A Lei nº 6.060, sancionada em outubro daquele ano, estabeleceu a vacinação em todo o território fluminense e também previu campanhas educativas e ações de conscientização
Um estudo publicado recentemente na revista científica The Lancet trouxe um dado que merece atenção. Na Inglaterra, entre 2020 e 2024, não houve mortes por câncer do colo do útero entre mulheres de 20 a 24 anos, faixa etária em que a cobertura da vacinação contra o HPV chegou perto de 90%. Os pesquisadores estimaram uma redução de 100% na mortalidade entre as mulheres vacinadas nessa faixa etária.
A Lei nº 6.060, sancionada em outubro daquele ano, estabeleceu a vacinação em todo o território fluminense e também previu campanhas educativas e ações de conscientização. Três anos depois, em 2014, a vacinação contra o HPV passou a fazer parte do calendário nacional do SUS.
É difícil olhar para essa trajetória sem pensar no significado de uma política de prevenção. Quando o Estado age antes da doença, ele protege vidas e, ao mesmo tempo, evita que famílias tenham de enfrentar tratamentos longos e dolorosos e que o próprio sistema de saúde arque, no futuro, com despesas que poderiam ter sido evitadas.
Ao longo desses 15 anos, estima-se que cerca de 1 milhão de mulheres tenham sido vacinadas contra o HPV no Estado do Rio de Janeiro. As projeções apontam para aproximadamente 15 mil casos de câncer que poderão ser evitados ao longo da vida dessa população e para uma economia de cerca de R$ 400 milhões em tratamentos. Quando são considerados também os impactos indiretos para a sociedade, essa economia pode chegar a R$ 1 bilhão.
Mas existe um número ainda mais importante, embora seja impossível colocá-lo em uma planilha. É o número de mães, filhas, irmãs e amigas que poderão seguir suas vidas sem receber um diagnóstico de câncer que poderia ter sido prevenido.
Quinze anos atrás, não tínhamos como enxergar todos os resultados que uma iniciativa como aquela produziria. Era preciso confiar nas evidências disponíveis, garantir acesso a quem não podia pagar e compreender que prevenção também é responsabilidade do poder público. Hoje, estudos internacionais começam a mostrar, com uma geração que cresceu vacinada, o tamanho desse impacto.
Na política, somos frequentemente cobrados pelo que conseguimos entregar no presente. E essa cobrança é necessária. Mas governar também exige tomar decisões cujos melhores resultados talvez só apareçam muitos anos depois.
A experiência da vacinação contra o HPV deixa uma lição simples. Quando há respaldo da ciência e capacidade de prevenção, o poder público não deve esperar a doença chegar para agir. Investir antes pode custar menos aos cofres públicos. Sobretudo, pode significar mais vidas preservadas.




