Revista ‘Cláudia’ traz matéria sobre vulnerabilidade feminina ao HIV

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12/03/2014
Assinada pela repórter Cristina Nabuco, uma reportagem de cinco páginas na revista “Cláudia”, que está nas bancas com a atriz Flávia Alessandra na capa, alerta as leitoras sobre os riscos de infecção pelo HIV, inclusive dentro do casamento, mantendo relações sexuais apenas com o marido. Diz que, apesar dos avanços médicos e científicos, o número de pessoas infectadas voltou a crescer no mundo todo e traz depoimentos de mulheres infectadas, entre elas, de Beatriz Pacheco, do Movimento Nacional das cidadãs PositHIVas. Do mesmo grupo, Nair Brito também conta sua história. E há uma entrevista com Roseli Tardelli, editora-executiva da Agência de Notícias da Aids, criticando o que considera comodismo do governo no enfrentamento da aids. Leia a matéria a seguir:

HIV, a guerra ainda não acabou

Há remédios gratuitos para deter o vírus da aids, testes rápidos, distribuição de camisinhas… Mesmo assim, ele segue infectando muita gente. Entenda como nós, mulheres, nos tornamos vulneráveis e o que devemos fazer para nos defender.

CRISTINA NABUCO

vida ficou muito mais interessante e divertida depois que o conceito de moral relaxou um pou¬co e os horizontes se expandiram. Não há mais razão para ficar sozinha em casa, na rabeira de um mal-estar amoro¬so, quando uma relação longa termina. Acabou a censura sobre a mulher desacompanhada no bar, na balada, em busca de um novo amigo, alguém para dançar, mesmo que só por aquela noite. Para os homens, a mudança veio nos anos 1990 com o comprimido azul do Viagra, que espi¬chou a atividade sexual e tirou do jogo a impotência – já que a disfunção erétil assombra 45% dos brasileiros. Meninos e meninas começam mais cedo, beijando alguém do mesmo se¬xo no shopping, na rua, na escola, uma es¬pécie de rito de passagem – para conhecer a si próprio e o sexo. Tudo isso, que agora se faz às claras, sem hipocrisia, trouxe também um comportamento mais descui¬dado com a prevenção da aids. Para com¬pletar o quadro, o Brasil, que esteve na vanguarda do com¬bate da doença, derrapou nos programas de saúde, empa¬lideceu as campanhas na mídia, diminuindo a conscienti¬zação sobre a transmissão do vírus da imunodeficiência humana, o HIV. Estima-se que 200 mil pessoas estejam contaminadas no país e nem suspeitam que carregam o agente no sangue. Ele é o responsável pela queda das defe¬sas, incapacitando o organismo para reagir à tuberculose, pneumonia, toxoplasmose e meningite.

Os avanços no tratamento chegaram a sugerir que os dias de jugo dessa doença estariam contados. A meta do Progra¬ma das Nações Unidas, o Unaids, é decretar o fim da epide¬mia em 2030, mas apareceu um obstáculo. O número de infectados voltou a crescer no mundo todo. A cada ano, a aids, que já matou 30 milhões de pessoas, leva a 12 mil óbi¬tos só no nosso país. As infeções retomaram sua escalada entre os homossexuais masculinos mais jovens. Aqui, os casos entre rapazes de 15 a 24 anos aumentaram em 81% de 2005 a 2012, revela o boletim epidemiológico de 2013.

O problema permanece em alta ainda entre profissionais do sexo e usuários de drogas injetáveis. Mas que ninguém se iluda: quem está fora desses perfis não deve se considerar livre. Incluindo as mulheres de um homem só. “Muitas acham que não precisam se preocupar e acabam se expon¬do”, diz Jarbas Barbosa, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. Segundo registros oficiais, 96,6% das contaminadas entraram em contato com o vírus em relações com homens – muitas em situações domésticas e convencionais. “São as casadas com homossexuais não as¬sumidos, com família constituída”, afirma o secretário. “E há os héteros com experiências extraconjugais com várias mulheres.” Em 2012, surgiram 39 mil casos de aids, detectados sobretudo na faixa dos 35 aos 39 anos. A taxa é de uma mulher para cada sete homens. Muitas só descobrem ao fazer exa¬mes na gravidez.

A transmissão da mãe para o bebê, na gestação e no parto, evitá¬vel em 99% das vezes, ainda preocupa: em nove dos 27 estados brasileiros, ela ultrapassa a média nacional: 3,4 para ca¬da 100 mil habitantes. É preciso colocar na lista do descaso os ginecologistas que não solicitam o teste. As mulheres fazem papani¬colau, dosam colesterol e glicemia, mas, lembra Jarbas Barbosa, quase nunca realizam o exame de HIV. A menos que manifestem queda na resistência, perda de peso, diarreia e crescimento dos gânglios linfáticos.

