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Notícia publicada originalmente em 25/04/2025
O mundo acompanha, neste sábado (26), o último adeus ao Papa Francisco, líder espiritual de 1,4 bilhão de católicos, que morreu na última segunda-feira (21), um dia após ter recebido uma multidão no Vaticano durante a celebração do Domingo de Páscoa. De Buenos Aires a Pequim, líderes políticos, religiosos e representantes da sociedade civil manifestam condolências e homenagens à trajetória do pontífice argentino, conhecido por sua postura acolhedora, sensível às causas sociais e defensor incansável dos direitos humanos.
O funeral de Francisco acontece às 10h (horário local de Roma, 5h em Brasília), no átrio da Basílica de São Pedro. A missa das Exéquias será presidida pelo cardeal Giovanni Battista Re, decano do Colégio Cardinalício. Após os ritos, o corpo do Papa será levado para a Basílica de Santa Maria Maior, onde ocorrerá o sepultamento.
A celebração marca o encerramento dos nove dias de luto e orações dedicados à memória do pontífice. A liturgia fúnebre vem sendo organizada com base em deliberações entre cardeais, sob a coordenação do arcebispo irlandês Kevin Joseph Farrell, atual camerlengo e responsável por administrar a Igreja no período de sede vacante.
Chefes de Estado de todo o mundo confirmaram presença na cerimônia, incluindo o presidente francês Emmanuel Macron, o presidente da Argentina, Javier Milei, o chanceler alemão Olaf Scholz e representantes da União Europeia. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva representará o Brasil e, em nota, lamentou profundamente a morte de Francisco, ressaltando seu papel na promoção da paz, da fraternidade e da defesa dos pobres.
Francisco, primeiro papa latino-americano e jesuíta da história da Igreja, destacou-se pelo compromisso com a justiça social, com o cuidado com o meio ambiente e com a inclusão das populações marginalizadas. Seu papado é marcado por gestos simbólicos e corajosos, como visitas a campos de refugiados, encontros com líderes de outras religiões e falas contundentes contra as desigualdades, o racismo e a discriminação.
A perda do pontífice comove também ativistas e organizações da sociedade civil, especialmente ligadas à luta contra a aids, aos direitos das pessoas LGBTQIA+, à saúde e à justiça social. Lideranças brasileiras manifestam publicamente pesar e admiração pela figura que se tornou uma referência global de acolhimento e solidariedade. Confira a seguir:

Alessandra Nilo, cofundadora da Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero, lembrou da força simbólica do Papa Francisco em tempos de crise global:
“Ano passado fui a Roma pela primeira vez e, claro, visitei o Vaticano. E como faço questão de honrar os lugares de fé por onde passo, deixei meu depoimento e gratidão, pois já achava cada vez mais raro encontrar líderes com fé na humanidade –– e assim era Francisco, à frente do seu Estado teocrático-monárquico, rompendo silêncios, expondo feridas, reconstruindo pontes implodidas em nome de um tipo de ‘cristianismo’ contra o qual ele lutava, ferozmente, dentro e fora da sua Igreja.
Agora que ele se foi, dá pra enxergar o tamanho do vácuo que ele deixa, logo quando precisamos de mais vozes pelas almas oprimidas, de mais brisa para estancar as feridas de um planeta que derrete, num mundo atravessado por hipócritas de má-fé.
Eu estava na ONU quando ele fez o seu famoso discurso alertando sobre a emergência climática e ali, onde sempre briguei com o Vaticano (e continuo a brigar por causa das suas posições sobre direitos reprodutivos), encontrei nesse Papa um imenso amor por *todas* as pessoas, que ia muito além dos preconceitos – dos meus, inclusive – que nos separavam.
Hoje, vendo as timelines eternizarem seus alertas sobre desigualdades e injustiças planejadas, gela o coração saber que perdemos Francisco, esse líder. Desde ontem, a visita ao Vaticano ficou mais viva. Hermanito… sei que estás bem, mas nós não estamos.
E entre o realismo pós-guerra de Rossellini e o surreal e fantástico de Fellini que você tanto amava, só consigo pensar que estamos mais para Rambos e zumbis, e já não identifico direito quando foi mesmo que a ficção científica virou verdade e a necropolítica, em Estados de direito corrompidos, nos capturou, se expandindo em sua pior forma, via telas que nos anestesiam até diante de genocídios, nos iludindo e nos afastando cada vez mais da justiça social e da paz que você, com todas as forças, abraçou.
Desculpas, Francisco. RIP Francisco. Obrigada por isso, obrigada por acreditar que um dia pode haver paz e esperança nos corações aflitos.”

