RETROSPECTIVA 2025: Estigma ainda afasta pessoas vivendo com HIV do cuidado em saúde e ameaça metas globais, revela Índice de Estigma 2025

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Notícia publicada originalmente em 08/05/2025

Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento do HIV no Brasil, o estigma segue como uma barreira cruel, persistente e silenciosa na vida de quem vive com o vírus. Mais da metade das pessoas que vivem com HIV no Brasil já sofreram discriminação devido ao status sorológico. É o que revela o Índice de Estigma 2025, lançado nesta quinta-feira, 8, no Palácio do Planalto, em Brasília, por um consórcio de redes nacionais de pessoas vivendo com HIV — como o MNCP e a RNP+ — com apoio do Unaids, da ONG Gestos, do Ministério da Saúde e outras organizações.

A pesquisa ouviu 1.275 pessoas em sete capitais brasileiras — São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Recife, Brasília e Manaus —, e atualiza os indicadores do último levantamento, realizado em 2019. Os dados escancaram uma realidade dolorosa: para mais da metade das pessoas entrevistadas, viver com HIV ainda significa conviver com medo, vergonha e discriminação.

Pela primeira vez, observa-se uma redução de aproximadamente 11 pontos percentuais no índice de discriminação, sinalizando avanços.

Contudo, a análise revela uma persistência do estigma, da discriminação e das violações de direitos humanos que ainda impactam diretamente a vida dessa população.

“No meu emprego anterior, sofri preconceito por ser gay e, depois, por viver com HIV. Começaram a me mudar de setor. Mas o pior foi quando fui exposto num grupo de mensagens, acusado de ‘contaminar as carnes’ por trabalhar no açougue. Me senti sem chão.”
— homem cis, gay, pardo, 32 anos, Manaus

Mais da metade (52,9%) relatou já ter sofrido discriminação em algum momento da vida por causa do HIV. Dentro da própria família, o número também impressiona: 34,8% disseram ter enfrentado estigma. O impacto sobre a saúde mental é direto — 29,1% apresentaram sintomas de depressão, e 41,2% relataram ansiedade associada ao estigma.

“Me relacionei com uma pessoa, viajamos juntos. Quando achei que podia falar sobre minha sorologia, ele surtou. Disse que escovou os dentes com água sanitária. Mesmo eu sendo indetectável. Nunca me senti tão rejeitada.”
— mulher cis, bissexual, preta, 63 anos, Brasília

O medo do julgamento também atravessa os serviços de saúde: 46,1% das pessoas disseram não ter certeza se o sigilo sobre seu estado sorológico é respeitado. E 13,1% sofreram discriminação nos próprios serviços de saúde apenas no último ano.

“Fui ao posto com o dedo cortado e a enfermeira não quis me atender. Disse que eu tinha HIV e não deveria estar na rua porque ia passar a doença.”
— travesti, preta, 41 anos, Porto Alegre

Adesão ao tratamento em risco

As experiências de estigma têm um impacto direto sobre o cuidado. Embora o Brasil já tenha superado duas das metas globais 95-95-95 — com 96% das pessoas diagnosticadas e 95% com carga viral suprimida —, apenas 82% das pessoas com diagnóstico estão em tratamento. O estigma é apontado como a principal razão para essa lacuna.

“No início do meu tratamento, eu estava com depressão e desempregada. O infectologista sugeriu que eu ‘peguei HIV porque estava procurando’, quando falei da minha rotina de testagem. Se eu não tivesse certeza de que queria me cuidar, nunca mais teria voltado lá.”
— pessoa não-binária, parda, bissexual, 31 anos, Recife

O índice também mostra os impactos na vida afetiva e social: 22% das pessoas evitaram relações sexuais no último ano por viverem com HIV, e 20,8% se isolaram de familiares ou amigos. O estigma internalizado aparece como uma ferida difícil de curar.

“Ainda estou no processo de entender e conviver com muitas coisas.”
— homem cis, heterossexual, preto, 18 anos, Salvador

Novidades do Índice 2025

A edição deste ano trouxe também dados inéditos sobre os efeitos das crises climáticas e da pandemia de Covid-19 no acesso à saúde:

82,1% ainda não recuperaram a renda familiar após eventos climáticos extremos

20,5% enfrentaram dificuldades para obter medicamentos nesses contextos;

27,3% tiveram consultas canceladas pelo menos uma vez.

Enfrentar o estigma é urgente

Diante desse cenário, redes de pessoas vivendo com HIV reforçam: enfrentar o estigma precisa ser prioridade nas políticas públicas. A discriminação não apenas afasta do cuidado — ela fere direitos humanos e produz sofrimento evitável.

Configuram práticas discriminatórias contra pessoas que vivem com HIV diversas atitudes que violam seus direitos e dignidade. Entre elas, destaca-se a especulação sobre o estado sorológico de alguém, especialmente com base em mudanças corporais, o que reforça estigmas e preconceitos. Quebrar o sigilo sorológico — seja por parte de profissionais de saúde ou de qualquer outra pessoa — também constitui uma grave violação ética e legal.

Outras formas de discriminação incluem a realização de exames sem consentimento, a recusa ou hesitação em manter contato físico, bem como a negativa de atendimento em serviços de saúde. Comentários especulativos sobre as possíveis formas de infecção pelo HIV não devem ser tratados como meras fofocas, pois perpetuam julgamentos morais e reforçam o estigma.

O uso de termos inadequados, como “aidético”, “soropositivo” ou “portador de HIV”, deve ser evitado. A forma correta e respeitosa de se referir é “pessoa que vive com HIV”. Piadas de cunho preconceituoso ou moralista sobre o uso da profilaxia pré-exposição (PrEP) também são manifestações de discriminação.

