Rio 2025: ‘Equidade não é boa vontade, é justiça social’: ativistas apontam o protagonismo das ONGs diante da ausência do Estado

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No Brasil marcado por desigualdades históricas e políticas públicas frequentemente ineficazes para atingir populações vulnerabilizadas, as organizações da sociedade civil seguem fazendo o que o Estado não faz — e muitas vezes nem tenta fazer: acolher, cuidar, informar, resistir. Foi essa a tônica da mesa “O papel das organizações não governamentais na promoção da equidade”, realizada em 4 de junho, durante o XV Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis, XI Congresso Brasileiro de Aids e VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids, no Rio de Janeiro.

Com moderação de Jair Brandão de Moura Filho, do Dathi, a mesa reuniu três mulheres que falaram a partir dos seus territórios, suas vivências e suas ações concretas: Adjeane Oliveira de Jesus, da Associação HTLVida (BA), Adriana Bertini (SP), artista e estrategista social, e Kitta Pinheiro (RJ), fotógrafa e ativista trans da favela da Maré. O que se viu foi menos uma palestra e mais um chamado político e afetivo: é urgente repensar o que significa equidade e como ela se constrói — com quem, a partir de onde, e com quais recursos.

Casos de sucesso na atuação com populações vulneráveis

A primeira apresentação foi de Adjeane Oliveira de Jesus, da Associação HTLVida (BA), que compartilhou a trajetória da organização baiana fundada em 2010, voltada ao acolhimento e cuidado de pessoas que vivem com o HTLV. Com forte atuação comunitária, a HTLVida desenvolve estratégias de educação popular, assistência direta e articulação com o Estado para garantir visibilidade à causa, muitas vezes negligenciada nas políticas públicas.

Adjeane ressaltou que o HTLV atinge majoritariamente mulheres negras periféricas e que a associação, mesmo com recursos escassos, atua onde o Estado muitas vezes não chega. “A gente não deixa ninguém sair da sede da associação precisando de agendamento, fralda ou leite. A gente resolve. É isso que muda a vida das pessoas”, afirmou. Entre as ações mais recentes da HTLVida estão a criação de um CTA específico para HTLV e a participação em instâncias decisórias que fortaleceram a inclusão do vírus no Programa Brasil Saudável.

Cooperação entre sociedade civil e Estado

Na sequência, a artista visual e estrategista social Adriana Bertini (SP) destacou a importância da criatividade e da articulação intersetorial para potencializar o impacto das ONGs. Com trajetória em projetos ligados ao HIV, direitos humanos e meio ambiente, Adriana defendeu uma visão crítica e construtiva sobre as parcerias com o Estado.

“A equidade não é um gesto de boa vontade. É justiça social. Mas os editais e mecanismos de financiamento ainda são excludentes com os coletivos menores e com quem não tem CNPJ”, criticou. Ela também alertou para a falta de capacitação das organizações e a importância da tradução do conhecimento científico em linguagem acessível para as comunidades. “As ONGs fazem o que a ciência não faz: traduzem a linguagem técnica para a realidade popular.”

Adriana ainda chamou atenção para a invisibilidade de temas como educação sexual, prazer e interseccionalidade em espaços como o próprio congresso, propondo uma atuação integrada entre os movimentos sociais. “O HIV não é um tema isolado. Ele atravessa questões de raça, gênero, território e meio ambiente. Precisamos nos unir para responder a tudo isso com criatividade, saúde e amor.”

Visibilidade e protagonismo trans na mídia

Encerrando a mesa, a fotógrafa, comunicadora e ativista Kitta Pinheiro (RJ) fez uma fala contundente sobre o papel da mídia na construção — ou destruição — das narrativas trans. “Durante muito tempo, nossos corpos foram vistos como chacota ou violência. E até hoje, quando uma mulher trans como Érika Hilton aprova uma lei no Congresso, isso não vira notícia. Mas se ela é atacada, isso vira”, denunciou.

Kitta criticou a lógica higienizada da visibilidade midiática, que escolhe quem pode ou não ocupar espaços de destaque, geralmente mulheres trans com aparência normatizada. “Visibilidade sem protagonismo não é o suficiente. A diferença está em ocupar espaços de decisão, em ter poder de narrativa”, reforçou.

Ela também provocou o público a refletir sobre seu papel como comunicador e agente de transformação: “Cada conversa no grupo da família, cada post nas redes sociais é mídia. E se a gente não usar isso para humanizar nossos corpos, ninguém vai fazer por nós.”

Um chamado à ação

Ao final, Jair Brandão destacou a potência da mesa em trazer vozes diversas, que representam a pluralidade da luta por equidade no Brasil. “Este é um congresso tradicionalmente científico, mas aqui a ciência caminhou junto com a vida real, com a experiência dos territórios, com a arte, com o afeto”, afirmou.

A mesa não apenas denunciou as barreiras enfrentadas pelas ONGs e populações vulnerabilizadas, mas também inspirou caminhos possíveis: redes de apoio, escuta ativa, fortalecimento das lideranças comunitárias e diálogo com o poder público. Como sintetizou Kitta Pinheiro, “é fundamental que nenhuma de nós esteja morta, e que todas estejamos vivas, ocupando todos os espaços.”

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

XV Congresso da Sociedade Brasileira de DST (SBDST), do XI Congresso Brasileiro de Aids e do VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids

Site: https://dstaids2025.com.br/home.asp

* A Agência de Notícias da Aids cobre os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério

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