Micaela Cyrino, ativista do movimento negro e da luta contra a aids e artista plástica, destacou a capacidade do Papa de renovar a vivência da fé:
“O Papa nos fez compreender que a religião é algo vivo, que se renova com o tempo sem perder sua essência e propósito. Com suas palavras e atitudes, ele nos mostrou que é possível viver a fé de forma profunda e, ao mesmo tempo, caminhar lado a lado com os direitos humanos e o respeito à diversidade. Sua postura nos convida ao acolhimento, ao amor ao próximo e à construção de uma sociedade mais aberta, inclusiva e humana.”

Para Vagner Almeida, cineasta, pesquisador sobre gênero, sexualidade e saúde, e coordenador de projetos da ABIA (Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids), a principal marca de Francisco foi a solidariedade:
“O Papa Francisco, nosso Chico, nos trouxe algo para as nossas vidas, que aflorou em nossas almas a arte e o dom da solidariedade entre todos os iguais e diferentes. Um papa, pai, irmão, amigo, que em sua ligeira passagem aqui deixou um rastro de sementes do bem. Que a sua passagem seja de muita luz, pois ele era luz.”

Silvia Almeida, ativista do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas, definiu Francisco como o “Papa dos Direitos”:
“Francisco, abençoado! Onde existia ódio, ele levou o amor. Onde havia desrespeito, ele levou o respeito. E onde há tanta ignorância, ele procurou levar a sabedoria de sua alma. Claro que o que se oferta não será aceito por todas as pessoas, porque existem seres humanos que ainda não estão evoluídos para este entendimento. Mas nosso representante maior de Cristo fez sua parte, plenamente. Gratidão, eterno Papa dos Direitos, da inclusão, do acolhimento e do Amor!”

Heitor Werneck, produtor artístico da Parada LGBT de São Paulo, ressaltou que, mesmo não sendo adepto de religiões, sentia em Francisco uma exceção esperançosa:
“Eu não tenho apreço por religiões, principalmente pelas monoteístas, com um Deus, como o cristianismo – que inclusive me assustam. Este papa era um diferencial. Ele mostrou um pouco que é possível, dentro da instituição, acolher autistas, vulneráveis e LGBTs. Que ele seja um exemplo e uma inspiração para esta religião castradora e responsável por tanta discriminação – e que abriga tantos criminosos. Que ele seja inspiração, e não um mártir ou uma referência esquecida.”

Tadeu Di Pietro, vice-presidente do Instituto Cultural Barong, afirmou:
“O Papa Francisco deixa um legado a todos que lutam e creem numa sociedade mais justa, solidária e humana, independentemente da religião ou ideologia. Ele provou que a luta é difícil, mas, se feita com alma e resiliência, os resultados acontecem. Nos deixou principalmente a esperança de mudança!”
Francisco deixa um legado de empatia e compromisso com os mais pobres, as minorias e a paz mundial. Seu último adeus mobiliza católicos e não católicos ao redor do planeta, que agora se voltam à Praça São Pedro para prestar homenagem a um papa que ousou sonhar com uma Igreja mais humana, aberta e justa.
Redação da Agência de Notícias da Aids



