“Renascendo em Voz Alta”: Fênix e a memória negra que resiste, dança e reivindica viver com dignidade

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No Dia da Consciência Negra, a história da artista e ativista Fênix da Silva Leite revela como raça, gênero, HIV, espiritualidade e arte se entrelaçam para construir caminhos de resistência, cura e futuro possível.

Celebrado em 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra marca a memória de Zumbi dos Palmares e simboliza a luta de gerações contra o racismo estrutural no Brasil. A data, oficializada pela Lei 12.519/2011, é um convite para reconhecer as vozes negras que constroem, diariamente, formas de existência, resistência e reinvenção — especialmente aquelas que, desde as margens, transformam dor em criação, e silêncio em linguagem política.

É neste cenário que nasce a trajetória de Fênix da Silva Leite, 36 anos, pessoa trans não-binária, negra, nordestina, artista do corpo, pesquisadora da dança, integrante da comunidade ballroom e vivendo com HIV há dez anos. Uma vida inteira costurada por gestos de renascimento.

Ancestralidade, interior do Nordeste e o início de um corpo que dança

Nascida no interior de Alagoas, Fênix carrega na pele e na memória uma ancestralidade que sempre atravessou sua criação artística. Ela lembra que o corpo veio antes da palavra:

“Eu sempre fui artista, artista principalmente da dança, do corpo, do movimento. Comecei a dançar na igreja, por incrível que pareça. Danças urbanas, jazz, teatro. Depois fui para a universidade estudar licenciatura em dança, e lá tive minhas primeiras noções sobre movimento social negro e LGBT.”

Foi na universidade que a artista também se reconheceu nos marcadores que a atravessavam raça, gênero, sexualidade, origem. E foi ali que descobriu capoeira, frevo, danças afro-brasileiras e a potência política do movimento negro e das artes do corpo.

“Eu sou uma pessoa negra, embora também tenha descendência indígena. Essa redescoberta é recente. Descobri há alguns anos que sou bisneta de uma mulher indígena. Tudo isso atravessa a minha arte.”

O impacto do HIV e o primeiro renascimento

Em 2015, aos 26 anos, veio o diagnóstico de HIV. Não pelos sintomas, mas pelos “sinais da vida”, como ela diz: leituras, figuras de referência, encontros com artistas negros da cena ballroom e memórias de militância que a atravessavam desde Nova York dos anos 80 até o Brasil contemporâneo.

“Me impactou muito, mas não pelos estigmas. Eu entendia muito pouco sobre HIV/Aids. O choque foi: como eu ia dar continuidade à minha arte? Minha arte já era política, falava de negritude, de gênero, de sexualidade?.”

A descoberta provocou uma reflexão profunda. Fênix pesquisou nomes negros vivendo com HIV, encontrou referências, e tudo se reconfigurou, inclusive o próprio gênero.

“A transição de gênero foi nesse processo do HIV. O HIV me empurrou. Foi um pontapé para que eu realmente me entendesse enquanto uma pessoa trans não-binária.”

Do luto à luta: uma perda que marcou a trajetória

Logo antes de migrar para São Paulo, Fênix viveu um dos episódios mais dolorosos de sua vida: acompanhar o adoecimento e a morte de uma pessoa que se relacionava, ainda muito jovem, em decorrência da Aids.

A relação durou poucos meses, mas o impacto foi permanente.

“Ele adoecia, melhorava, piorava… Até que entrou na UTI. Eu me despedi dele um dia antes de vir para São Paulo. Um mês depois, ele faleceu.”

Isso se tornou um marco.

“Foi um grande ‘boom’. Me fez entender a importância de dar nome às coisas: ele faleceu em decorrência da Aids. A gente precisa dizer isso. A gente precisa conversar sobre isso. Eu decidi que nunca mais ia me calar.”

É dessa ferida que nasce grande parte de sua força política:

“Toda vez que eu falo sobre HIV, eu abro uma ferida. Eu espero que ao final ela se feche, minimamente. Mas abrir faz parte da cura, da honestidade e da missão.”

A chegada em São Paulo e o encontro com a Ballroom

Em 2017, formada em dança, Fênix desembarcou em São Paulo com uma mala, um sonho e nenhum lugar para ficar. Foi deixada por um motorista em frente a um pensionato no bairro da Bela Vista, e ali viveu um ano inteiro.

“Foi inenarrável em todos os sentidos. Me forjou.”

Pouco depois, conheceu o Coletivo AMEM, a comunidade ballroom, e figuras que seriam fundamentais: Flip Couto, Micaela Cyrino, Félix Pimenta.

“Eu cheguei numa AMEM e pensei: ‘Eu não acredito que é a Micaela’. Eu tinha visto ela numa campanha, e de repente ela estava ali.”

