REMÉDIO CONTRA AIDS DE PRESIDENTE DA GÂMBIA CRIA FALSAS ESPERANÇAS

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22/2/2007 – 14h10

Indignação, confusão, esperança ou embaraço: as reações ao anúncio da descoberta de um “remédio contra a Aids” pelo presidente gambiano Yahya Jammeh se multiplicam, enquanto as autoridades gambianas continuam fingindo não ouvir os pedidos de explicações formulados pelos atores da resposta à epidemia.

Em janeiro, na ocasião de uma reunião extraordinária a Banjul, capital da Gâmbia, o presidente Jammeh afirmou ter descoberto um remédio à base de plantas medicinais capaz de “curar a Aids” em alguns dias, e anunciou o lançamento de um programa de tratamento.

No final de Janeiro, os 10 primeiros pacientes apresentados como sendo soropositivos começaram o “tratamento milagroso” desenvolvido, segundo o Dr. Tamsir Mbowe, ministro gambiano da saúde, graças “aos conhecimentos da família” de Yahya Jammeh em medicina tradicional e “aos ensinamentos do sagrado Alcorão”.

Este anúncio suscitou a indignação de vários ativistas internacionais da Aids.

“Todos esperamos a descoberta de uma cura contra o HIV/Aids…mas estas afirmações são de ordem divina, elas não tem nenhum fundamento científico e, por conseguinte, não podem ser levadas à sério”, disse ao PlusNews Bede Eziefule, diretor executivo do Centro pelo Direito à Saúde na Nigéria.

O Ministério gambiano da saúde publicou vários relatórios afirmando que os pacientes tinham melhorado, que seu sistema imunológico tinha sido reforçado e que o vírus era indetectável no organismo de alguns deles.

Estas declarações foram acompanhadas de testemunhos transmitidos pela mídia pública, que difundem continuadamente imagens dos pacientes “curados”.

“Eu notei uma grande melhora do meu estado de saúde desde que comecei o tratamento”, afirmou Lamin Ceesay, um dos pacientes que participam do programa. “Eu tenho certeza de que nenhum dos pacientes que estão seguindo o tratamento do Presidente vai morrer”.

Interrogado várias vezes pela imprensa local e internacional, o Ministério da Saúde recusou-se a fornecer informações sobre a composição do tratamento, prometendo que estes detalhes seriam revelados “mais tarde”.

A mídia também emitiu dúvidas quanto às condições nas quais são feitos os exames de saúde dos pacientes antes e depois do tratamento, inclusive os testes de HIV.

“As afirmações do presidente gambiano são um insulto à profissão médica”, insurgiu-se Ibrahim Umoru, educador de HIV/Aids na Nigéria. “O presidente gambiano e seu ministro não deveriam ser autorizados a propagar sua ignorância para se apropriar de um problema que desafia todos os esforços efetuados há tanto tempo”.

A taxa de soroprevalência no país é estimada em 2,1 por cento.

Mão de ferro

Desde sua ascensão ao poder em 1993, depois de um golpe de estado, o presidente Jammeh dirige a Gâmbia com mãos de ferro e, segundo várias organizações de defesa dos direitos humanos, multiplica as pressões para limitar a liberdade de expressão. Raros são aqueles que tem coragem de por em dúvida a palavra do Chefe de Estado.

“No clima político atual, eu poderia perder meu emprego”, disse um médico, que preferiu o anonimato.

No entanto, “muitas pessoas são cépticas e tem dúvidas, principalmente nas áreas urbanas”, afirmou Sam Sarr, redator-chefe do Foroyaa Newspaper, um jornal bi-semanal da oposição. Mas “em uma sociedade onde, por falta de conhecimentos, muitas pessoas são fetichistas, a população tem tendência a querer acreditar que o presidente pode ter usado poderes sobrenaturais para encontrar um remédio”.

Face à incerteza que envolve o “tratamento do presidente”, vários ativistas exprimiram sua incompreensão ao constatar o silêncio da comunidade internacional.

Alguns científicos, entre outras na África do Sul, emitiram sérias dúvidas quanto às afirmações do presidente Jammeh e advertiram contra os efeitos potencialmente devastadores de uma tal declaração, mas até agora nenhuma organização internacional pronunciou-se oficialmente.

Um responsável do Programa Conjunto das Nações Unidas em Aids, (Unaids), explicou ao PlusNews que seu organismo “trabalhava na elaboração de uma resposta coordenada do sistema das Nações Unidas”, esperando poder dizer mais nos próximos dias.

Um especialista da Organização Mundial da Saúde indicou que os organismos internacionais estavam tendo dificuldades em obter informações das autoridades gambianas sobre o “remédio milagroso”.

“Nós pedimos para visitar o laboratório para ver como é efetuado o tratamento, mas não obtivemos nenhuma resposta do Ministério da Saúde”, disse ele.

Fonte: Plusnews (www.plusnews.org/pt)

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