31/05/2014 – 19h30
O Centro para Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) alterou o texto das recomendações que faz aos norte-americanos que vão viajar para o Brasil para ver a Copa do Mundo. O texto original dizia "carregue preservativos que você comprou nos Estados Unidos e não use as fabricadas no Brasil". A nova versão diz "carregue preservativos que você comprou de uma fonte confiável".
Em nota, o Consulado Geral dos Estados Unidos no Brasil declarou que "o governo dos Estados Unidos reconhece os enormes esforços do governo do Brasil para incentivar práticas sexuais seguras através da distribuição de preservativos por meio do seu sistema de saúde pública".
A nota diz ainda que "o CDC publica regularmente informações sobre saúde para os americanos que viajam ao exterior, inclusive antes de grandes eventos internacionais. Essas informações incluem sugestões de itens de uso pessoal que eles podem levar em sua viagem. A linguagem no site do CDC foi atualizada para ressaltar que os americanos devem simplesmente comprar preservativos de uma fonte confiável.
A cartilha de orientações divulgada pelo Departamento de Saúde dos Estados Unidos para torcedores que virão ao Brasil acompanhar a Copa do Mundo alerta para os riscos de ser roubado ao se hospedar no primeiro andar de um hotel e para levar preservativos norte-americanos. A cartilha foi feita pelo Centro para Prevenção e Controle de Doenças.
O texto publicado antes da alteração gerou polêmica entre alguns dos mais respeitados ativistas brasileiros que ficaram indignados com tal afirmação.
Para Pedro Chequer, ex-diretor da UNAIDS Brasil e ex-diretor do Programa de Aids por duas vezes, "a recomendação do governo americano revela profunda ignorância sobre as medidas que o Brasil adota em relação ao preservativo disponibilizado para consumo no país. Para ser franco, mais que ignorância expõe um preconceito em relação ao país. O controle de qualidade a que são submetidos esses produtos, tanto os de fabricação nacional quanto os importados pelo governo federal para distribuição gratuita supera inclusive as exigências normativas da OMS. A modificação da recomendação original atenua mas não suprime o equívoco uma vez que seu texto remete a um link onde se lê: `Bring condoms from United States, since those in other countries may not be up to US quality standards`".
"Ora, modificaram a recomendação original certamente pelas reações desfavoráveis mas, a rigor, ela foi mantida, a medida que se remete a um link eletrônico onde a recomendação de trazer preservativos dos EUA, devido a qualidade duvidosa de outros países (e isso inclui o Brasil) está claramente explicitada", conclui Chequer.
Rodrigo Pinheiro, presidente do Fórum de ONGS Aids em São Paulo, questiona "com que dados o CDC emite um comunicado afirmando que nossas camisinhas não são confiáveis?" Segundo ele, "o governo brasileiro precisa voltar com seu protagonismo no enfrentamento da epidemia, denunciar estes tipos de informações que estão sendo repassadas não só pelo governo americano mas de outros países também, por causa da Copa do Mundo".
Rodrigo afirma ainda que "é preciso parar com essa política que impregnou o Departamento DST/Aids e Hepatites Virais e que a nossa política externa no enfrentamento da epidemia é exemplar".
"O governo americano com essa declaração mostra total desconhecimento sobre o controle tecnológico brasileiro que faz de nossas camisinhas as mais seguras do mundo, causando um estrago irreparável com essa fala irresponsável", declara José Araújo Lima Filho, coordenador do EPHa.
"Uma posição muito infeliz que demonstra falta de informação e preconceito…nossa camisinha é segura", afirma Aurea Abatte, presidente do GAPA-SP.
A declaração do Departamento de Saúde dos EUA gerou indignação também para a coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo. Maria Clara Gianna diz que a informação do CDC é absurda, totalmente equivocada. "Os preservativos distribuídos pelo setor público ou vendidos no nosso país passam por rigoroso controle de qualidade". Carla acrescenta ainda que "esperamos que esta posição inicial seja revista".
A mesma opinião é compartilhada pela coordenadora do Instituto Cultural Barong, Marta Macbritron. "Não há desculpas para uma informação tão equivocada. Os preservativos distribuídos e vendidos no Brasil passam por uma das mais rigorosas análises de qualidade antes de serem disponibilizados. A energia que o governo americano está aplicando para esta recomendação poderia ser utilizada para mea culpa do serviço em relação à política Abc, que tanto prejuízo causou e causa nos países africanos."