A ballroom abriu portas, caminhos e linguagens.

Ela entrou na Iconic House of Zion, performou em balls nacionais e internacionais e começou a criar sua própria estética — marcada pela cor vermelha, pelo dripping, pela nudez e pelo corpo como manifesto.

“Eu transformei a cor vermelha, a rosa vermelha, e a poética do HIV na minha passarela. Aos poucos as pessoas foram entendendo: sim, eu vivo com HIV, e sim, isso está na minha arte.”

Nudez, corpo negro, corpo trans e coragem de existir

Fênix faz questão de confrontar tabus e estigmas sobre corpo, desejo e HIV:

“Eu entendi que as pessoas tentavam, o tempo inteiro, dissociar o HIV dos meus desejos. Quando me expunha, eu sentia recusa. Repulsa.”

A nudez se tornou ferramenta política.

“Eu trabalho com a nudez para dizer: este corpo negro, trans, indígena, periférico, vivendo com HIV, também sente, deseja, tem libido, tem história.”

Microviolências, saúde e desigualdade territorial

Ao longo de dez anos de tratamento, Fênix enfrentou violências institucionais que muitas pessoas vivendo com HIV conhecem bem:

  • infectologistas que desconsideraram sofrimento psíquico causado por medicações;
  • profissionais que aplicavam benzetacil de forma punitiva;
  • ausência de exames completos;
  • transfobia no atendimento;
  • e diferenças gritantes entre o cuidado no centro e na periferia.

“São microviolências. Uma enfermeira aplicou a injeção de um jeito que parecia castigo. Outra disse que podia usar anestésico, então por que a primeira não usou?”

As desigualdades territoriais ficaram ainda mais claras quando mudou da Liberdade para o extremo da Zona Leste, no Jardim Romano:

“No centro era WhatsApp, SMS, ligação. Aqui é tudo no papel. É outro mundo. E é por isso que tanta gente morre na periferia.”

Arte, política e memória: quando a dança vira documento

Além da performance, Fênix mergulhou em moda, dripping, história da Aids na moda, crítica racial, cadernos cênicos, festivais e editais. E segue pesquisando, ensinando e tensionando:

“Eu tento marcar a minha história. Ser parte do processo. Contribuir com a memória negra, LGBT, periférica, das pessoas que vivem com HIV.”

Para ela, a arte é sobrevivência e futuro.

“Eu olho para o futuro pensando: como será a vida das pessoas vivendo com HIV nos anos 3000? Vai haver cura? Como será envelhecer? O que será cuidado? Eu tento imaginar já aqui e agora.”

Racismo, sorofobia e transfobia: feridas que ainda doem

A artista lembra de ataques diretos, como quando foi chamada de “aidética” por alguém que viu sua performance:

“Ela poderia ter me chamado de negra, de macumbeira… mas escolheu me chamar de aidética, então ela sabia sobre mim. Isso não me fere pela palavra, mas porque revela o quanto ainda estamos lidando com a sorofobia.”

E reflete:

“Para muita gente, não importa ser HIV ou Aids. Uma vez que descobrem que vivo com HIV, é tudo igual. E é assim que magoa.”

Sonhos: envelhecer com dignidade e inspirar as próximas gerações

Hoje, depois de Salvador, Brasília, performances, documentários, balls e prêmios, Fênix reconhece que parte de seus sonhos já se realizou:

“Poder falar sobre HIV, ser convidada… isso é a realização de um sonho. Isso me dá dignidade.”

Mas há sonhos que permanecem:

“Eu quero envelhecer com dignidade. Ter uma casa. Descansar. Ter suporte. E quero partir com dignidade quando chegar a hora.”

E há também uma missão:

“Eu quero que outras pessoas que vivem com HIV se inspirem em mim e falem sobre as suas vivências. Uma hora eu não vou estar aqui. E alguém precisa continuar.”

A história de Fênix é, como seu nome anuncia, uma história de renascimentos. Renascimentos do corpo, da memória, da identidade, da ancestralidade, da arte, da autonomia e do cuidado. É uma voz que se recusa ao silêncio e que transforma a ferida em movimento, movimento que dança, protesta, educa e anuncia futuros.

No Dia da Consciência Negra, ouvir Fênix é lembrar que vidas negras vivendo com HIV constroem, todos os dias, um país mais justo, mais plural e mais possível, mesmo quando o Estado falha, mesmo quando a violência insiste, mesmo quando as estruturas resistem.

E é lembrar que a memória negra, quando dita em primeira pessoa, é sempre ato de coragem, cura e permanência.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dica de entrevista:

Fênix da Silva

Instagram: icon_fenixzion

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