02/11/2014 – 16h
Em várias apresentações da 14ª Mostra Nacional de Experiências Bem-Sucedidas em Epidemiologia, Prevenção e Controle de Doenças (Expoepi), que aconteceu essa semana (de 28 a 31), em Brasília, o tema de destaque foi a influência dos fatores socioeconômicos na saúde da população. “Todas as doenças são mais graves, mais transcendentes, mais incapacitantes e excludentes para os mais pobres”, disse, numa das mesas, Cláudio Maierovitch, diretor do Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis da Secretaria de Vigilância em Saúde (Devit/SVS).
Na última mesa redonda do evento, na sexta-feira (31), os professores Eduardo Mota (Universidade Federal da Bahia) e Carlos Castillo (Johns Hopkins University), sob coordenação da professora e pesquisadora Ethel Leonor Maciel (Universidade Federal do Espírito Santo), debateram o tema Os Desafios da Tríplice Carga de Doenças e Agravos para a Saúde. A tríplice carga é composta por doenças transmissíveis, não transmissíveis e causadas por violências e acidentes.
Primeiro a falar, Eduardo abordou temas como o uso do álcool e de drogas, acidentes de motociclistas e também como a saúde pública brasileira tem condições de lutar e superar as dificuldades. “Somos um país de inúmeras vitórias, é só olhar para exemplos como as doenças transmissíveis e o tabagismo”, afirmou.
A pesquisa realizada em Baltimore (Estados Unidos) pelo professor Carlos Castillo foi o assunto principal da palestra seguinte – ela demonstrou que os índices socioeconômicos são determinantes para entender a relação da tríplice carga de doenças na cidade. O estudo confirmou que os bairros com menor nível econômico apresentaram maior incidência de doenças.
Ao falar sobre as contribuições que a vigilância em saúde pode levar para a população, Carlos Castillo disse que “temos de iniciar novos processos de informação para adentrar na sociedade”.
Numa mesa anterior, a de terça-feira (28), que teve a participação de Cláudio Maierovitch, da Devit/SVS, o tema foi Adoecimento e Pobreza: Estratégias de Enfrentamento do Ciclo Vicioso. Também estiveram presentes Luis Eugenio Souza, representando a Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco), a diretora da Rede Global de Enfermidades Desatendidas, Mirta Periago e os representantes do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), Rafael D´Aquino Mafra, e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) no Brasil, Joaquín Molina.
Cláudio Maierovitch, ao falar sobre os avanços e desafios frente às doenças decorrentes e perpetuadoras da pobreza, destacou a importância do diagnóstico oportuno e tratamento precoce dos casos detectados. Disse que esses dois cuidados são essenciais quando se visa a redução de doenças, como, por exemplo, a leishamniose, a diarreia aguda e os acidentes ofídicos (provocados por contato com cobra, escorpião e outros animais venenosos) que, em 2013, alcançou 28.238 casos.
O diretor do Devit defendeu que a vigilância deve ser integrada ao conjunto da atenção básica e reconheceu que ainda existem muitas outras metas a serem alcançadas para erradicação das doenças ligadas à pobreza no Brasil. “Devemos ampliar o nosso trabalho com foco na integração da vigilância ao conjunto da atenção, alcançar populações vulneráveis, investir em novas estratégias e tecnologias, identificar grupos com dificuldade de acesso e multiplicar experiências de sucesso”, reforçou.
Projetos MDS
O gerente de projetos do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), Rafael Mafra, apresentou os resultados do Plano Brasil Sem Miséria, que tem o objetivo de eliminar a extrema pobreza no Brasil. “A pobreza é um fenômeno multidimensional. Por isso, o Plano Brasil Sem Miséria inclui cerca de 100 ações executadas por 22 ministérios.”
O Plano é coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e a coordenação é realizada por meio da Secretaria Extraordinária para Superação da Extrema Pobreza (Sesep).
