Quem vai financiar o futuro da resposta ao HIV? Debate na AIDS 2026 alerta que cortes de recursos ameaçam meta de acabar com a epidemia até 2030

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Depois de décadas de avanços que aproximaram o mundo da meta de acabar com a aids como ameaça à saúde pública até 2030, a resposta global ao HIV enfrenta um obstáculo que não será superado nos laboratórios. O desafio agora é político, econômico e financeiro. Em meio à retração dos investimentos internacionais, especialistas, ativistas e representantes da sociedade civil reunidos na 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), no Rio de Janeiro, defenderam que a pergunta mais urgente da resposta global deixou de ser “qual será a próxima inovação científica?” para se transformar em outra: quem financiará o futuro da resposta ao HIV?

Essa foi a discussão central da sessão “Onde está o dinheiro: reconstruindo o futuro da resposta à AIDS”, realizada no domingo (26). Promovido pela Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF), em parceria com a Gestos – Soropositividade, Comunicação e Gênero, o debate reuniu representantes de organizações da sociedade civil para discutir o impacto da redução do financiamento internacional e os caminhos para preservar as políticas de prevenção, tratamento e direitos humanos. A mediação foi conduzida por Alessandra Nilo (IPPF/Brasil).

A preocupação apresentada durante o encontro encontra respaldo nos números mais recentes do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids). Segundo o organismo, os recursos destinados à resposta ao HIV sofreram redução entre 30% e 40% em 2025, na comparação com o orçamento disponível em 2023. No mesmo período, a assistência internacional ao desenvolvimento caiu 23% — a maior retração já registrada — comprometendo programas conduzidos por governos, organismos multilaterais e organizações comunitárias.

Os efeitos dessa redução já começam a ser sentidos. As interrupções no Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da AIDS (PEPFAR) provocaram o fechamento de 1.714 unidades de atendimento, afetaram serviços de prevenção e tratamento e deixaram 77.163 crianças vivendo com HIV sem acesso à terapia antirretroviral.

O cenário contrasta com os resultados alcançados pela resposta global nas últimas décadas. Desde 2010, as mortes relacionadas à aids caíram 56% e as novas infecções por HIV diminuíram 43%, segundo o UNAIDS. Hoje, 32,1 milhões de pessoas recebem tratamento antirretroviral, o equivalente a 78% das 40,9 milhões de pessoas vivendo com HIV em todo o mundo. Ainda assim, cerca de nove milhões permanecem sem acesso à terapia.

Durante a Reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre HIV e AIDS, realizada em junho, em Nova York, o UNAIDS alertou que o conhecimento científico e as tecnologias capazes de controlar a epidemia já existem. O risco agora é que a redução dos investimentos interrompa justamente o momento em que esses avanços poderiam alcançar um número cada vez maior de pessoas.

Foi diante desse cenário que a Gestos levou o debate sobre financiamento para a programação da AIDS 2026. Para a organização, discutir recursos significa discutir o futuro da própria resposta ao HIV.

Em entrevista à Agência Aids, a coordenadora de Articulação Política, Relações Internacionais e Comunicação da Gestos, Juliana César, afirmou que o debate costuma partir de uma premissa equivocada.

“A primeira coisa é desconstruir a ideia de que os recursos para investimento social são limitados. Globalmente e também no Brasil existem escolhas que acabam retirando recursos do investimento social. Não falta dinheiro. Existem escolhas políticas que fazem com que esses recursos deixem de ser investidos onde realmente fortalecem o desenvolvimento social”, afirmou.

Segundo Juliana, o debate precisa deixar de tratar a falta de financiamento como um problema inevitável e passar a discutir as prioridades definidas pelos governos e pelos organismos internacionais. Para ela, as decisões orçamentárias refletem escolhas políticas que determinam quem terá acesso à prevenção, ao tratamento e ao cuidado.

Comunidades são investimento, não despesa

Na avaliação da coordenadora da Gestos, uma das prioridades em um cenário de restrição orçamentária deve ser o fortalecimento das respostas lideradas pelas comunidades.

“Se eu tivesse que escolher uma prioridade, seria o financiamento das respostas comunitárias. As comunidades e as organizações sociais têm uma capacidade de compreender as demandas das pessoas que vivem em maior situação de vulnerabilidade que dificilmente é encontrada em outras iniciativas. Quando você financia essa resposta, garante que quem está em maior situação de exclusão consiga receber atendimento e o suporte necessário.”

Juliana explica que as organizações comunitárias desempenham um papel que vai além da prestação direta de serviços. Elas chegam a territórios e populações onde o Estado muitas vezes encontra dificuldades para atuar, reduzindo barreiras relacionadas ao estigma, à discriminação e ao acesso aos serviços de saúde.

Além disso, afirma, essas organizações produzem conhecimento estratégico para orientar políticas públicas.

“A gente tem, no Brasil, uma sociedade civil extremamente capaz, eficiente, tecnicamente conhecedora e que produz conhecimento de extrema qualidade. Mas, às vezes, existe um viés de informação. Pensa-se que apenas os relatórios oficiais ou os dados produzidos por institutos de pesquisa, hospitais ou serviços de saúde devem orientar as políticas públicas.”

Segundo ela, as organizações comunitárias ajudam a revelar aquilo que frequentemente permanece invisível nas estatísticas oficiais.

“Os relatórios oficiais mostram quem foi atendido, quantas pessoas foram atendidas e fazem a prestação de contas da execução do orçamento. As organizações comunitárias acompanham tudo isso, mas também verificam quem ficou de fora. E essa é uma informação fundamental, porque essas pessoas são justamente as que acabam sendo deixadas para trás na resposta ao HIV e as que mais precisam de acesso aos recursos.”

Para Juliana, ouvir essas organizações é essencial para que governos consigam aperfeiçoar suas políticas e reduzir desigualdades no acesso aos serviços.

“É fundamental que se ouçam as organizações sociais e comunitárias para verificar as lacunas que ainda existem na resposta ao HIV.”

Cortar prevenção custa caro

Outro ponto enfatizado durante a sessão foi a necessidade de proteger os investimentos em prevenção. Para Juliana César, reduzir recursos destinados a essa área significa comprometer toda a sustentabilidade da resposta ao HIV.

“A prevenção é um excelente investimento porque, como o próprio nome diz, ela previne uma série de outras consequências. Se eu previno uma infecção pelo HIV, eu não vou ter que fazer todo o trabalho relacionado ao tratamento.”

Ela ressalta que investir em prevenção não significa apenas ampliar a oferta de tecnologias biomédicas, mas garantir informação de qualidade, educação baseada em evidências e acesso aos insumos necessários para que as pessoas possam exercer seu direito à saúde.

“Prevenir é fundamental para que outras demandas relacionadas ao HIV não venham a se apresentar. Precisamos garantir informação, acesso à educação baseada em evidências, acesso aos insumos necessários e a todo o conjunto de recursos que permite enfrentar o HIV desde a prevenção.”

Ao longo da discussão, os participantes defenderam que a crise atual representa um momento decisivo para a resposta global ao HIV. Se, por um lado, a ciência oferece hoje ferramentas capazes de transformar a prevenção e o tratamento, por outro, a redução dos investimentos ameaça impedir que esses avanços alcancem justamente as populações que mais precisam.

Na avaliação dos debatedores, responder à pergunta sobre quem financiará o futuro da resposta ao HIV será determinante para saber se a meta de acabar com a aids até 2030 continuará sendo um objetivo possível ou se corre o risco de se transformar em mais uma oportunidade perdida por falta de vontade política e de investimento.

Bárbara Clara, especial para a Agência de Notícias da Aids

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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