Não se fala mais em grupo de risco, já que o perigo é para todos. Nem em comportamento de risco, mas em si¬tuação de vulnerabilidade. Sofrer violência doméstica, por exemplo, aumenta a exposição. “Como vivem relações se¬xuais não consentidas, as mulheres não têm coragem de exigir a camisinha”, afirma a médica Naila Seabra Santos, da direção do programa de prevenção de DST/Aids do Es¬tado de São Paulo. Há a idade de maior fragilidade.

“A mo¬ça de 15 a 24 anos está aprendendo a se relacionar e acha que ficará malvista se sacar a camisinha da bolsa.” É es¬perado que o número de soropositivas suba nessa faixa. E há as casadas por muito tempo que se divorciam e em geral perdem a malícia ou, ávidas por carinho, esquecem de suspeitar dos hábitos sexuais de um novo par. “Houve uma mudança cultural. Vivemos e envelhecemos de modo diferente”, diz Naila. “As mulheres se separam aos 60 e vão para o baile. A vida sexual dura mais.”

Um sinal de que o problema chegou aos sessentões se vê no Ambulatório de Moléstias Infecciosas do Hospital do Servidor Público Estadual, em São Paulo. As fichas de pa¬cientes nessa faixa com aids fizeram o ambulatório im¬plantar a testagem rápida e voluntária, aberta a todos os frequentadores. Em 2009, os soropositivos idosos eram 3% do total. Em 2013, 18%. Dos que procuram o tes¬te, 70% são mulheres – mas o índice de positivo é o dobro entre homens. Durval Costa, infec¬tologista do hospital, lembra que os de 60 a 80 adotaram o Viagra, mas detestam o pre¬servativo. Creem que, se demorarem para vesti-lo, o efeito do remédio evapora. Cerca de 63% deles fazem sexo desprotegidos. Os mais jovens aceitam melhor: 48% colocam camisinha habitualmente. Mas a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da Universidade de São Paulo, lembra que a maioria deixa de usar quando acha que o relacionamento se firmou: “Há confusão entre relação estável e exclusiva.”

NÃO É FÁCIL VIVER COM HIV
Deixa-se a camisinha por uma visão equivocada de que a aids já é uma doença como qualquer outra, com a qual se convive sem problemas. Não é bem assim. “Ela afeta a vida sexual e impacta nos planos de ter filhos”, destaca Naila Santos. “Não é fácil viver com o HIV”, diz a peda¬goga Nair Brito, 53 anos, ativista do Movimento Nacio¬nal das Cidadãs PositHIVas. Ela se infectou há 19 anos, depois do divórcio. “Eu era uma pessoa comum, ia do trabalho para casa e cuidava do meu filho. Não entendi nada quando os sintomas apareceram. Não havia trata¬mento, estive à morte três vezes e vi muitos amigos fale¬cerem.

” No Canadá, ouviu falar do primeiro remédio, o AZT. Entrou na Justiça e conseguiu que o governo lhe fornecesse o medicamento, que passou a ser estendido a todos os doentes em 1996. “A curva de óbitos caiu muito”, lembra Nair. O Sistema Único de Saú¬de já oferece 21 antirretrovirais – o paciente recebe de três a seis. O coquetel não cura, mas impede a multiplicação do HIV. Neste ano, o tratamento acabou sendo ampliado a todos os infectados – antes só era iniciado se a contagem de CD4, as células de defesa atingidas pelo HIV, caís¬sem abaixo de 500 unidades por milíme¬tro cúbico de sangue. “A antecipação reduz a carga viral e o poder do agente”, explica Jarbas Barbosa. Com a maior demanda, os ativistas te-mem uma queda na qualidade do atendimento para quem mais precisa. Já o receio dos infectologistas é que soropositivos livres de sintomas não tolerem os efeitos colaterais e abandonem o tratamento, o que pode deixar o vírus resistente e os remédios impotentes.

