Reino Unido debate reduzir testagem de ISTs e reacende alerta sobre transmissão silenciosa e resistência bacteriana

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Uma das discussões mais sensíveis e controversas da saúde sexual contemporânea ganhou o centro do debate durante a conferência conjunta da British HIV Association (BHIVA) e da British Association for Sexual Health and HIV (BASHH), realizada recentemente no Reino Unido. Em vez de apresentar apenas atualizações técnicas sobre tratamentos de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), especialistas decidiram concentrar uma sessão inteira em uma questão que pode alterar profundamente a forma como serviços de saúde sexual funcionam: reduzir de três para seis meses a frequência recomendada de rastreamento de clamídia e gonorreia em homens gays e bissexuais e pessoas trans e não binárias que fazem sexo com homens.

A proposta não envolve pessoas com sintomas. Quem apresentar sinais de possíveis ISTs continuará sendo testado imediatamente. O debate gira em torno da chamada “testagem de rastreio” — exames feitos em pessoas assintomáticas, sem sinais aparentes de infecção.

A mudança, no entanto, ultrapassa uma simples revisão de protocolo clínico. Ela toca em temas delicados como resistência antimicrobiana, custos dos sistemas públicos de saúde, transmissão silenciosa de ISTs, ansiedade em torno do sexo e até mesmo a construção cultural da responsabilidade sexual dentro da comunidade LGBTQIA+.

Uma mudança considerada histórica

Ao abrir a sessão, a professora Margaret Kingston, presidente do Grupo de Efetividade Clínica da BASHH, afirmou que a relevância do tema justificava dedicar todo o espaço do encontro a essa única discussão.

A proposta em análise sugere que pessoas atualmente orientadas a fazer exames trimestrais passem a realizar o rastreamento semestralmente. A justificativa principal é que o modelo atual pode estar produzindo excesso de diagnósticos e tratamentos para infecções que, em muitos casos, não causam sintomas, podem desaparecer espontaneamente e acabam aumentando o uso de antibióticos.

A médica Helen Fifer, da UK Health Security Agency (UKHSA), apresentou os principais argumentos favoráveis à mudança.

Infecções silenciosas e o dilema do excesso de tratamento

Segundo os especialistas, cerca de quatro em cada cinco infecções por clamídia não apresentam sintomas. O mesmo ocorre com grande parte das infecções retais e de garganta por gonorreia — justamente os locais mais comuns de infecção entre homens gays.

Mesmo entre mulheres cisgênero, aproximadamente metade das infecções por gonorreia podem ser assintomáticas. Já entre homens cisgênero, os sintomas costumam aparecer com maior frequência.

O problema, segundo os pesquisadores, é que ainda existe pouca clareza sobre o potencial real de transmissão dessas infecções assintomáticas. Há inclusive suspeitas de que testes altamente sensíveis, como os exames PCR, possam detectar resíduos genéticos das bactérias mesmo quando elas já não são infecciosas.

Outro ponto central do debate é que parte significativa dessas infecções desaparece naturalmente sem tratamento — um fenômeno chamado “clearance espontâneo”.

Dados apresentados pela UKHSA mostram que 24% das infecções por clamídia desapareceram espontaneamente em até 27 dias. Em outro estudo, quase 80% haviam desaparecido em até um ano.

Com a gonorreia, os números seguem tendência semelhante: uma pesquisa apontou resolução espontânea em 21% dos casos em apenas dez dias, enquanto outro estudo encontrou clearance em 77% das infecções após cerca de 70 dias.

Esses achados vêm alimentando uma pergunta desconfortável entre pesquisadores: será que os sistemas de saúde estão tratando infecções que talvez nunca causassem danos?

Resistência antimicrobiana preocupa especialistas

O argumento mais forte a favor da redução na frequência dos exames envolve a crescente resistência bacteriana aos antibióticos.

A bactéria da clamídia tem dificuldade de desenvolver resistência, mas a gonorreia representa um dos maiores desafios da infectologia mundial. Desde os anos 1940, a bactéria Neisseria gonorrhoeae já se tornou resistente a cinco classes diferentes de antibióticos.

Atualmente, o tratamento padrão utiliza ceftriaxona, pertencente à sexta classe de antibióticos empregada contra a infecção. Contudo, casos de gonorreia resistente à ceftriaxona — embora ainda raros — vêm aumentando.

Especialistas também citaram estudos envolvendo a estratégia conhecida como doxyPEP, uso preventivo de doxiciclina para evitar ISTs bacterianas. As pesquisas mostram que o uso ampliado desse medicamento pode acelerar a resistência bacteriana da gonorreia.

Além disso, médicos alertam que antibióticos não são medicamentos neutros. Seu uso frequente pode alterar o microbioma natural do corpo, especialmente a flora intestinal, afetando bactérias benéficas essenciais à saúde humana.

Economia versus prevenção

Outro fator relevante é o custo. A realização de exames trimestrais exige maior capacidade laboratorial, mais profissionais, mais consultas e mais recursos públicos. Também gera custos emocionais e logísticos para pacientes, incluindo ansiedade relacionada aos testes e ao medo constante de infecções.

Segundo pesquisadores europeus, manter o rastreamento trimestral custa caro para um benefício clínico considerado pequeno. Um estudo de custo-efetividade apontou que cada ano de vida ajustado por qualidade (QALY) obtido pela estratégia trimestral custaria cerca de 430 mil euros adicionais em comparação ao modelo semestral — valor 21 vezes acima do limite normalmente considerado custo-efetivo em saúde pública.

