Racismo ainda determina quem adoece e quem morre por HIV, alertam especialistas na AIDS 2026

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Debate reuniu representantes do Brasil, Estados Unidos e Guatemala para defender que combater as desigualdades raciais é tão estratégico para controlar a epidemia quanto ampliar o acesso aos avanços científicos.

Nunca houve tantas tecnologias capazes de prevenir e tratar o HIV. Medicamentos de longa duração, novas estratégias de prevenção e tratamentos cada vez mais eficazes ampliam as perspectivas de controle da epidemia. Mas, para milhões de pessoas, o principal obstáculo continua não sendo a falta dessas ferramentas. É o racismo.

Essa foi uma das mensagens mais contundentes da sessão “O racismo como fator determinante do HIV: da experiência vivida à mudança estrutural”, realizada durante a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026). Reunindo especialistas do Brasil, Estados Unidos e Guatemala, o debate defendeu que enfrentar as desigualdades raciais é tão estratégico para controlar a epidemia quanto ampliar o acesso às inovações científicas.

Ao longo da discussão, os participantes reforçaram que o racismo não pode ser compreendido apenas como episódios individuais de discriminação. Trata-se de um sistema que influencia o acesso à moradia, educação, renda, serviços de saúde, produção científica e até mesmo determina quais populações aparecem — ou desaparecem — das estatísticas oficiais.

O racismo organiza as desigualdades

“O problema do racismo não é quando alguém faz um comentário racista. O problema é a forma como as coisas estão organizadas”, resumiu Thiago Cruz, da ONG Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero.

Para ele, é essa estrutura que ajuda a explicar por que a população negra continua sendo desproporcionalmente afetada pelo HIV no Brasil. “Quando falamos de raça, não estamos falando apenas da cor da pele. Estamos falando de acesso a direitos e oportunidades.”

Segundo Thiago, a desigualdade racial atravessa diferentes dimensões da vida. Pessoas negras estão mais expostas à pobreza, à violência, ao encarceramento, à insegurança alimentar, à falta de moradia e às dificuldades de acesso à educação. Como consequência, também enfrentam mais barreiras para realizar o diagnóstico precoce, acessar métodos de prevenção e permanecer em tratamento.

O pesquisador ressaltou que essas desigualdades se tornam ainda mais profundas quando diferentes formas de discriminação se sobrepõem. Mulheres trans negras, por exemplo, convivem simultaneamente com o racismo, a transfobia e a misoginia, combinação que amplia a exclusão social e reduz as oportunidades de trabalho, renda e acesso aos serviços de saúde.

As histórias que o racismo apagou

Para a médica Oni Blackstock, da Health Justice LLC, dos Estados Unidos, o racismo também influenciou a forma como a própria história da epidemia foi construída.

Ela lembrou que Ryan White, adolescente branco que adquiriu HIV por transfusão sanguínea, tornou-se um dos rostos mais conhecidos da resposta norte-americana ao HIV. Já Robert Rayford, adolescente negro que hoje é considerado a primeira pessoa identificável a viver com HIV nos Estados Unidos, permaneceu praticamente desconhecido.

Para Blackstock, essa diferença jamais aconteceu por acaso.

Ela explicou que Robert cresceu em uma região marcada por décadas de segregação racial, resultado de políticas públicas que impediram famílias negras de acessar crédito imobiliário, adquirir propriedades e acumular patrimônio.

“O racismo não é apenas preconceito. É um sistema de poder que determina quem tem acesso a recursos sociais, econômicos e políticos”, afirmou.

Segundo a pesquisadora, desde os primeiros anos da epidemia as pessoas negras já apareciam de forma desproporcional entre os casos de aids nos Estados Unidos, mas essa realidade permaneceu invisibilizada durante muito tempo.

Hoje, afirmou, o cenário continua refletindo essas desigualdades. Em Nova York, cerca de 90% dos novos diagnósticos entre mulheres ocorrem entre mulheres negras e latinas. Apesar disso, muitos programas continuam utilizando os mesmos indicadores de sucesso para grupos que enfrentam riscos completamente distintos.