O efeito colateral que mais incomoda as soropositivas, segundo Nair Brito, é a lipodistrofia, alteração na distri¬buição de gordura: perde-se no rosto (a bochecha afun¬da), nos glúteos, braços e pernas (as veias ficam aparen¬tes). Ela se acumula no abdome, seios e tórax, deixando a barriga enorme. A gordura ainda se deposita entre as vísceras, provocando alterações metabólicas – como o aumento nos níveis de colesterol, triglicérides e de açú¬car no sangue – e elevando o risco de cardiopatias. A troca de remédios pode aliviar o quadro. Às vezes, resta a cirurgia plástica. “Dou graças a Deus por estar viva, mas remédio não é suficiente”, diz Nair. “A luta agora é pelo direito às cirurgias que devolvem a autoestima.”

PREVENIR, O ÚNICO CAMINHO
Não é preciso abrir mão do prazer, da alegria e do en¬contro. A saída está no sexo seguro, enquanto não se cria uma vacina. Há várias tentativas em curso. O HIV, po¬rém, tem enorme capacidade de sofrer mutações, difi¬cultando o caminho da imunização. O aliado é a camisi¬nha (masculina ou feminina), colocada antes do contato com as mucosas genitais, anal e oral. “Sexo entre lésbicas também requer proteção”, ressalta Valdir Monteiro Pin¬to, médico do Programa Estadual e Municipal de DST/ Aids de São Paulo. “O HIV se concentra em fluidos vagi¬nais, menstruais e microferimentos na boca, na língua e nas mãos. Pode ser transmitido ainda no tribadismo (ro¬çar vagina com vagina) e no uso comum de brinquedos sexuais.

A orientação é adotar preservativo nos acessó¬rios, luvas para as manipulações e alguma barrei¬ra no sexo oral – fita de filme de PVC (que em¬bala alimentos) ou luva recortada, colocada sobre os genitais. Isso vale para o homem, no sexo oral com a mulher. Deve-se evitar objetos cortantes de outras pessoas e tatua¬gens em serviços não recomendados. Mesmo que, no casal, os dois decidam vi¬ver um para o outro, eles precisam fazer o teste antes de abolir a camisinha. Se admi¬tirem os contatos extraconjugais, mesmo com proteção, devem repeti-lo anualmente. O teste encontra-se disponível nas unidades de saúde. Uma boa notícia está reservada para o segundo semestre: en¬trará na rede pública e nas farmácias um teste com flui¬do oral. Não haverá mais desculpas para ignorar entre nós a presença do vírus que mina as relações e a vida.

“O GOVERNO SE ACOMODOU”
A jornalista Roseli Tardelli abraçou a causa depois que o irmão, Sérgio, contraiu HIV, nos anos 1990. Criado¬ra da Agência AIDS, a primeira espe¬cializada em divulgar informações da doença, ela amplia o tema no li¬vro O Valor da Vida (Editora Senac). Aqui, aponta avanços e derrotas

Espera-se um crescimento no nú¬mero de infectados. O que hou¬ve com o programa nacional de combate à aids, tão elogiado no cenário internacional? Estávamos na vanguarda. Enquanto o mundo discutia se devia tratar ou prevenir a doença, o Brasil fez os dois. Ofe¬receu tratamento gratuito, quebrou patente de remédio, distribuiu ca¬misinhas. Mas se acomodou. Não adianta falar na doença só no Car-naval e no Dia Mundial da Aids. Pre¬venção é o ano todo. O governo está refém da bancada conserva-dora do Congresso, que não deixa realizar campanhas direcionadas a quem está se infectando mais: ho¬mens que fazem sexo com homens e profissionais do sexo.

Como reverter isso? Com compro¬misso e atitude do governo, dos la¬boratórios, da ciência, dos médicos, das empresas, da comunicação. Aids é um problema de todos nós. O mundo puxou o freio de mão, mas ela continua avançando no ritmo de um carro de fórmula 1. No primeiro momento, foi importante garantir a vida dos infectados, com antirretro¬virais. Meu irmão não viveu para ver isso. Viver por mais tempo, porém, não significa não sofrer. O remédio tem efeitos colaterais, as pessoas se cansam de tomar. Convivemos com o vírus há 30 anos e ele ainda está ganhando da gente.

Como se enfrenta a aids? Com transparência, informação, tolerân¬cia. É preciso conversar sobre ela em família. Acolher um filho gay. Quase 200 mil pessoas desconhe¬cem carregar o vírus. Muitos che-gam ao serviço de saúde bem doen¬te. Se fossem diagnosticadas antes, um grande sofrimento seria evitado.

