Dentro de campo, uma vaga nas semifinais; fora dele, duas estratégias que mostram avanços importantes na prevenção e no tratamento do HIV.
Assim como na Copa do Mundo de 2026, em que França e Marrocos se enfrentam nesta quinta-feira (9), às 17h, pela primeira partida das quartas de final, o combate ao HIV também revela duas trajetórias marcadas por estratégias diferentes, mas com resultados importantes. De um lado, uma das respostas mais consolidadas da Europa; do outro, um país que se tornou referência regional ao combinar prevenção, assistência e políticas voltadas às populações mais vulneráveis.
A seleção francesa entra em campo respaldada por uma tradição no futebol e também por décadas de investimento em políticas públicas de saúde. Já o Marrocos chega embalado pelo crescimento recente no cenário esportivo internacional e pelos avanços obtidos no enfrentamento da epidemia em uma região onde o acesso à prevenção e ao tratamento ainda enfrenta importantes desafios.
França aposta em inovação e amplia acesso à prevenção
A França abriga cerca de 180 mil pessoas vivendo com HIV. O país alcançou indicadores próximos das metas globais estabelecidas pelo Unaids: 94% das pessoas que vivem com o vírus conhecem seu diagnóstico, 96% recebem tratamento antirretroviral e 98% das pessoas em tratamento apresentam carga viral suprimida, condição que preserva a saúde e impede a transmissão sexual do HIV.
Mesmo com esse cenário positivo, a epidemia continua ativa. Em 2024, aproximadamente seis mil novos diagnósticos foram registrados, demonstrando que ainda existem desafios importantes relacionados ao acesso à prevenção e ao diagnóstico precoce.
Grande parte dos casos concentra-se na região de Île-de-France, onde está localizada Paris. Embora reúna menos de um quinto da população francesa, a região concentra quase metade das pessoas vivendo com HIV no país. A maioria das novas infecções ocorre entre homens, especialmente entre homens que fazem sexo com homens.
Outro desafio envolve a população migrante. Organizações da sociedade civil apontam que barreiras linguísticas, questões burocráticas e o receio relacionado à situação migratória dificultam o acesso contínuo aos serviços de saúde para parte dos imigrantes.
A resposta francesa ao HIV começou ainda na década de 1980, logo após os primeiros casos de aids. O país esteve entre os pioneiros na oferta do AZT e, posteriormente, incorporou a terapia antirretroviral combinada ao sistema público de saúde. Nos últimos anos, voltou a se destacar internacionalmente ao ampliar o acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), oferecendo tanto o esquema oral quanto a versão injetável de longa duração com cabotegravir.
Marrocos fortalece prevenção e reduz novas infecções
O Marrocos apresenta uma das menores prevalências de HIV da região do Oriente Médio e Norte da África, com cerca de 24 mil pessoas vivendo com o vírus e prevalência inferior a 0,1% na população geral.
Em 2024, o país registrou 990 novos casos, o menor número desde o início do monitoramento nacional. Ao longo da última década, as novas infecções diminuíram cerca de 22%, refletindo o fortalecimento das ações de prevenção e diagnóstico.
A estratégia marroquina concentra esforços nas populações-chave, responsáveis pela maior parte das novas transmissões. Homens que fazem sexo com homens e pessoas que usam drogas injetáveis respondem por aproximadamente dois terços das novas infecções notificadas.
Um dos diferenciais da política pública do país é a adoção de programas de redução de danos voltados às pessoas que fazem uso de opióides, incluindo tratamento com metadona. O Marrocos é o único país da região a incorporar essa estratégia como parte das ações nacionais de enfrentamento ao HIV, ampliando o acesso ao cuidado e reduzindo os riscos de transmissão.
Apesar dos avanços, o país ainda busca expandir a cobertura da testagem, reduzir o estigma e garantir que mais pessoas iniciem o tratamento em estágios precoces da infecção.
Muito além do placar
Se dentro de campo apenas uma seleção avançará às semifinais da Copa do Mundo, fora dos gramados França e Marrocos demonstram que diferentes caminhos podem produzir resultados importantes no enfrentamento ao HIV.
Enquanto a França investe em inovação, acesso universal ao tratamento e novas tecnologias de prevenção, o Marrocos mostra que políticas focadas nas populações mais vulneráveis e programas de redução de danos podem transformar o cenário da epidemia mesmo em contextos de recursos mais limitados.
Em ambos os casos, a combinação entre ciência, políticas públicas e combate ao estigma segue sendo a principal estratégia para reduzir novas infecções e melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV.
Redação Agência de Notícias da Aids




