
Em tempos marcados por retrocessos em políticas públicas e ataques aos direitos humanos, cresce a preocupação com a saúde mental dos ativistas que estão na linha de frente da luta por justiça social. Sintomas como ansiedade, insônia, crises emocionais e sensação de solidão têm sido relatados com frequência, sobretudo após o impacto da pandemia de Covid-19.
A psicóloga e sexóloga Regiane Rodrigues, que atua há anos com populações vulneráveis, além de seu trabalho em instituições como o Instituto Cultural Barong e grupos de pesquisa em saúde, observa que a sobrecarga emocional na militância está relacionada a cobranças intensas, exigências e, sobretudo, à frustração constante.
“Ser um ativista, independente da causa, é uma luta constante. É uma luta contra o sistema, por espaço, por reconhecimento, por políticas públicas, por infinidade de coisas. Então, a sobrecarga é principalmente por conta da frustração. Saber lidar com a frustração, o que não é fácil, mas é um caminho para não ter tanto impacto psicológico.”
Quando questionada sobre o esgotamento emocional, Regiane explica que ele não difere daquele sentido em outras profissões:
“Não existe diferença. Cada atividade, cada profissão, cada trabalho pode trazer um esgotamento emocional. Muita cobrança, muita exigência e, como eu disse, muitas frustrações. O esgotamento emocional é muito democrático. Ele acontece para militantes e para profissionais de alta exigência.”
Para a psicóloga, o tabu em torno do sofrimento psíquico dentro dos movimentos sociais é reflexo de um problema maior na sociedade.
“Falar de sofrimento psíquico ainda é difícil porque existem muitos questionamentos de que a pessoa fica doente porque quer, que tem esgotamento porque quer, que, se tiver força de vontade, se recupera. Então, é deixado de lado muitas vezes as questões psiquiátricas, neuroquímicas do cérebro e as questões emocionais e comportamentais. Os movimentos sociais têm um papel muito importante de levar a informação correta e o combate ao preconceito em relação à saúde mental.”

Regiane Rodrigues, psicóloga e sexóloga | Foto: Reprodução
A pandemia agravou quadros de ansiedade, depressão e burnout, especialmente pelo medo do desconhecido e o isolamento social.
“Foi muito difícil porque não sabíamos o que ia acontecer, surgiu um patógeno letal. O isolamento social causou um grande aumento em problemas de saúde mental. Nos ativistas não foi diferente, porque muitos tiveram que participar de reuniões e eventos online, o que causou ansiedade, principalmente em pessoas com mais de 50 anos, que não tinham familiaridade com a tecnologia.”
A solidão política e emocional também se intensificou, principalmente por conta dos retrocessos em conquistas sociais e a ausência de contato presencial após a pandemia.
“A gente precisa da presença, do estar com as pessoas, de compartilhar momentos, dividir histórias, dividir questões. Isso é fundamental. Mas o que temos hoje ainda é uma dificuldade grande de relacionamento presencial, e isso afeta a saúde mental. Quem já tem predisposição neuroquímica para ansiedade e depressão acaba agravando a situação.”
A forma de lidar com a frustração diante de retrocessos passa, segundo Regiane, pelo resgate da conexão humana e do contato com a arte.
“A gente precisa abrir mão um pouco da tecnologia e da lógica acelerada, resgatar a arte, cinema, teatro, música, literatura, viver um pouco de forma analógica. Talvez isso nos ajude a lidar melhor com a frustração e a impotência.”
Sobre a cobrança interna para que ativistas estejam sempre “fortes” e produtivos, a psicóloga alerta:
“Existe essa cobrança, sim, para estar sempre à frente, sempre produtivo, sempre forte. Isso é complicado, porque somos humanos, temos vulnerabilidades e fragilidades. O cuidado com a saúde mental do militante é urgente. O ativista precisa cuidar dele, respeitar seus limites e sua humanidade. Se ele não cuidar dessa humanidade, é extremamente nocivo.”
Regiane destaca o papel da sexualidade e do prazer como ferramentas fundamentais de autocuidado.
“A sexualidade e o prazer são instrumentos essenciais para a saúde mental. É através da sexualidade, dos momentos de prazer e das trocas que a gente se sente desejado, amando, amado, pertencente. A gente se sente vivo por conta do toque, da pele, da sensação de unidade. Isso traz um grande acalanto psicoemocional.”
A psicóloga reforça ainda que o cuidado com a saúde mental deve ser encarado como uma questão coletiva.
“Os movimentos sociais, ONGs e grupos têm papel fundamental em criar espaços para falar da saúde mental, das angústias e frustrações. É urgente levar esse tema para todas as frentes dos movimentos sociais. Já se faz tarde.”
Para evitar o esgotamento, Regiane sugere atenção à lógica capitalista da produtividade:
“A pessoa precisa cuidar para não entrar na lógica do excesso de reuniões, eventos e participações. É preciso equilibrar a vida da militância com a vida privada, onde se tem espaço para descanso, hobbies e atividades físicas. A militância não pode ser uma correria sem fim.”
Quando questionada sobre grupos mais vulneráveis, a psicóloga diz que o esgotamento emocional é democrático, mas reconhece sobrecarga adicional para minorias sociais.
“Mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+ enfrentam sobrecarga por causa do machismo, racismo, homofobia e transfobia.”
Regiane relata que já atendeu militantes que pensaram em desistir da luta por exaustão emocional, e explica:
“O esgotamento é um sinal. Muitas vezes, é uma dica para a pessoa reformular sua forma de ser ativista, de viver, de lidar com suas questões. Não é necessariamente desistir, mas mudar a rota, reduzir a marcha e colocar limites.”
Para quem sofre em silêncio, ela deixa um conselho:
“Busque ajuda, procure apoio psicológico, participe de rodas de escuta e converse com pessoas de confiança. Quem cuida da mente é forte. Quem pede ajuda está no caminho da cura.”
Por fim, Regiane lança um apelo aos movimentos sociais:
“Cadê os psicólogos e psiquiatras nos coletivos? Cadê os espaços de cuidado? Muitos profissionais estão disponíveis, mas precisam ser chamados. Sem saúde mental, não há militância que se sustente.”
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista:
Regiane Rodrigues
Instagram: regiane8806


