
Com o final das eleições municipais de 2024, ativistas de São Paulo compartilham, em entrevista à Agência Aids, suas principais demandas para a próxima gestão. Lideranças de organizações como o Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids (Mopaids), o Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP) e o Instituto Vida Nova destacam a urgência de políticas públicas voltadas à ampliação do atendimento, prevenção e combate ao estigma das pessoas vivendo com HIV/aids.
Eduardo Barbosa, coordenador do Mopaids, enfatiza a necessidade de maior participação social nas decisões que impactam as vidas das pessoas vivendo com HIV/aids. “Queremos conselhos respeitados e comissões criadas para garantir que a voz da população seja ouvida”, explica Barbosa.
Já Maria Elisa, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP), reforça que, apesar das melhorias, a população feminina, especialmente mulheres negras, pobres e periféricas, continua a ser fortemente impactada pelo HIV. Ela alerta para o aumento de casos de câncer entre mulheres vivendo com HIV/aids e a falta de pesquisas sobre os efeitos dos antirretrovirais em corpos femininos, o que agrava as incertezas sobre a saúde dessa população.
Américo Nunes Neto, presidente do Instituto Vida Nova, salienta a importância de um plano governamental abrangente e viável para combater o estigma e a discriminação contra pessoas vivendo com HIV/aids. Ele aponta a necessidade de fortalecer os serviços municipais de especialidades, com mais profissionais de saúde e uma integração mais efetiva entre setores como assistência social, transporte e habitação. “Nenhum dos candidatos trouxe, de forma explícita, propostas para melhorar a política de IST/Aids, mas isso é essencial para garantir o acesso ao tratamento adequado e a prevenção”, alerta.
Além das demandas específicas para a área de saúde, os ativistas expressam expectativas mais amplas para o futuro prefeito. A inclusão social, a valorização da participação cidadã e a preparação da cidade para enfrentar crises, como pandemias e desastres naturais, também foram apontadas como fundamentais para a melhoria da saúde pública e da qualidade de vida em São Paulo. Confira a seguir o que eles disseram na íntegra:
Eduardo Barbosa – Coordenador do Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids (Mopaids): “Para a gestão 2025-2028, esperamos, em primeiro lugar, uma maior participação social nas decisões que afetam nossas vidas. Que os conselhos sejam respeitados e que comissões sejam criadas para ampliar essa participação. No contexto do HIV/aids e Tuberculose, embora tenhamos avançado, ainda há questões importantes a serem enfrentadas, como a melhoria da comunicação para as pessoas em maior situação de vulnerabilidade. Outra questão crucial é o aprimoramento do atendimento, com mais profissionais capacitados para acolher sem discriminação ou preconceito, seja pela sorologia, seja pelas práticas ou identidades das pessoas. Não podemos mais aceitar o número de óbitos em São Paulo devido ao abandono e à falta de continuidade das gestões nos serviços de saúde. Escrevemos uma carta-compromisso aos candidatos, que está disponível nesta página e na página do Mopaids. Queremos que os temas abordados nela sejam incorporados nas ações do futuro governo.”
Maria Elisa – Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP): “A cidade de São Paulo tem feito um bom trabalho para reduzir os casos de HIV, com estratégias de prevenção como a PrEP, que têm contribuído para esse avanço. No entanto, ainda enfrentamos grandes desafios que só poderão ser superados com políticas públicas comprometidas, que ofereçam serviços especializados funcionando plenamente, com equipes profissionais suficientes e instalações adequadas para o atendimento. É fundamental priorizar o cuidado e o tratamento da saúde física e mental das pessoas vivendo com HIV. As mulheres representam uma parcela importante das pessoas infectadas por HIV na cidade de São Paulo, especialmente aquelas que enfrentam maior vulnerabilidade:
– Mulheres negras, pobres e periféricas são as mais atingidas pelo HIV, frequentemente vítimas de violência sexual, doméstica e hospitalar.
– O aumento de casos de câncer entre mulheres vivendo com HIV é preocupante, e ainda faltam pesquisas sobre os efeitos dos antirretrovirais (ARVs) em corpos femininos. Dado que o vírus ataca as células, será que ele também pode influenciar o aumento desses casos?
– A falta de médicos especializados nos serviços de atendimento dificulta o tratamento adequado para pessoas vivendo com HIV/aids (PVHA) que possuem comorbidades.
– Mulheres HIV+ têm demonstrado maior fragilidade na saúde mental, especialmente no período pós-Covid e devido à exposição à violência.
– O difícil acesso a informações sobre HIV/aids na periferia faz com que muitos jovens tenham relações sexuais desprotegidas, resultando em casos de gravidez precoce e infecções por HIV e sífilis.
– A falta de informação sobre HIV/aids para a população idosa ainda é uma barreira importante para a prevenção nessa faixa etária.
