Notícia publicada originalmente em 27/03/2025
Um estudo publicado na The Lancet HIV alerta que cortes na ajuda internacional podem reverter décadas de progresso no combate ao HIV/aids, resultando em até 10,8 milhões de novas infecções e 2,9 milhões de mortes até 2030.
Os impactos mais graves devem ocorrer em países de baixa e média renda, especialmente na África Subsaariana, onde programas como o PEPFAR garantem acesso a tratamento, testagem e prevenção do HIV. No entanto, com a suspensão temporária do financiamento dos EUA em janeiro de 2025 e cortes anunciados por outros países, o Unaids estima que até duas mil novas infecções possam ocorrer diariamente.
“Essa retirada repentina levou ao fechamento de clínicas e à demissão de milhares de trabalhadores da saúde (…). Esperamos um aumento nas novas infecções”, afirmou Winnie Byanyima, diretora executiva do Unaids. A OMS também alertou que milhões de vidas estão em risco, podendo levar o mundo de volta aos anos 1980 e 1990.
A modelagem do estudo indica que, sem substituição dos recursos, novas infecções podem crescer até seis vezes entre populações vulneráveis. Além disso, o fechamento de programas de prevenção e tratamento pode anular os avanços desde o ano 2000, dificultando ainda mais a meta global de eliminar o HIV/aids como ameaça à saúde pública.
“É fundamental garantir financiamento sustentável para evitar o ressurgimento da epidemia”, reforça Debra ten Brink, coautora do estudo. Pesquisadores também destacam que, mesmo se os recursos forem restaurados em até dois anos, o impacto prolongado exigirá décadas de reinvestimento.
A Agência Aids ouviu ativistas da luta contra a aids para comentar o estudo. Confira a seguir:
Fabi Mesquita Guarani, do Instituto Multiverso:
“Os dados revelados pela The Lancet HIV doem porque confirmam o que a gente já sente nas comunidades: quando a resposta global ao HIV perde força, quem mais sofre são as pessoas que sempre estiveram à margem. Cortar financiamento internacional é virar as costas para corpos que resistem todos os dias — é decretar o abandono de populações inteiras que lutam por acesso, por dignidade, por vida.
A resposta ao HIV nunca foi só sobre medicamentos, mas sobre humanidade, compromisso e justiça social. Se deixarmos o investimento cair, deixamos também o compromisso com uma geração que acreditou que o fim da aids era possível. O mundo precisa entender que não existe equidade sem investimento e que vidas não são negociáveis. Para que essa hipótese alarmante não se concretize, é urgente que governos (incluindo o nosso), organismos internacionais e doadores privados reafirmem — com ações e recursos — seu compromisso com a resposta global ao HIV. Isso significa manter e ampliar os financiamentos, fortalecer os sistemas públicos de saúde, apoiar iniciativas lideradas pelas comunidades e garantir que as populações mais vulnerabilizadas tenham acesso contínuo à prevenção, diagnóstico, tratamento e cuidado.”

Américo Nunes Neto, presidente do Instituto Vida Nova:
“A interrupção do apoio financeiro a serviços especializados no tratamento do HIV causará a exclusão de profissionais de saúde e prejudicará o apoio às organizações da sociedade civil. Isso trará um impacto negativo na luta contra o HIV, outras ISTs e coinfecção com tuberculose.
As consequências da suspensão do financiamento da USAID para o combate ao HIV serão imensas e desastrosas para as pessoas que vivem com HIV e para o governo brasileiro. O corte resultará no aumento das infecções e mortes relacionadas à aids, assim como na redução dos serviços de prevenção e tratamento, levando a mais infecções, absenteísmo de pessoas vivendo com HIV/aids nos serviços de saúde e, consequentemente, mais óbitos.
O governo brasileiro já enfrenta diversos desafios — técnicos, políticos e financeiros — para manter os serviços de saúde e prevenção ao HIV e apoiar as OSCs. A suspensão do financiamento da USAID pode comprometer ainda mais esses avanços e colocar em risco a saúde pública.”

