Marty Makary disse que empresas podem bancar próprias pesquisas e defendeu redirecionamento de recursos para doenças raras.
O comissário da agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), Marty Makary, afirmou nessa segunda-feira (23) que apoia as vacinas de RNA mensageiro (mRNA), mas defendeu que os contribuintes americanos não devem arcar com os custos de novas pesquisas nessa área.
A declaração ocorre dias após a agência mudar de posição e concordar em revisar uma vacina contra a gripe desenvolvida pela Moderna com tecnologia de mRNA.
Makary falou durante um evento em Washington que anunciou uma proposta da FDA para acelerar a aprovação de terapias gênicas voltadas ao tratamento de doenças raras.
Apoio à tecnologia, mas sem financiamento público
Segundo o comissário, a FDA continua apoiando a plataforma de RNA mensageiro, tecnologia que ganhou destaque durante a pandemia de covid-19.
“Acho que seria um exagero dizer que não estamos abraçando as vacinas de mRNA. Aprovamos duas vacinas de mRNA no início da minha gestão”, afirmou.
A agência já autorizou duas vacinas de mRNA contra o vírus sincicial respiratório (RSV), uma da Moderna e outra da GSK.
Makary acrescentou que gostaria de ver mais dados sobre o uso da tecnologia no tratamento do câncer e de outras condições. Atualmente, a Moderna e a Merck desenvolvem uma terapia personalizada contra o câncer que combina mRNA com a imunoterapia Keytruda.
Corte de verbas e polêmica no Departamento de Saúde
O posicionamento de Makary também foi uma defesa das decisões do Department of Health and Human Services (HHS), que no ano passado reduziu o financiamento federal destinado ao desenvolvimento de vacinas de mRNA.
Em agosto, o então secretário da pasta, Robert F. Kennedy Jr., anunciou o encerramento de atividades ligadas à tecnologia dentro da unidade de pesquisa biomédica do departamento.
À época, Kennedy afirmou que os dados mostrariam falhas na proteção contra infecções respiratórias como covid-19 e gripe —declaração que contrasta com evidências científicas acumuladas desde a pandemia.
Meses antes, em maio, o HHS já havia cancelado mais de US$ 700 milhões em repasses à Moderna para o desenvolvimento de uma vacina de mRNA voltada a patógenos com potencial pandêmico, incluindo a gripe aviária, que enfrentava surtos em rebanhos de gado leiteiro e infecções em trabalhadores.
‘Empresas lucraram bilhões’
De acordo com Makary, a decisão de cortar os recursos não significa descrédito na tecnologia, mas escolha orçamentária.
“Havia financiamento para tecnologia de mRNA no HHS. Esse dinheiro foi redirecionado para outras causas. Não é porque não acreditamos na tecnologia, mas porque as empresas que produziram vacinas de mRNA ganharam mais de US$ 50 bilhões e podem financiar suas próprias pesquisas”, afirmou. “Não precisa ser às custas dos contribuintes americanos.”
Durante a pandemia, a Moderna utilizou financiamento público para desenvolver sua vacina contra a covid-19. Já o imunizante da parceria entre Pfizer e BioNTech foi autofinanciado.
Prioridade para áreas menos financiadas
Makary defendeu que o governo concentre recursos em áreas consideradas subfinanciadas, como doenças raras e condições pouco estudadas.
Segundo ele, o papel do Estado é apoiar pesquisas em “condições sob medida e doenças raras, que ficaram nos pontos cegos da medicina moderna”.
A fala reforça a sinalização de que, sob sua gestão, a FDA pretende manter apoio regulatório à inovação em terapias gênicas e tecnologias de edição genética, mas com revisão da política de financiamento público para grandes farmacêuticas.




