações”, disse.

Na mesma direção, o infectologista Artur Kalichman, coordenador-geral de HIV/Aids da pasta da Saúde, reforçou que a eliminação das epidemias, apesar do avanço, não atinge a equidade: “Tem gente ficando para trás, e isso tem tudo a ver com pobreza, discriminação, tudo de ruim que a gente sabe que existe nesse mundo.”

Segundo ele, ainda é necessário ampliar o acesso às ações de promoção, prevenção combinada, educação e comunicação em saúde para populações em situação de maior vulnerabilidade. Como estratégias para a dissolução do problema, o Plano Brasil Saudável, citado pelos especialistas, articula ministérios e prevê intervenções específicas para povos indígenas, pessoas em situação de rua e privadas de liberdade.

Para a farmacêutica bioquímica Pâmela Gaspar, coordenadora-geral de ISTs do Ministério da Saúde, a mobilização local e a articulação política, com foco em territórios que acumulam maior carga de infecção, são fundamentais na resposta às epidemias. Gaspar destacou o papel fundamental do SUS para que o Brasil esteja entre os países que lideram a resposta à transmissão vertical (contaminação de mãe para filho na gestação) e destacou as suas principais formas de prevenção:

“As pessoas nos perguntam: ‘Mas como é que o Brasil consegue?’ Por conta disso. Porque a gente tem um sistema nacional de saúde que garante a implementação dessa distribuição e desses protocolos junto a cada profissional que implemente na ponta, na sua rotina”, declarou.

Eliminar não é erradicar

Ao falar da meta de eliminação da aids como problema de saúde pública até 2030, Kalichman explicou que eliminar não significa erradicar, e sim reduzir os índices a níveis que não constituam mais emergência de saúde pública. A diretriz se apoia na chamada meta 95-95-95 da OMS:

– diagnosticar 95% das pessoas vivendo com HIV;
– tratar 95% dessas pessoas; e
– suprimir a carga viral em 95% dos que estão em tratamento.

Segundo ele, o Brasil já alcançou a terceira meta (supressão viral), mas ainda enfrenta dificuldades na vinculação e permanência no tratamento, com 13% das pessoas em perda de segmento. “Estamos ainda longe do 95 da segunda barra”, afirmou.

No caso das hepatites virais, o infectologista Mário Gonçalves destacou que a eliminação como problema de saúde pública também é possível, mas exige foco regionalizado:

“Não dá para aplicar a mesma estratégia para São Paulo e para a Cabeça do Cachorro, no Amazonas. A realidade epidemiológica do país é um mosaico.”

Para o médico, deve haver capacitação e suporte continuado aos Estados e regiões comprometidos com a eliminação da doença nos territórios e a promoção do “Selo de Boas Práticas” para regiões de saúde que pactuarem as linhas de cuidado da Comissão Intergestores Regional (CIR) e Comissão Intergestores Bipartite (CIB), responsáveis pela implementação dessas linhas no Sistema Único de Saúde (SUS).

Avanços importantes, mas metas ainda distantes

Apesar dos desafios, os dados mostram avanços importantes. Gonçalves apontou que entre 2015 e 2022, a mortalidade por hepatite C caiu 51% no Brasil, e por hepatite B, 30%. A cobertura vacinal e o uso de antivirais de ação direta explicam parte desse resultado.

Já a tuberculose segue como a doença infecciosa que mais mata no mundo, como alertou Danielle Dell Orte. Em 2023, foram 10, 8 milhões de pessoas que adoeceram e 1,25 milhão de mortes. Em 2024, 85 mil casos de tuberculose foram registrados no país — 30% de todos os casos das Américas.

A coinfecção TB-HIV representa 11,5% dos novos diagnósticos. “Pessoas vivendo com HIV têm 19 vezes mais risco de adoecer por tuberculose”, alertou Dell Orte.

Estratégias inovadoras e integração de sistemas

Para enfrentar esses desafios, as autoridades apostam em novas tecnologias, integração de dados e pactos federativos. Gonçalves apresentou o plano de criar uma nova cascata de cuidado para hepatites virais, integrando os Gerenciador de Ambiente Laboratorial (GAL), Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e o Sistema de Controle Logístico de Medicamentos (SICLOM), utilizados no SUS para gerenciar informações na áreas da saúde sexual.

“Vamos saber se o José da Silva diagnosticado em um posto de saúde é o mesmo que pegou a medicação e que concluiu o tratamento. Isso é essencial para avaliar nosso desempenho com precisão.”

Entre os avanços no enfrentamento da tuberculose, Dell Orte destacou o uso crescente do esquema 3HP (rifapentina + isoniazida), com mais de 40 mil pessoas tratadas em 2024 e 80% de completude. A estratégia é parte da prevenção da infecção latente, especialmente em populações vulneráveis.

Testagem, dados e participação local

Um ponto central das apresentações foi a importância da testagem massiva e qualificada, tanto para HIV quanto para hepatites virais e tuberculose. Dra. Pâmela Gaspar ressaltou a necessidade de dados robustos, especialmente sobre hepatite B em crianças até 5 anos e sobre a prevalência do HTLV — vírus ainda subestimado no país:

“Todo mundo pensa que o HTLV não existe. Ele existe tanto quanto o HIV. Estima-se que a gente tenha no Brasil o mesmo número de pessoas vivendo com HTLV que com HIV.”

Ela também chamou atenção para o modelo de certificação subnacional da eliminação da transmissão vertical, iniciado em 2017, como ferramenta de transformação territorial. Até agora, 151 municípios e 7 estados já foram certificados. “Só é possível chegar à eliminação nacional se o território estiver mobilizado”, afirmou.

Comunicação, educação e mobilização social

Dr. Arthur Kalichman destacou que o combate ao HIV exige também novas abordagens de comunicação. Ele defendeu campanhas de prevenção mais atrativas e a introdução de educação sexual nas escolas para que a camisinha não seja vista como “uma coisa chata”.

“Ninguém bota um carro na mão de um adolescente e fala: ‘Vai dirigir aí, meu filho’. Por que a gente não pode aprender a namorar também, né, e a fazer sexo?”, indagou.

Rumo a 2030: metas e esforços integrados

As diretrizes nacionais já foram validadas. Agora, a prioridade é a implementação nos territórios — com oficinas regionais, pactuações locais e envolvimento da sociedade civil ao lado do SUS e da ciência.

“A gente precisa acreditar que vai conseguir, talvez não tudo o que que a gente quer, mas pelo menos melhorar bastante e chegar o mais perto possível da eliminação da doença”, afirmou Kalichman.

Bruna Aragão, especial para a Agência Aids

Dica de entrevista

XV Congresso da Sociedade Brasileira de DST (SBDST), do XI Congresso Brasileiro de Aids e do VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids

Site: https://dstaids2025.com.br/home.asp

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