“Eu desafio o preconceito”
“As portadoras de HIV estão escondidas, e é fácil entender o porquê. Elas se sentem sós e excluídas, temem a perda do emprego, os efeitos colaterais dos remédios, a falta de um amor. Preferem o silêncio, na fantasia de que assim os problemas não vão alcançá-las. Vejo isso nas palestras que dou, nos relatos que ouço ao telefone, muitas vezes de madrugada, e no Facebook. Minha causa é esta: derrubar o preconceito. Descobri o HIV em 1997, depois de oito meses de catapora. Quando me pediram o teste, dei risada: ‘Não fumo, não bebo, não sou da noite, pra que fazer o teste?’ Meu ex-marido tinha se submetido à transfusão de sangue. No diagnóstico, ouvi que morreria em 18 meses. Mas ajudei a fundar muitos movimentos de soropositivas e vou morrer brigando pelo direito de viver com HIV. Os portadores estão em todos os lugares, quase ninguém os vê. Numa palestra que fiz num pequeno jornal gaúcho encontrei três jornalistas infectados. Algumas histórias são bem tristes. Recentemente, uma mulher me pediu um encontro. Queria tocar em mim, sentir que estou viva, pois tem certeza de que vai morrer. Um casal sorodiscordante – o homem tem o HIV, a mulher não – quer um filho, mas o SUS não faz lavagem de esperma, como as clínicas particulares, o que evita a contaminação do feto. Eu mesma ainda encontro dificuldades, como chegar com meus netos na piscina do prédio e uma vizinha tirar os dela. Eu lhe disse que, se o HIV passasse na água, não poria meus netos em risco. Alguns se recusavam a entrar no elevador comigo. E os que vinham me visitar, nunca aceitavam água ou café. É contraditório: as pessoas não bebem na xícara da minha casa, mas vão para cama sem camisinha. Sempre desafio o preconceito, que já veio também de onde eu não esperava. Quebrei o braço e fiquei oito semanas para achar um médico que se dispusesse a me operar. Dentistas igualmente se recusam a tratar soropositivos. As pessoas têm razão de estar escondidas, mas isso precisa acabar. Não somos cidadãs de segunda categoria. Se nos escondemos, ficamos no lugar onde a sociedade quer: longe de tudo.”
BEATRIZ PACHECO, 65 anos, aposentada, vive em Porto Alegre


“Não consigo contar para a minha mãe”

“No dia 19 de dezembro de 2012, a médica me trouxe a pior notícia da minha vida: HIV positivo. Foi um chute na barriga. Confusa, perguntei se não podia ter filhos e chorei. Ela me acalmou, disse que era possível ser mãe se me tratasse. Explicou sobre remédios, carga viral… Eu nem absorvia tanta informação. Saí atordoada e entrei num shopping cheio de gente, me sentindo só. Liguei para a minha melhor amiga. Ela me tranquilizou: ‘Nós vamos descobrir tudo sobre essa doença, você vai viver bem’. Já fazia terapia e nunca tive postura de vítima, de ficar perguntando: ‘Por que comigo?’ Não sei como me infectei. A médica calcula que foi seis anos antes. Estava separada, tinha sido doadora de sangue, feito tatuagem, mas meu coração me diz que peguei o HIV em relação sexual. Fui namoradeira, por volta dos 30 anos tive um caso aqui, outro ali. Transei com amigo de amigo e caras da balada. Na maioria das vezes, com camisinha. Em outras, vacilei, deixei rolar. No dia seguinte, vinha a ressaca moral, a culpa por correr o risco de gravidez. Nunca pensei em doença. Em outubro de 2012, comecei a ter uma secura na garganta, que virou dificuldade para respirar, falta de ar. Fui internada com suspeita de embolia pulmonar e encaminhada a uma infectologista. A médica pesquisou o CD4 (estava baixíssimo, só 8) e a carga viral (era alta, 440 mil). Ela receitou antirretrovirais, antifúngico, antibiótico, ácido fólico e ferro: 13 remédios por dia. Dois meses depois, veio um herpes-zoster e fiquei internada 11 dias. Emagreci, o cabelo caiu, o intestino ficou solto e a pele seca. Meu organismo reagiu e a carga viral ficou indetectável. Hoje tomo quatro antirretrovirais de manhã e três à noite. Como de tudo, trabalho, saio com amigas. Não tenho namorado e gostaria de ter, embora saiba que será difícil me abrir com ele sobre o vírus. Sou bem resolvida, só não consigo contar para minha mãe e meu irmão. Como dizer que sou soropositiva? Não tenho coragem. Não estou preparada para a reação deles, não quero que tenham dó. Se o estigma não fosse tão forte, todos saberiam que sou jovem, inteligente, não tenho cara de doente, mas vivo com o HIV.”
S.N.W, 36 anos, produtora de eventos, vive em São Paulo ww

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