
No palco do XV Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis, XI Congresso Brasileiro de Aids e VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids, realizado no Rio de Janeiro, o médico infectologista e diretor do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs do Ministério da Saúde, Dr. Draurio Barreira, foi categórico: o Brasil tem condições reais de eliminar, como problema de saúde pública, doenças como HIV/aids, tuberculose, hepatites virais e infecções de transmissão vertical até 2030. E para isso, será necessário mais do que medicamentos ou exames — será preciso enfrentar o estigma, a fome, o racismo, a pobreza e a falta de moradia digna.
“Erradicação só aconteceu com a varíola. A gente não está falando disso. A gente está falando de eliminação como problema de saúde pública, com metas pactuadas internacionalmente. E estamos no caminho certo”, destacou Draurio em uma apresentação contundente, que recebeu atenção especial da plateia formada por profissionais da saúde, pesquisadores, sociedade civil e organismos internacionais.
Brasil Saudável: uma nova forma de fazer política pública
No centro da fala estava o Programa Brasil Saudável, iniciativa interministerial liderada pelo Ministério da Saúde que une 14 ministérios e diversos setores sociais em torno de um objetivo ousado: eliminar doenças negligenciadas e infecções transmissíveis com base em dados, planejamento territorial, escuta ativa e justiça social.
“Tem que repetir, explicar, letrar o Brasil sobre o que é o Brasil Saudável. Estamos falando de uma mudança de paradigma. Saímos da lógica do controle e entramos na lógica da eliminação. Isso exige articulação política, investimento e ação intersetorial.”
O programa nasce do compromisso com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e mira eliminar não apenas a Aids, tuberculose e hepatites, mas também doenças como tracoma, oncocercose, filariose, esquistossomose e doenças de transmissão vertical como HIV, sífilis, hepatite B e HTLV.
A conta não fecha sem justiça social
Draurio foi direto ao apontar os verdadeiros obstáculos para alcançar o índice 95-95-95 do HIV (meta da OMS): o estigma, a exclusão e as desigualdades.
“A gente já tem o que precisa em termos biomédicos: diagnóstico, tratamento, prevenção. Mas não adianta. Ainda tem gente que sabe que vive com HIV e não entra em tratamento por medo, vergonha, discriminação. O problema não é só clínico — é social.”
Nesse sentido, ele destacou medidas como a priorização de pessoas vivendo com HIV, tuberculose ou hepatites no programa Minha Casa Minha Vida, sem aumentar custos — apenas reorganizando prioridades.
“Não adianta querer que uma pessoa faça um tratamento de seis meses morando na rua. É questão de dignidade. De humanidade.”
Trabalho nos territórios e escuta local
O Ministério da Saúde já iniciou oficinas de planejamento no Acre e em Roraima, com próximas etapas previstas para outros estados. A lógica do Brasil Saudável é inversa ao centralismo: não parte de Brasília com uma “receita de bolo”, mas sim com dados e escuta local.
“A gente vai aos territórios, discute com gestores, sociedade civil e população. Foi assim que descobrimos, por exemplo, que a doença de Chagas está mais presente em Roraima do que os dados indicavam — por conta de cultura alimentar e subnotificação. Esse tipo de escuta muda tudo.”
Eliminação depende de todos
Draurio ainda detalhou ações com o Ministério da Justiça para prevenção e diagnóstico em presídios, onde até 20% dos casos de tuberculose se concentram, e com o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), para que trabalhadores sociais possam identificar pessoas em risco e encaminhá-las ao SUS.
“Nosso foco não é a caixinha da aids, da tuberculose, da hepatite. Nosso foco é a pessoa. Não é só questão de saúde — é dignidade, é direito, é política pública integrada.”
Com previsão de início efetivo da execução orçamentária, Draurio finalizou com otimismo e um chamado:
“Tem gente que diz que é utopia. Eu digo que é compromisso. A eliminação dessas doenças é possível. E o Brasil saudável vai provar isso — com ciência, com diálogo, com justiça social.”
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Ministério da Saude – Assessoria de Imprensa
Tel.: (61) 33152861
* A Agência de Notícias da Aids cobre os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério


