Simpósio na AIDS 2026 reuniu lideranças globais que defendem maior financiamento doméstico, fortalecimento dos sistemas de saúde, protagonismo dos países e renovação das alianças para evitar retrocessos na resposta à epidemia
A resposta global ao HIV vive um momento decisivo. Em meio à redução do financiamento internacional, às mudanças geopolíticas e às incertezas sobre o futuro do multilateralismo, especialistas reunidos no simpósio “Liderança em um ponto de inflexão: como proteger as conquistas e avançar na resposta ao HIV em uma nova era” defenderam que o enfrentamento da epidemia dependerá menos de modelos construídos nas últimas décadas e mais da capacidade dos países de assumirem protagonismo, fortalecerem seus sistemas de saúde e ampliarem o financiamento doméstico.
Moderada por Nomonde Ngema, do HER Voice Fund, da África do Sul, e Mitchell Warren, diretor-executivo da AVAC, a sessão reuniu Dr. Peter Piot, fundador da UNAIDS; Dra. Mariângela Simão, da Fiocruz/Fiotec; Dr Landry Tsague, do Africa CDC; e Dra. Angeli Achrekar, diretora executiva adjunta da UNAIDS.
Na abertura, Nomonde Ngema lembrou que cresceu em um período em que existia um forte senso de solidariedade global em torno do HIV.
“Hoje estamos em um momento muito diferente. A ciência continua avançando de maneiras extraordinárias, mas o cenário político e de financiamento está mudando ao seu redor. A conversa de hoje não é sobre nostalgia, mas sobre como proteger a resposta ao HIV enquanto repensamos seu próximo capítulo.”
Ela afirmou que o desafio agora é encontrar uma liderança capaz de transformar descobertas científicas em acesso efetivo.
“Como protegemos a resposta ao HIV enquanto repensamos o próximo capítulo? Como equilibramos essa liderança e que tipo de liderança nos levará da descoberta à entrega?”
Mitchell Warren reforçou que o objetivo do debate era construir caminhos para o futuro.
“Queremos tirar lições do passado, entender o que está acontecendo hoje, mas principalmente traçar um caminho prático para o futuro.”
Brasil é citado como exemplo de compromisso político
Ao responder sobre quais lições outros países podem aprender da experiência brasileira, Dra. Mariângela Simão destacou que a resposta nacional ao HIV caminhou lado a lado com a redemocratização e com a criação do Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo ela, a Constituição de 1988 transformou a saúde em um direito e criou mecanismos para tornar esse princípio efetivo.
“Não basta ter isso escrito na Constituição. É preciso criar mecanismos para que as leis sejam eficazes. No Brasil isso aconteceu. O SUS foi estabelecido e, ao mesmo tempo, criou mecanismos para a participação da sociedade civil.”
Dra. Mariângela alertou, entretanto, que o contexto mundial mudou profundamente. O envelhecimento populacional, os conflitos armados, os deslocamentos forçados e a emergência da crise climática aumentaram a competição por recursos destinados à saúde.
“Estamos em um ponto de inflexão. Temos uma população envelhecida, novas ameaças, guerras, populações deslocadas e a crise climática. Há uma forte competição por recursos financeiros e precisamos pensar em como não retroceder.”
Ela também ressaltou que o HIV continua sendo uma referência para toda a saúde pública.
“O HIV foi um pioneiro e continua sendo.”
UNAIDS celebra novo compromisso político mundial
Representando a UNAIDS, Dra. Angeli Achrekar destacou como principal resultado recente a aprovação da nova Declaração Política sobre HIV e AIDS durante a Reunião de Alto Nível das Nações Unidas.
Mesmo diante de um cenário geopolítico e financeiro considerado turbulento, 149 países aprovaram o documento.
“Há apenas quatro semanas estávamos em Nova York e, em um ambiente geopolítico e financeiro muito tumultuado, vimos 149 países adotarem a Declaração Política de 2026 sobre HIV e AIDS. É um feito realmente extraordinário.”
Segundo ela, a declaração representa um compromisso de cinco anos com metas específicas pelas quais os países serão cobrados.