Harley Henriques, do Fundo Positivo:
“Sem dúvida vivemos, o mundo vive, tempos muito desafiadores, onde direitos fundamentais estão sendo ameaçados globalmente. Recentemente, a internet tem visto retrocessos significativos em políticas públicas de saúde, que atendem a populações LGBTQI+, mulheres, populações negras, nos países da África, todos em situação de vulnerabilidade social. Muitos avanços nós conseguimos no campo do HIV/aids, ao longo dos mais de 40 anos de epidemia. Nós tivemos, no campo do tratamento, chegamos num momento onde as pessoas vivem sim com qualidade de vida, tomando, em muitos casos, um único comprimido diário. No campo da prevenção, a PrEP mostra diminuição de novas infecções em cidades que fizeram uma política eficaz de PrEP na sua política pública de saúde, como a Cidade de São Paulo, Amsterdã e tantas outras. E o que nós vemos são cortes em programas de assistência, de ajuda humanitária internacional, redução de investimentos na saúde pública, colocando em risco milhões de vidas. São muitos. É uma alerta muito sério esses dados que esse estudo traz, que a Organização Mundial da Saúde já tinha trazido a ponto das mortes relacionadas à aids, que irão crescer nos próximos anos, em número de milhões. É um impacto devastador para populações que enfrentam já desafios diários para acessar a saúde, já que muitos dos países, eles não oferecem, não têm condição de ter na sua política de saúde a distribuição do medicamento antirretroviral que venha, sim, de uma ajuda humanitária internacional. Não são decisões apenas políticas, são estratégias políticas que determinam quem tem direito à vida, e quem será colocado em situação de risco quando se enfraquece o acesso à saúde, se está escolhendo quais vidas importam e quais aquelas que podem ser descartadas. O tipo de desmonte de direitos que nós estamos vendo nesse ano de 2025, não acontece infelizmente por acaso. Ele reflete um sistema que ao invés de proteger, candena ao abandono e à morte aqueles que já encontram-se à margem de exercício de uma vida plena na sociedade. Por isso que é cada vez mais importante o trabalho das organizações, da sociedade civil, para ecoarem no mundo um trabalho de advocacia, de influenciar políticas públicas globais, que esses retrocessos possam não só parar, mas que eles possam retroagir no sentido de esses recursos possam voltar o quanto antes. Estamos falando de colocar em risco centenas de avanços que o mundo, a ciência, o poder público, a sociedade civil, o movimento de pessoas com aids conquistaram ao longo desses anos todos, que nada mais é do que a garantia à vida.”

Fabiana Oliveira, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas:
“A luta continua… entre os avanços e retrocessos o ativismo deve se manter resistente em todo o mundo. O cenário nacional e internacional nos tem provocado uma certa angústia e, se essa é a tendência de futuro, estaremos no caminho de volta aos anos 80, porém com um mundo diferente daquele em que iniciamos a luta. Claramente os governos de extrema direita não estão preocupados com as regras de direitos humanos. Este é um momento de crise crescente e sem os investimentos em tratamento e pesquisas e desmantelamento de serviços governo nenhum acabará com a Aids até 2030 como planejado.
Posso estar sendo radical ou pessimista mas me pergunto se não é preciso revitalizar o ativismo, planejar e fazer novas alianças no enfrentamento. Milhares de pessoas com HIV em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil, estão correndo riscos novamente.”

Javier Angonoa, diretor da ONG Motirô-BA:
“Acredito firmemente que existem dois grandes linhas políticas que estão prevalecendo no que chamamos “Ocidente”, políticas progressistas (esquerda e centro esquerda) e ultradireita, uma vez que a centro direita está sendo engolida pela última. Onde governam os primeiros ainda tem políticas publicas, humanitárias, de ajuda e colaboração, tanto nacionalmente, quanto com a cooperação dos organismos internacionais. No caso dos governos de ultradireita as coisas são bem diferentes, por um lado privatistas “liberal” e do salve-se quem puder (e tiver) e por outro extremamente reacionários nas pautas dos costumes. Assim na medida que esses campos vão ganhando terreno as questões internacionais vão ficando mais complicadas e a solidariedade internacional vai se perdendo. O Brasil tem sido pioneiro em assumir a medicação ARV como responsabilidade do Estado, isso foi muito diferente para o resto de Latino América e pior para África. Realmente é muito difícil apontar uma solução que não passe por tratar de reverter o avanço da ultradireita no mundo.”

Alessandra Nilo, presidente da ONG Gestos-PE:
“Realmente, acho que todos os dados que estão sendo produzidos indicam que os cortes de orçamento para HIV/aids vão implicar na perda de vidas humanas e isso vai impactar também no retrocesso, vai nos causar retrocesso em décadas de construção de políticas.
Então, é muito preocupante que, por outro lado, num momento tão grave e tão crítico quanto esse, os outros governos, os outros países, ao invés de escolherem salvar vidas e suprir os recursos que a USAID retira, que os Estados Unidos retiram, eles preferem investir em máquinas de guerra. Então, todo mundo nesse momento se prepara para a defesa e armamento, a indústria armamentista nunca lucrou tanto quanto recentemente e, nesta corrida de disputa por armas, as pessoas realmente estão sendo deixadas para trás e as vidas vão ser perdidas. Isso vai ser representar uma piora em todos os aspectos de saúde pública. O impacto, apesar de já a gente estar começando a ser calculado, ainda não é possível se quer imaginar, porque a gente não sabe quanto tempo inclusive vai durar essa política, então este é um momento muito importante no qual todos os países deveriam se unir para garantir que os recursos necessários para cobrir essa brecha que está sendo criada cheguem nos lugares, nos países, nas organizações da sociedade civil necessárias para que a gente consiga realmente seguir um caminho que vinha sendo traçado com muita dificuldade, com muitos desafios, mas também com muita garra, principalmente das organizações da sociedade civil, para responder e superar a pandemia do HIV/aids.”
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