Para alguns especialistas, os recursos poderiam ser direcionados para áreas com maior impacto em saúde coletiva.

O medo da transmissão silenciosa

Mas a proposta enfrenta forte resistência. O principal receio é simples: menos exames podem significar mais tempo de transmissão silenciosa.

Se uma pessoa adquirir uma IST um mês após realizar um exame e só voltar a testar cinco meses depois, haverá um longo período potencial de transmissão sem diagnóstico.

Pesquisadores reconhecem que ainda não há dados suficientes sobre quanto infecções assintomáticas contribuem para a cadeia de transmissão das ISTs.

Além disso, embora clamídia e gonorreia sejam frequentemente leves em homens, podem causar complicações graves em outros grupos.

Até uma em cada seis mulheres cisgênero pode desenvolver doença inflamatória pélvica decorrente de clamídia ou gonorreia não tratadas — uma das principais causas de infertilidade.

Já a gonorreia, em casos raros, pode se disseminar pela corrente sanguínea e provocar inflamações articulares e lesões cutâneas graves.

Especialistas também demonstraram preocupação com o linfogranuloma venéreo (LGV), forma agressiva e dolorosa da clamídia mais frequentemente observada entre homens gays.

HIV, sífilis e hepatites entram no debate

A discussão não se limita à clamídia e gonorreia. Os exames trimestrais geralmente incluem testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C. Reduzir a frequência das consultas pode atrasar diagnósticos precoces dessas infecções.

Embora a sífilis precoce seja relativamente incomum, ela pode causar complicações severas. Já o diagnóstico rápido do HIV continua sendo considerado essencial tanto para melhores resultados clínicos quanto para a redução da transmissão.

Outro ponto destacado é que consultas frequentes representam oportunidades importantes de acolhimento, aconselhamento e redução de danos.

Profissionais de saúde alertaram que diminuir o número de atendimentos pode reduzir conversas sobre prevenção, uso problemático de drogas, saúde mental, violência, segurança sexual e vulnerabilidades sociais.

O estudo que incendiou o debate

O epidemiologista John Saunders apresentou evidências científicas sobre a comparação entre os modelos trimestral e semestral.

O principal estudo analisado foi o GonoScreen, realizado na Bélgica. A pesquisa comparou dois grupos: um submetido a exames trimestrais com tratamento de todas as infecções diagnosticadas e outro em que apenas casos sintomáticos recebiam tratamento.

Os pesquisadores imaginavam que o grupo sem rastreamento frequente teria menos diagnósticos totais, partindo da hipótese de que muitos casos identificados no modelo intensivo desapareceriam espontaneamente.

Mas os resultados surpreenderam.

O grupo sem rastreamento apresentou mais infecções detectadas ao longo do tempo — em parte porque infecções não tratadas persistiam por mais tempo e acabavam sendo contabilizadas repetidamente nos exames seguintes.

Ainda assim, os pesquisadores não observaram evidências claras de que o rastreamento frequente reduzisse significativamente a incidência geral de clamídia e gonorreia.

Comunidade LGBTQIA+ teme retrocessos

A reação da comunidade LGBTQIA+ foi um dos pontos mais delicados da conferência. O pesquisador Benjamin Weil, da organização The Love Tank, explicou que o hábito de realizar exames frequentes se tornou, ao longo dos anos, um símbolo de responsabilidade sexual dentro da comunidade.

Segundo ele, o rastreamento regular ajuda a construir sentimentos de segurança, confiança e cuidado coletivo — dinâmica semelhante à observada com a ampla adoção da PrEP.

Há também temor de que um eventual aumento nas ISTs possa alimentar estigmas antigays e discursos moralistas.

Pesquisas qualitativas apresentadas na conferência mostram que muitos usuários de serviços de saúde sexual desconfiam da mudança por acreditarem que ela esteja sendo motivada apenas por cortes de gastos públicos.

Outro problema identificado é a baixa compreensão pública sobre ISTs assintomáticas, resolução espontânea e níveis reais de risco. Especialistas reconheceram que profissionais de saúde historicamente evitaram discutir esses aspectos por receio de desencorajar a testagem.

“Uma estratégia única pode não funcionar para todos”

A especialista Ceri Evans defendeu abordagens mais flexíveis. Segundo ela, grupos mais vulneráveis talvez precisem manter exames trimestrais, incluindo menores de 18 anos, trabalhadores do sexo, pessoas em situação de vulnerabilidade social, usuários problemáticos de drogas em contextos sexuais e indivíduos cujos parceiros possam ter maior risco de complicações.

Uma possibilidade discutida seria manter testagem trimestral para HIV e sífilis através de kits enviados pelo correio, reduzindo consultas presenciais sem abandonar completamente o acompanhamento regular.

Ainda assim, Evans alertou que diminuir o contato com os serviços de saúde pode comprometer vínculos de confiança entre médicos e pacientes.

Um debate que pode redefinir políticas globais

Ao final da sessão, especialistas concordaram em um ponto central: ainda não existem evidências definitivas de que o rastreamento trimestral reduza significativamente a incidência de clamídia e gonorreia.

Mas também não há consenso sobre os impactos de reduzir a frequência dos exames.

A discussão expôs um conflito crescente na saúde pública contemporânea: equilibrar prevenção, autonomia, custo, ciência, resistência antimicrobiana e bem-estar comunitário.

Redação da Agência de Notícias da Aids com informações

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