Por isso, Blackstock defendeu que as políticas públicas passem a incorporar indicadores de equidade e direcionem mais recursos para organizações lideradas pelas próprias comunidades negras, latinas e trans.

Quando uma população sequer aparece nas estatísticas

Se a invisibilidade da população negra já compromete a resposta ao HIV, entre os povos indígenas o problema pode ser ainda mais profundo. Em muitos países das Américas, essas populações simplesmente não aparecem nos sistemas de informação.

Foi esse o alerta feito pelo pesquisador indígena E. Roberto Orellana, da University of Washington. “Quando analisamos os dados, simplesmente não existimos.”

Segundo ele, a ausência da identidade indígena nas notificações impede compreender a real dimensão da epidemia nessas populações e compromete a elaboração de políticas públicas específicas.

O pesquisador lembrou que, embora existam poucos dados sobre prevalência, há evidências de maior mortalidade por aids entre povos indígenas, frequentemente associada ao diagnóstico tardio e às dificuldades de acesso aos serviços de saúde.

Além da distância geográfica, essas comunidades enfrentam barreiras linguísticas, ausência de atendimento culturalmente adequado e experiências repetidas de discriminação nos serviços de saúde.

Para Orellana, reconhecer os conhecimentos tradicionais também faz parte da resposta ao HIV. Ele relatou experiências desenvolvidas na Guatemala que integram curadores e lideranças indígenas ao cuidado das pessoas vivendo com HIV, fortalecendo o vínculo entre as comunidades e os serviços de saúde.

A resposta ao HIV começa antes da consulta

Embora os contextos apresentados fossem diferentes, os três especialistas convergiram em um mesmo ponto: controlar a epidemia exige muito mais do que disponibilizar medicamentos.

Para Thiago Cruz, a prevenção e o tratamento precisam chegar aos territórios onde vivem as populações mais vulnerabilizadas. “Não se trata apenas de entregar medicamentos ou realizar consultas. Precisamos estar onde as pessoas vivem.”

Ele defendeu políticas articuladas entre saúde, educação, habitação, segurança alimentar e redução de danos, além da revisão de políticas de criminalização que atingem desproporcionalmente a população negra.

Na mesma direção, Oni Blackstock argumentou que enfrentar apenas as consequências do racismo não é suficiente. “Grande parte do nosso trabalho tenta resolver problemas como falta de moradia ou desemprego, mas não o racismo em si.”

Ela também defendeu mudanças na distribuição dos recursos destinados à resposta ao HIV, priorizando organizações comunitárias lideradas pelas populações diretamente afetadas.

Medir o racismo também é fazer saúde pública

Outro consenso entre os pesquisadores foi a necessidade de produzir evidências capazes de demonstrar os impactos do racismo na saúde.

Segundo Roberto Orellana, já existem instrumentos científicos capazes de medir experiências de discriminação e seus efeitos sobre diferentes desfechos em saúde. “Se conseguimos medir depressão e ansiedade, também podemos medir o racismo.”

Para ele, incorporar esse tipo de indicador permitirá compreender melhor como o racismo influencia o diagnóstico, a adesão ao tratamento e a mortalidade relacionada ao HIV, além de fortalecer políticas públicas baseadas em evidências.

Ao longo da sessão, os pesquisadores defenderam que a resposta ao HIV precisa ir além da incorporação de novas tecnologias. Também exige enfrentar as estruturas sociais que determinam quem terá acesso ao diagnóstico, à prevenção e ao tratamento.

Na avaliação dos participantes, medicamentos cada vez mais eficazes continuarão salvando vidas. Mas, enquanto o racismo seguir organizando o acesso à saúde, à renda, à educação e às oportunidades, seus benefícios não alcançarão toda a população da mesma forma.

Como resumiu Roberto Orellana: “O HIV é apenas um vírus. É igualzinho à covid, a um cachorro ou a um gato. Faz parte da natureza. Não vamos acabar com o HIV. O que podemos combater são as doenças sociais que continuam produzindo desigualdades.”

Barbara Clara, especial para a Agência de Notícias da Aids

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobriu a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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