África aposta na soberania sanitária
Participando virtualmente dos Camarões, Dr. Landry Tsague afirmou que o continente africano demonstrou, ao longo das últimas duas décadas, que era capaz de construir uma resposta robusta ao HIV.
“Vinte e cinco anos depois, o continente respondeu ao desafio, com milhões de africanos em tratamento, mostrando o que pode ser alcançado quando liderança política, ciência e solidariedade global caminham juntas.”
Ele explicou que, diante da redução do financiamento internacional, a União Africana passou a defender uma agenda baseada na soberania sanitária.
“A visão é de uma África capaz de prevenir, detectar e responder às ameaças à saúde enquanto financia, governa e sustenta cada vez mais suas próprias prioridades.”
Dr. Tsague apresentou cinco pilares dessa estratégia: reforma da arquitetura global da saúde, fortalecimento da atenção primária, financiamento doméstico, transformação digital e ampliação da produção local de medicamentos, diagnósticos e tecnologias de prevenção.
Ao defender uma mudança na governança internacional, foi enfático:
“A questão não será ter a África como parte da conversa. Será ter a África como coarquiteta da arquitetura global necessária para enfrentar os desafios atuais.”

Peter Piot pede nova narrativa para o HIV
Um dos momentos mais aguardados da sessão foi a fala de Dr. Peter Piot, um dos fundadores da resposta global ao HIV.
Ele afirmou que o movimento precisa abandonar a nostalgia e reconhecer que o contexto internacional mudou.
“Precisamos olhar para o futuro e não sermos nostálgicos em relação ao passado.”
Dr. Piot afirmou que o chamado Acra Reset, iniciativa liderada por países do Sul Global, representa uma mudança de paradigma porque coloca os próprios países no centro das decisões sobre a arquitetura global da saúde.
“No passado, grupos de doadores elaboravam propostas e depois convidavam os países para consultas. Agora os países definem a agenda primeiro e depois conversam com os doadores. É isso que significa soberania.”
O pesquisador também defendeu que a integração dos serviços de saúde não significa abandonar o HIV.
“Os sistemas precisam ser integrados. Mas os direitos humanos, o engajamento comunitário e tudo aquilo que aprendemos com a resposta ao HIV não podem ser comprometidos.”
Peter Piot destacou que, mesmo com a integração dos serviços de saúde e as mudanças na arquitetura global, o HIV continuará exigindo liderança política e mobilização próprias.
“Sempre haverá necessidade de liderança e advocacia específicas para o HIV.”
Para o pesquisador, outro desafio será reconstruir as grandes alianças que marcaram os primeiros anos da resposta à epidemia. Segundo ele, o sucesso obtido na ampliação do acesso ao tratamento só foi possível graças à articulação entre movimentos sociais, governos, organizações internacionais, pesquisadores e diversos setores da sociedade.
“Perdemos esse tipo de ampla coalizão que existia quando lutávamos pelo acesso ao tratamento. Precisamos reconstruí-la.”
Ao tratar da sustentabilidade da resposta ao HIV, Piot defendeu que os países ampliem sua capacidade de investimento e assumam maior responsabilidade pelo financiamento de seus programas de saúde. Para ele, embora a cooperação internacional continue sendo importante, a sustentabilidade da resposta dependerá, sobretudo, dos recursos nacionais.
“O financiamento de longo prazo só pode ser doméstico.”
Assumir riscos para avançar
Na parte final do debate, os painelistas discutiram quais riscos precisam ser assumidos para garantir o futuro da resposta ao HIV.
Os participantes convergiram em um ponto central: a resposta ao HIV entra em uma nova fase, na qual os avanços científicos, por si só, não serão suficientes para manter o progresso alcançado nas últimas décadas.
Em um cenário marcado pela redução do financiamento internacional, mudanças geopolíticas e novos desafios sanitários, será necessário fortalecer o compromisso político dos países, ampliar o financiamento doméstico, integrar os serviços de saúde sem perder o foco nas populações mais vulneráveis e preservar o protagonismo das comunidades.
Para as lideranças presentes, o futuro da resposta global ao HIV dependerá da capacidade de transformar solidariedade em ação, renovar alianças e construir uma arquitetura de saúde mais justa, sustentável e liderada pelos próprios países.
Redação da Agência de Notícias da Aids
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.




