Resistência feminina marca abertura do X Encontro do MNCP-SP em defesa da vida e do SUS

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Abraços demorados, lágrimas contidas e a força de quem aprendeu a transformar dor em política marcaram a abertura do X Encontro Estadual do MNCP-SP, que começou nesta quarta-feira (4), na capital paulista. Até sexta-feira (6), mulheres de diferentes regiões do estado estarão reunidas para discutir direitos, cuidado, políticas públicas e, sobretudo, dignidade.

O salão do Hotel Euro Suite São Paulo, na região central da cidade, se encheu de vozes femininas que carregam histórias atravessadas pelo diagnóstico de HIV — e pela resistência. Promovido pelo Movimento Nacional das Cidadãs Positivas de São Paulo, o encontro chega à décima edição no estado com o tema “Entre a Luta por Direitos e o Amor Próprio: Mulheres Tecendo Novos Futuros”.

Mais do que um evento, a abertura foi um reencontro de trajetórias. Mulheres que vivem com HIV há décadas dividiram espaço com as que receberam o diagnóstico recentemente. Algumas chegaram em silêncio; outras, sorrindo. Todas com algo em comum: a necessidade de falar e ser ouvidas.

“Nosso movimento é acolhimento e é raiz”

A mesa de abertura reuniu representantes do Programa Estadual de IST/Aids de São Paulo, da Coordenadoria de IST/Aids do Município de São Paulo, do Fórum de ONGs/Aids do Estado de São Paulo (Foaesp), do Movimento Paulistano de Luta Contra Aids (Mopaids), da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids – Núcleo São Paulo (RNP+), da Rede de Jovens e da coordenação do MNCP.

Mas foi na fala da ativista Silvia Almeida, do MNCP, que o clima do encontro ganhou contornos mais íntimos e potentes.

“Hoje a gente celebra dez edições em São Paulo, mas também reconhece o quanto ainda é difícil para muitas de nós”, afirmou. “O movimento que construímos não é só de reivindicação. Ele é acolhimento. Ele é raiz. Ele é amor. É dar a mão para aquela que está chegando agora, muitas vezes com medo, sem saber como contar para a família, como continuar trabalhando, como seguir vivendo.”

Silvia falou sobre as perguntas que atravessam a vida de muitas mulheres após o diagnóstico: O que vai acontecer na minha família? O que vai acontecer no meu trabalho? O que vai acontecer comigo? Para ela, o encontro existe justamente para enfrentar essas angústias coletivamente.

“As demandas são muitas. Ainda enfrentamos preconceito dentro de casa, dificuldade de acesso a direitos, insegurança. Mas quando a gente se organiza, quando ocupa os espaços, quando fortalece umas às outras, a gente muda a realidade.”

Para Fabiana de Oliveira, da coordenação do MNCP-SP, o tema do encontro traduz um momento de transição. “Durante muitos anos, nossa luta foi sobreviver. Hoje continuamos lutando por direitos, mas também precisamos falar de amor próprio. Cuidar da saúde mental, da autoestima, do nosso lugar no mundo.”

Compromissos públicos e escuta necessária

Representando o Programa Estadual, a Dra. Rosa Alencar reconheceu o papel histórico das mulheres na resposta ao HIV em São Paulo. “Nada do que temos hoje foi construído sem a participação ativa da sociedade civil. As mulheres vivendo com HIV sempre estiveram na linha de frente.”

Margarete Preto, da Coordenadoria Municipal, reforçou que a epidemia exige um olhar atento às especificidades de gênero. “Precisamos garantir acesso às novas tecnologias, ao tratamento, mas também enfrentar as vulnerabilidades sociais que impactam diretamente a vida das mulheres.”

Já a ativista Liliana Mussi, do Foaesp, defendeu a manutenção do diálogo e do controle social. “Política pública se faz com participação. E encontros como este são fundamentais para apontar caminhos e cobrar avanços.”

Alisson Barreto, do Mopaids, chamou atenção para o estigma ainda presente. “A desinformação continua produzindo exclusão. Combater o preconceito é parte central da nossa luta.”

Representando a RNP+ São Paulo, Maria Elisa, destacou a força da troca entre mulheres de diferentes gerações. “Aqui, a experiência de quem vive com HIV há décadas encontra a força de quem está começando agora. Essa troca salva.”

Robson Ferreira, da Rede de Jovens, enfatizou a importância de pensar o futuro. “Precisamos dialogar com a juventude, com novas linguagens e tecnologias, sem perder a memória da luta que nos trouxe até aqui.”

Muito além do diagnóstico

Ao longo dos próximos dias, o encontro vai discutir o acesso ao tratamento, novas tecnologias de prevenção, transmissão vertical, saúde mental, moradia e políticas públicas. Mas a abertura deixou claro que o debate vai além de protocolos clínicos. Fala-se de autoestima. De violência. De abandono. De reconstrução.

“Não somos apenas um diagnóstico”, disse uma das participantes. “Somos mulheres com histórias, com filhos, com sonhos.”

O tema desta edição aponta para essa dimensão: lutar por direitos sem abrir mão do amor-próprio. Porque, como repetiram várias vezes ao longo da abertura, não há adesão ao tratamento sem dignidade, não há prevenção sem informação e não há política pública eficaz sem escuta.

A mensagem de quem ajudou a construir a história

Um dos momentos mais emocionantes foi a exibição do vídeo enviado pela ativista Jenice Pizão, uma das fundadoras do MNCP. Por motivos de saúde, ela não pôde estar presente, mas sua voz ecoou no salão.

No vídeo, Jenice relembrou os primeiros anos do movimento, quando assumir publicamente que vivia com HIV era ainda mais arriscado. “Muitas perderam emprego, apoio, vínculos. Mas seguimos, porque sabíamos que nossa voz precisava ser ouvida.”

Ela afirmou que o tema do encontro traduz a maturidade da caminhada coletiva. “Aprendemos que lutar por direitos é essencial. Mas também aprendemos que precisamos nos amar, nos respeitar, nos cuidar. Somos muito mais do que o vírus.”

Ao final da mensagem, deixou um recado direto às participantes: “Cada mulher que se fortalece e fortalece outra mantém viva essa história. O MNCP é feito de coragem, de solidariedade e de esperança.”

Até sexta-feira (6), em São Paulo, essas mulheres seguem tecendo novos futuros — com política, com afeto e com a certeza de que a luta continua, mas nunca mais será solitária.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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