Rio 2025: Comunicação em Saúde ganha protagonismo no Congresso Brasileiro de IST/HIV/aids: “Se você não se abrir para o tema, o tema não vai se abrir para você”

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Na manhã desta quinta-feira, 5 de junho, o auditório do XV Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis, XI Congresso Brasileiro de Aids e VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids, realizado no Rio de Janeiro, foi palco de uma discussão potente sobre o papel da comunicação na promoção da saúde e no enfrentamento das infecções sexualmente transmissíveis (IST).

A mesa “Comunicação em Saúde: Inserindo as IST na agenda pública e midiática”, moderada por Thiago Petra (RJ), reuniu vozes fundamentais para pensar novas estratégias de informação, engajamento e sensibilização. A palavra de ordem era clara: comunicar é cuidar — e é também disputar sentidos na sociedade.

“Só tivemos uma campanha massiva sobre sífilis em uma década”

O pesquisador Juciano de Sousa Lacerda (RN), um dos idealizadores do projeto Sífilis Não, abriu a conversa com dados contundentes sobre o impacto da comunicação qualificada. “Durante dez anos, o Brasil só teve uma campanha realmente massiva sobre sífilis, e foi essa que nós desenvolvemos”, afirmou. Ele destacou que os esforços do projeto ajudaram a reduzir em 27,5% os casos da infecção entre 2018 e 2020.

Lacerda também apresentou os resultados de uma análise de mais de 1.600 páginas de notícias sobre sífilis entre 2015 e 2019. “Notamos que as matérias com teor mais emotivo, que traziam a gravidade da infecção e seus impactos na vida real, foram as que mais impulsionaram atitudes como a busca por testagem. Isso comprova que uma informação qualificada pode mudar comportamentos.”

Para ele, a comunicação em saúde não pode ser pensada de forma isolada. “Não adianta lançar uma campanha nacional e esperar que ela funcione sozinha. É preciso articulação intersetorial com escolas, ONGs, coletivos, profissionais de saúde e a mídia local.”

“A gente começou porque os pacientes diziam: ‘me sinto invisível’”

A biomédica Tatiane Assone (SP), cofundadora do HTLV Channel, emocionou o público ao relembrar como o projeto nasceu da escuta atenta às dores dos pacientes. “Eles diziam: ‘o médico não sabe o que é HTLV’. E no final sempre vinham com a mesma frase: ‘me sinto invisível’.”

Durante a pandemia, Assone decidiu agir. “Eu estava fazendo pós-doutorado na Bélgica, trancada em casa, olhando para um muro medieval. Foi aí que pensei: eu também estou invisível, mas tenho conhecimento. Será que dá pra falar de HTLV nas redes sociais?”

O *HTLV Channel* começou com vídeos caseiros, informativos, acessíveis. “Não somos jornalistas, somos pesquisadoras curiosas”, brincou. Com o tempo, vieram lives com especialistas, vídeos no YouTube e posts no Instagram. “Hoje temos mais de 3.500 seguidores e mais de 1.200 publicações. Para uma infecção que quase ninguém conhece, isso é enorme.”

Assone também destacou a importância de dialogar com diferentes públicos. “A gente já falou com promotores, fisioterapeutas, pessoas com deficiência, profissionais de saúde, ativistas. Porque falar de HTLV é falar de direitos, de cuidado e de políticas públicas.”

“A arte pode falar onde a ciência não alcança”

O encerramento ficou por conta do professor Mauro Romero Leal Passos (RJ), presidente dos congressos, que trouxe uma verdadeira aula sobre o poder da arte como ferramenta de comunicação e transformação social. Criador da exposição “Sífilis: História, Ciência e Arte”, Romero defendeu que “não se obtém resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa”.

“Durante décadas, falamos só com médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos. Mas e os roteiristas? E os diretores de cinema? E os artistas de rua?”, provocou. Para ele, é preciso sair do discurso técnico e alcançar o imaginário social. “Se você emociona uma pessoa, pode mudar uma vida inteira.”

Romero contou histórias de impacto, como a de um ex-morador de rua que conheceu seu trabalho na infância e anos depois se formou em enfermagem. “Uma exposição pode valer mais que mil palestras. E um bom filme sobre sífilis pode ter mais efeito que 10 mil folders.”

Ao final, compartilhou o projeto de um curta-metragem baseado em um caso real de sífilis congênita. “Se conseguirmos levantar os recursos, vamos contar essa história com arte, com emoção, com verdade. Porque, como eu sempre digo: ‘se você não se abrir para o tema, o tema não vai se abrir para você’.”

Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

XV Congresso da Sociedade Brasileira de DST (SBDST), do XI Congresso Brasileiro de Aids e do VI Congresso Latino-Americano de IST/HIV/Aids

Site: https://dstaids2025.com.br/home.asp

* A Agência de Notícias da Aids cobre os Congressos com o apoio do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde

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