A sociedade civil e os movimentos sociais têm colaborado com os órgãos governamentais de saúde no desenvolvimento de ações para conscientizar a população. No entanto, é fundamental que haja recursos financeiros destinados a esse trabalho. O Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas – se dedica a informar, fortalecer e empoderar as pessoas, além de participar ativamente na construção e na tomada de decisões sobre políticas públicas. Esse processo começa na base dos municípios, e, para isso, é necessário que prefeitos e vereadores estejam comprometidos com a defesa dos direitos das pessoas vivendo com HIV/aids e com os princípios do SUS. Esperamos que haja um olhar atento às necessidades específicas das mulheres vivendo com HIV/aids e ações que facilitem o acesso à prevenção para mulheres não infectadas.”
Américo Nunes Neto – presidente do Instituto Vida Nova: “Ao avaliar os candidatos à prefeitura de São Paulo, é essencial considerar vários aspectos, dos quais destaco dois: propostas e plano de governo: É importante analisar as propostas específicas para áreas como saúde, educação, transporte, segurança e habitação. Nenhum dos candidatos apresenta, de forma explícita, melhorias para as políticas de IST e aids; Expectativas para o futuro prefeito: Espero que o prefeito eleito ou reeleito tenha um plano claro e viável para enfrentar o estigma e a discriminação contra pessoas vivendo com HIV/aids. Também é fundamental fortalecer os serviços da Rede Municipal de Especialidades, ampliando o quadro de profissionais e promovendo a intersetorialidade entre SUS/SUAS, transporte, emprego e habitação. Para a área de saúde em HIV/aids, os candidatos deveriam considerar as seguintes políticas:
1. Acesso Ampliado ao Tratamento: Garantir que todas as pessoas com HIV tenham fácil acesso ao tratamento antirretroviral, com unidades de saúde bem equipadas e profissionais capacitados.
2. Testagem e Diagnóstico Precoce: Implementar campanhas de testagem em larga escala, especialmente nas periferias. A disponibilização de testes rápidos em locais estratégicos, como centros de saúde e eventos comunitários, é fundamental.
3. Educação e Prevenção: Promover programas de educação sexual em escolas e comunidades, abordando a prevenção de HIV/aids e outras ISTs. Distribuir preservativos em locais públicos e eventos também é essencial.
4. Apoio Psicológico e Social: Ampliar os serviços de apoio psicológico e social para pessoas vivendo com HIV/aids, com grupos de apoio e orientações sobre direitos e saúde.
5. Integração de Serviços de Saúde: Fomentar a integração entre unidades de saúde mental, assistência social e outras áreas, promovendo um atendimento centrado no paciente.
6. Combate ao Estigma e Discriminação: Desenvolver campanhas de conscientização para reduzir o estigma associado ao HIV/aids, incentivando uma cultura de aceitação e apoio.
7. Monitoramento e Pesquisa: Investir em pesquisas sobre novas formas de tratamento e prevenção, além de monitorar a evolução da epidemia na cidade para ajustar as políticas de forma eficiente.
8. Experiência e Competência: É fundamental que o próximo prefeito demonstre capacidade de liderança, com participação da sociedade civil organizada na elaboração e execução das propostas, transparência na administração e prestação de contas à população.
9. Inclusão Social: O prefeito eleito deve buscar reduzir as desigualdades sociais, com apoio às comunidades mais vulneráveis, especialmente nas periferias.
10. Sustentabilidade: Diante da urgência das questões climáticas, propostas relacionadas ao meio ambiente, urbanismo sustentável e mobilidade urbana têm impacto indireto, mas relevante, na vida das pessoas vivendo com HIV/aids.
11.Participação Cidadã: Valorizar a participação da população nas decisões é essencial, promovendo canais de diálogo e escuta ativa.
12. Resiliência e Gestão de Crises: A capacidade de lidar com crises, como pandemias ou desastres naturais, e de preparar a cidade para futuros desafios é crucial.”

Betinho Peereira – Diretor do Projeto Bem-me-quer. “1. Que dê maior atenção a política de HIV/Aids, na Assistência, prevenção e parcerias com as OSC.
2. Que as ações de Direitos Humanos sejam respeitadas e alinhadas a Declaração Universal de Direitos Humanos
3. Fortalecer a Coordenadoria da Diversidade, sobretudo nesse tempo que os discursos de ódio só fazem aumentar no Brasil”
Bem-me-quer :bettosampa@gmail.com

Marta Macbritton, presidente do Instituto Cultural Barong “Espero que o novo prefeito de São Paulo não apenas mantenha, mas amplie as políticas de combate ao HIV/AIDS, integrando ações com outras secretarias, como a de Educação. A promoção de direitos sexuais e reprodutivos nas escolas, por meio da educação sexual inclusiva, é essencial para prevenir novas infecções e combater o estigma.”
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dicas de entrevista
Mopaids
Instagram: @mopaidsp
MNCP
Instagram: @mncp
Instituto Vida Nova
Tel.: (11) 2297-1516
Projeto Bem-Me-Quer
bettosampa@gmail.com
Instituto Cultural Barong
(11) 3081-8406