Além disso, a exclusão do mercado de trabalho, a segregação em ambientes profissionais ou a demissão motivada pelo status sorológico representam violações aos direitos fundamentais. A rejeição no convívio social ou familiar, bem como o assédio verbal e as agressões físicas, completam o quadro de violências enfrentadas por muitas pessoas que vivem com HIV.

Lançamento marcado por emoção

O evento de lançamento reuniu representantes do governo federal, movimentos sociais e agências internacionais, e foi marcado por emoção, dados preocupantes e apelos por políticas públicas mais eficazes.

“Questões de gênero, classe, trabalho, cor, identidade e orientação sexual ainda persistem. Para acabar com a aids, precisamos de um país sem estigma e discriminação — e o Índice de Estigma é uma ferramenta que mostra, com evidências, como a discriminação impede o acesso à saúde”, afirmou Andrea Boccardi, diretora e representante do Unaids Brasil.

A Secretária da Secretaria Nacional de Diálogos Sociais e Articulação de Políticas Públicas, Kenarik Boujikian, destacou a importância do levantamento como ferramenta para orientar políticas públicas. “É uma honra receber esse material riquíssimo. Ele nos dá um norte claro sobre onde precisamos atuar com mais força, onde há mais discriminação e falta de acesso a direitos fundamentais”, afirmou. Em sua fala, emocionou-se ao recordar seu primeiro contato com o tema, ainda nos anos 1980, quando advogava para pessoas presas vivendo com HIV, num cenário de forte estigmatização e abandono institucional.

O levantamento revela que, mesmo após mais de 40 anos de epidemia, o estigma segue sendo uma das principais barreiras enfrentadas por pessoas vivendo com HIV no Brasil.

A interseccionalidade também foi tema de destaque. O relatório mostra que o estigma atinge de forma ainda mais severa as populações já marginalizadas. Entre pessoas trans e não binárias entrevistadas, 60% afirmaram ter evitado procurar serviços de saúde devido à sua identidade de gênero. As pessoas negras compuseram 62% da amostra total da pesquisa, e enfrentam estigmas múltiplos — por raça, pobreza, orientação sexual ou identidade de gênero.

“Vimos no index agora que 60% da população trans tem medo de procurar os serviços de saúde pelo estigma. Estamos muito próximos, hoje, de eliminar o HIV como ameaça à saúde pública, que é a meta 95-95-95 do Unaids, mas estamos muito longe de atingir o segundo 95 [95% dos diagnosticados em tratamento]. Não buscam por quê? É de graça, são bem recebidas, são bem acolhidas. Não buscam porque têm medo, porque têm vergonha da situação sorológica. E é isso que a gente precisa ter evidências para poder criar políticas públicas que facilitem o acesso”, disse o Dr. Draurio Barreira, diretor do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde.

O representante do ministério da Saúde também reconhece a necessidade de políticas públicas para aumentar o acesso das ferramentas biomédicas, como PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) e PEP (Profilaxia Pós-Exposição). No caso da PrEP, oferecendo a medicação por canais alternativos às unidades de saúde, por exemplo, em máquinas dispensadoras, ou por meio de organizações da sociedade civil que atendam os grupos mais vulneráveis.

Iendes Guimarães, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, reafirmou o compromisso do governo com a pauta. “É importante destacar o papel histórico da luta contra o HIV/aids na construção da pauta LGBTQIA+ no Brasil. Pela primeira vez temos uma secretaria nacional dedicada a essa população, dentro do governo federal, e que compreende a luta contra o HIV/aids como uma questão central.”

Guimarães também lembrou que, embora o Supremo Tribunal Federal tenha criminalizado a discriminação contra pessoas LGBTQIA+, essa decisão precisa ser efetivada na prática — e a produção de dados, como os apresentados pelo Estudo Nacional, é um passo essencial para subsidiar políticas públicas consistentes.

“O estigma, que hoje é visibilizado com este estudo, é também uma ferramenta para a transformação. A partir dele, podemos construir ações mais eficazes, voltadas não só à população geral, mas, em especial, às pessoas LGBTI+, trabalhadoras do sexo e outros grupos historicamente vulnerabilizados”, afirmou.

Silvia Aloia, representante dos movimentos sociais:

“Sabemos muito bem o preço do estigma nos nossos corpos e nas nossas mentes. Ele se sobrepõe a outros determinantes sociais: ser mulher, trans, negra, usuária de drogas, estar em situação de rua… tudo isso se soma e aprofunda a exclusão.”

Ela relembrou a trajetória de 35 anos convivendo com HIV e as perdas enfrentadas ao longo do tempo: “Sobrevivemos à morte, ao adoecimento, à perda de filhos por transmissão vertical, quando ainda não havia tecnologias. Mas mesmo agora, com os avanços, nenhuma tecnologia eliminou o estigma e a discriminação.

Para Silvia, as políticas públicas precisam ser ancoradas nos direitos humanos e considerar, de forma estrutural, os marcadores de gênero, raça e classe.

“O estigma é a falta de direitos. É preciso transformar essa realidade. E agora temos dados — temos uma ferramenta. Vivemos em uma sociedade que ainda insiste em falas equivocadas. Precisamos sensibilizar, conscientizar, fazer com que as pessoas compreendam a tolice que é continuar estigmatizando o HIV.”

Os dados reunidos mostram que, apesar de avanços legais e institucionais no combate à epidemia de HIV/Aids no Brasil, a discriminação permanece como obstáculo real ao acesso à saúde, ao trabalho e à dignidade.

Redação da Agência de Notícias da Aids

 

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