Premiação e balanço
Setecentos e quarenta e dois trabalhos inscritos e quase quatro mil participantes de todos os estados brasileiros – também da Austrália, Estados Unidos e Panamá. Assim terminou a 14ª Expoepi, na sexta-feira (31), no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília (DF). O evento teve a participação do secretário de Vigilância em Saúde Jarbas Barbosa e da coordenadora geral de Desenvolvimento da Epidemiologia em Serviços, Elisete Duarte.
Foram premiadas 51 experiências inscritas na Mostra Competitiva foram premiadas (confira a lista). De acordo com a comissão científica da Expoepi, foram distribuídos R$ 1,2 milhão em prêmios para os trabalhos vencedores.
“Esse é um dos momentos mais aguardados, exatamente quando a gente vai reconhecer o trabalho das equipes das secretarias estaduais e municipais de saúde que participaram da Mostra. Esse ano, inclusive, teve empate. Em algumas situações tivemos que utilizar o critério de desempate, o que demonstra a excelência desses trabalhos selecionados dentro dos quase 800 enviados. Acredito que essa é uma das grandes inspirações da Expoepi. Fazer com que as pessoas que estão aqui possam compartilhar o que fazem, dizer como superaram dificuldades e como encontraram caminhos”, afirmou Barbosa.
De acordo com o secretário, essa foi a maior Expoepi desde que o evento foi criado, em 2001. “Seguramente esperamos que o evento cada vez mais se consolide como um espaço que complementa os espaços que temos dentro da saúde pública brasileira. Reconhecer e dar voz às pessoas que estão nos serviços de saúde é extremamente importante.”
Barbosa aproveitou para agradecer a presença tanto dos participantes quanto dos convidados. “Queremos que vocês voltem para casa, por um lado satisfeitos e felizes por terem participado, e inquietos, para que possamos pensar como fazer com o que a gente viu aqui se transforme em melhoria para a qualidade de vida da nossa população.”
Saiba mais
Pelo quarto ano consecutivo, Elisete Duarte coordena a Comissão Científica da Expoepi. Ela conta que a Mostra vem ampliando o número de participações de profissionais, gestores, pesquisadores e instituições acadêmicas e que esta edição bateu recorde de público, com quase quatro mil participantes e participação de todos os estados brasileiros, sem exceção. Uma novidade nesta edição foi a premiação dos três finalistas. “Isto faz com que todas as experiências que foram apresentadas sejam vencedoras. Só de passar pelo crivo das comissões técnicas já são consideradas vencedoras frente ao número de trabalho que recebemos, quase 800 submissões de experiências dos serviços de saúde do SUS (municipais, estaduais ou Distrito Federal) em uma das 12 áreas”, justificou.
Ela também citou a premiação para profissionais do Sistema Único de Saúde (SUS), que contribuíram para a melhoria da vigilância em saúde do país com trabalhos técnico-científicos de pós-graduação e as melhores ações desenvolvidas pelos movimentos sociais. “Cada vez mais estes movimentos ajudam no avanço de ações de vigilância em saúde, em especial ações de prevenção, controle e vigilância. A parceria com esses movimentos é importante porque capta um público onde, algumas vezes, o serviço de saúde tradicional não consegue chegar”, observou.
Espaço de capacitação
Além das mostras competitivas, a Expoepi organizou painéis científicos com temas prioritários pela atualidade. “Foram 24 painéis que discutiram inovações, estratégias, melhores evidências científicas, melhores estudos produzidos para orientar no aprimoramento das ações. Febre Chikungunya e a ameaça de epidemia de ebola são importantes de serem discutidas para atualizar os profissionais sobre as medidas que estão sendo adotadas e potenciais riscos”, explicou a coordenadora.
Para Elisete, é fascinante que experiências pequenas bem-sucedidas estejam em pé de igualdade com experiências grandes bem-sucedidas. “Ambas são exitosas e têm a nos ensinar. Por isso, o reconhecimento de todos os finalistas como vencedores. Toda experiência bem-sucedida, no contexto que ela se desenvolve, é potencialmente um aprendizado para o público”, concluiu Eliste.


