Rádio LGBT destaca crítica à indisponibilidade do comprimido 3 em 1 para HIV

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04/12/2014 – 17h50

O  programa de rádio Lado Bi, mídia para o segmento LGBT hospedada na Rádio Uol, entrevistou  o médico infectologista José Valdez Madruga em especial para o Dia Mundial da Luta Contra a Aids na última segunda-feira (1º ) e destacou crítica ao programa nacional de antirretrovirais. 

O aspecto abordado foi a dificuldade do governo em tornar amplamente disponível o comprimido que combina três antirretrovirais, facilitando a vida do paciente. Madruga dirige a unidade de pesquisa em medicamentos do Centro de Treinamento e Referência em HIV/Aids de São Paulo (CRT).

Os 3 em 1 compostos por tenofovir, lamivudina e efavirenz  já são uma realidade em muitos países africanos que começaram a distribuir medicamentos há pouco tempo. 

Há dois ano,  o governo federal assinou acordo com laboratórios públicos para a sua produção mas, segundo Madruga, os comprimidos não passaram nos testes. 

A solução, segundo o infectologista, foi recorrer ao mercado internacional e, por conta disso, somente pacientes novos do Rio Grande do Sul e  do Amazonas – os estados com pior situação epidemiológica – estão recebendo medicamentos. Pacientes da Cracolândia de São Paulo também começaram a receber o 3 em1, segundo essa agência noticiou (leia). 

O Brasil se destacou no cenário mundial do HIV ao ser o primeiro país a distribuir gratuitamente os antirretrovirais e ao enfrentar o sistema de patentes para produzir genéricos no começo dos anos 2000 – o que forçou uma importante redução dos preços das drogas que beneficiou todo o mundo.

Hoje em dia, a assistência farmacêutica ao HIV no nosso país apresenta altos e baixos. O melhor aspecto é que continua sendo inteiramente gratuita. Além disso, alguns medicamentos mais antigos com muitos efeitos colaterais foram abandonados, como a estavudina. Ou deixaram de ser a primeira escolha, como é o caso do AZT. O abandono de alguns remédios de primeira geração já é recomendado pela Organização Mundial de Saúde.

Por outro lado, drogas de última geração com pouquíssimos efeitos, que fazem parte do dia a dia de soropositivos de países desenvolvidos, não estão disponíveis, como o elvitegravir, ou são distribuídas somente para casos resistentes, como o raltegravir.

 Essa restrição é, porém, compreensível em um país em que todos os custos são arcados pelo sistema público. Essas drogas custam mais de 10 mil dólares ao ano. Com o passar dos anos, e o vencer das patentes, a perspectiva é de que sejam incorporadas. 

Os remédios atualmente em uso no Brasil têm um perfil de efeitos colaterais não tão baixo, mas razoável em comparação com os esquemas anteriores.

A indisponibilidade do 3 em 1, no entanto, constitui uma falha bastante criticável da política farmacêutica atual. O próprio diretor do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Fábio Mesquita, admitiu a lentidão brasileira no assunto em apresentação na conferência internacional de tratamento antirretroviral HIV Treatment, em maio no Rio de Janeiro. 

Geralmente, o debate sobre política farmacêutica se restringe aos meios especializados. O programa discute outras questões como estigma, hepatites e aderência ao tratamento.  

 

Henrique Contreiras é médico colaborador da Agência de Notícias da Aids (henrique@agenciaaids.com.br)

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