Serviço se consolida como referência no acolhimento integral da população trans, com foco em prevenção ao HIV, saúde mental e garantia de direitos
Criado a partir da pressão da sociedade civil e de uma demanda historicamente negligenciada, o Ambulatório Trans de Diadema, na Grande São Paulo, tornou-se um exemplo de como o Sistema Único de Saúde (SUS) pode transformar vidas quando opera com base na equidade. Mais do que um espaço de atendimento, o serviço se firmou como um ambiente de acolhimento, inclusão e reconstrução de trajetórias.
Com quase 600 pessoas atendidas desde sua inauguração, em 2021, dentro do Centro de Referência em HIV/Aids do município, o ambulatório oferece cuidado integral à população trans e atua diretamente na prevenção do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). O crescimento acelerado do serviço revela não apenas sua importância, mas também o tamanho da demanda reprimida.
Em entrevista à Agência Aids, o infectologista Maiky Prata, que atua no ambulatório, destaca que o principal desafio ainda é estrutural. “Não é a identidade trans que adoece, são as barreiras que essa população enfrenta todos os dias”, afirma.
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De invisibilidade à política pública
Antes da criação do ambulatório, pessoas trans de Diadema dependiam de ações pontuais ou precisavam se deslocar até a capital paulista para acessar serviços especializados, muitas vezes já sobrecarregados. A mudança começou com a articulação entre movimentos sociais, profissionais de saúde e a gestão pública, em um contexto de descentralização do cuidado no estado de São Paulo.
“No início, a gente imaginava atender no máximo 30 mulheres trans e travestis e poucos homens trans. Hoje temos entre 550 e 600 pessoas vinculadas”, conta Maiky. O salto evidencia não só a confiança no serviço, mas também o histórico de exclusão dessa população no acesso à saúde pública.
Cuidado integral e acolhimento
Embora ainda haja uma associação comum entre o atendimento e a terapia hormonal, o ambulatório opera com uma abordagem ampliada.
“O nosso papel não é só hormônio. A gente acolhe todas as demandas. Tem pessoas que não querem fazer transição, mas precisam de cuidado em saúde”, explica o médico.
O serviço oferece acompanhamento clínico geral, terapia hormonal, solicitação e monitoramento de exames, coleta de preventivos — inclusive para homens trans —, além de apoio psicossocial e orientação sobre direitos. Para muitos usuários, trata-se do primeiro contato com um atendimento livre de discriminação.
Além da assistência direta, a equipe também atua na capacitação da atenção básica, buscando reduzir barreiras e ampliar o acesso em toda a rede de saúde.
Saúde mental no centro do cuidado
A saúde mental é uma das principais demandas entre os usuários. Segundo Maiky, isso não está relacionado à identidade de gênero em si, mas às violências e exclusões enfrentadas cotidianamente.
“Não é que pessoas trans tenham mais transtornos naturalmente. Mas elas enfrentam barreiras na família, na escola, no trabalho e na saúde. Isso aumenta ansiedade, depressão e risco de suicídio”, afirma.
Para enfrentar esse cenário, o ambulatório investe em um ambiente acolhedor desde a estrutura física até a abordagem da equipe. O espaço conta com banheiros inclusivos, representatividade e comunicação acessível.
“A pessoa chega aqui e sabe que vai ser respeitada e ouvida. Isso muda tudo.”
Prevenção ao HIV e estratégias combinadas
A vulnerabilidade ao HIV segue como um ponto central. De acordo com o infectologista, mulheres trans podem ter até 66 vezes mais risco de infecção em comparação com a população geral.
Diante disso, a oferta de PrEP (profilaxia pré-exposição) é uma das principais estratégias adotadas pelo serviço, dentro da lógica da prevenção combinada — que integra diferentes métodos, como testagem regular, uso de preservativos, tratamento e redução de danos.
“A gente oferece PrEP para todas as pessoas que chegam. Isso fez com que tivéssemos uma cobertura maior do que a média nacional”, destaca.
Apesar dos avanços, novos casos ainda são registrados, o que reforça a necessidade de ampliar o acesso à informação e às políticas públicas de prevenção.
Preconceito ainda limita o acesso
Mesmo com iniciativas como o ambulatório, o preconceito institucional segue como uma das principais barreiras.
“Muitas pessoas relatam que não tiveram o nome social respeitado ou passaram por constrangimentos básicos, como no uso do banheiro. Isso afasta a população dos serviços”, afirma Maiky.
Fatores como dificuldade de inserção no mercado de trabalho também impactam diretamente a saúde. “Sem trabalho, sem renda e sem dignidade, não tem saúde. A gente precisa olhar para tudo isso.”
Transformação que vai além do consultório
Ao longo de quase cinco anos, o ambulatório tem sido um espaço de reconstrução de vidas. Segundo o médico, é possível observar mudanças profundas no cotidiano dos usuários.
“A gente vê pessoas que chegavam sem perspectiva e hoje estão se relacionando, trabalhando, criando vínculos. É uma reconstrução de vida”, relata.
Grupos de apoio e iniciativas coletivas fortalecem o senso de pertencimento e ampliam os impactos positivos do serviço para além do atendimento clínico.
Um modelo para o SUS
Para Maiky Prata, o desafio agora é avançar na desburocratização do acesso à prevenção e ampliar políticas públicas voltadas à população trans.
“A prevenção precisa estar onde as pessoas estão: nas escolas, nos transportes, nos serviços sociais. E todas as secretarias precisam estar envolvidas.”
Ele reforça que experiências como a de Diadema não devem ser exceção, mas parte estruturante do SUS. “A gente não está fazendo nada além do que o SUS prevê: equidade. Dar mais para quem precisa mais. Isso é garantir o direito à vida.”

Em um cenário ainda marcado por desigualdades, o serviço demonstra que políticas públicas baseadas em acolhimento, escuta e equidade têm impacto direto na vida das pessoas — e apontam caminhos concretos para um sistema de saúde mais inclusivo, acessível e verdadeiramente universal.
Para quem busca atendimento, o Ambulatório Trans de Diadema funciona no Centro de Referência em HIV/Aids do município, localizado na Av. Antônio Piranga, 700, no Centro. O serviço é gratuito e integra a rede do Sistema Único de Saúde (SUS), com acesso por encaminhamento da atenção básica ou demanda espontânea.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
Dr. Maiky Prata
Instagram: @dr.maikyprara




