Jovens do Senac Tatuapé mergulham em uma conversa sobre prevenção, empatia e o poder de se informar

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Por vezes, o silêncio sobre temas que importam é o que mais adoece. Foi justamente para romper esse silêncio — sobre sexualidade, autocuidado e preconceito — que quase duzentos jovens do Senac Tatuapé participaram, na terça-feira (12), do projeto “Saúde, Informação e Cidadania”, uma parceria entre o Senac São Paulo e a Agência de Notícias da Aids.

O encontro, conduzido pela jornalista Roseli Tardelli, aconteceu em duas rodas de conversa — uma pela manhã e outra à tarde — e reuniu estudantes dos cursos técnicos de Enfermagem, Administração e do programa Jovem Aprendiz. Cada roda trouxe uma vivência distinta e igualmente potente: pela manhã, a voz emocionada da ativista e psicóloga Guggã Taylor; à tarde, a sensibilidade da professora e artista visual Micaela Cyrino.

Entre uma e outra, o que se costurou foi o mesmo fio: informação, acolhimento e empatia. Falar de HIV, ali, era falar de humanidade.

“Acredito na educação para a saúde”

Logo na abertura, Roseli deu o tom da conversa: “Acredito na educação para a saúde. A gente se informando, trocando experiências, ouvindo histórias de vida, sai daqui com a bagagem mais cheia. E é essa bagagem que ajuda a fazer escolhas sensatas, comportamentos adequados, para termos uma vida bacana, com saúde e informação.”

Fundadora da Agência de Notícias da Aids, Roseli transformou em missão o luto pela perda do irmão Sérgio, na década de 1980.

“Meu irmão foi infectado pelo vírus que causa a aids quando o preconceito ainda era maior que a compaixão. Ele quase foi expulso do hospital porque o convênio não aceitava ‘esse tipo de doença’. Eu achei que seria muito cretina se não fizesse algo com isso. Então fundei a Agência Aids. Falar de HIV é falar de respeito, de vida, de humanidade.”

Roseli lembrou que, apesar dos avanços da medicina, ainda há muito o que mudar nas relações humanas: “Seguramos a pandemia do HIV com ciência, mas a epidemia do preconceito ainda está aí. E toda vez que a gente abaixa a cabeça pra um preconceito — seja por cor, gênero ou orientação sexual — a gente diminui a espécie humana.”

“O HIV não me define”

Uma das convidadas da roda, Guggã Taylor, psicóloga, ativista e empreendedora digital, vive com HIV desde o nascimento. Sua fala impactou os estudantes:

“Descobri que tinha HIV dentro da escola. A professora me chamou e disse que eu não podia mais fazer educação física porque poderia cair, me cortar e ‘contaminar’ outras pessoas. Eu tinha 14 anos. Foi ali que o mundo virou uma guerra pra mim.”

A jovem contou que, durante anos, odiou a palavra HIV — até entender que poderia ressignificar sua história.

“Parei de tomar remédio e adoeci. Mas quando me vi no hospital, com aftas na boca, sem conseguir tomar água, eu entendi o valor da vida. Hoje, se chegasse a cura, eu nem sei quem eu seria. Mesmo que o HIV não me defina, ele me tornou mais humana. Aprendi a me cuidar, a me olhar, a acolher outros jovens. O HIV me ensinou a viver.”

Guggã trabalha hoje com acolhimento de jovens vivendo com HIV e é uma voz ativa na luta por políticas públicas de saúde e acesso à informação. “A prevenção não é sobre o outro. É sobre a gente. Tomar o remédio é autocuidado. É escolha pela vida.”

“Nasci com HIV e aprendi que o silêncio também mata”

A artista visual e professora Micaela Cyrino, de 37 anos, também nasceu com HIV. “Sou de uma geração que não tinha perspectiva de futuro. Quando eu nasci, o HIV era uma sentença de morte. Meus pais morreram em decorrência da aids. E eu cresci em abrigo, fazendo tratamento na veia. Eu sempre soube que tinha HIV, mas só entendi o que isso significava quando o preconceito me atingiu.”

Ela contou que o estigma começou cedo: “Eu estava na aula de educação física, sangrei o nariz e avisei o professor que tinha HIV. Os pais dos colegas disseram que não queriam mais que os filhos andassem comigo. Eu tinha 13 anos.”

Foi a arte que deu novo sentido à sua história: “Criei com meus amigos uma peça de teatro de fantoches sobre uma menina com HIV que queria contar sua história. Era sobre mim, mas também sobre muitas pessoas. O movimento social me acolheu. As mulheres que vivem com HIV me ensinaram a lutar, a resistir, a acreditar que o HIV não é a vida — é só parte dela.”

“Sexo é vida, e a vida pede diálogo”

A psicóloga e sexóloga Regiane Garcia, parceira da Agência Aids e referência em educação sexual, conduziu um momento de reflexão sobre sexualidade e comportamento.

“Falar de sexualidade ainda é tabu. Mas sexualidade é parte da nossa identidade. Ela diz como nos relacionamos com o mundo. Sexo não é pecado — é vida, é amor, é afeto, é troca. Quando a gente fala de educação sexual, estamos falando de autocuidado, não de sexo. E educação sexual salva vidas.”

Regiane também destacou a importância da informação e da testagem regular. “O HIV é uma infecção sexualmente transmissível, e a gente precisa entender que se cuidar é um ato de amor próprio. Testar, usar preservativo, conhecer o corpo — isso é educação pra saúde. Informação é poder, e informação é cura.”

O SUS, a ciência e a esperança

Durante o encontro, Roseli e as convidadas apresentaram a Mandala da Prevenção Combinada, explicando as diferentes estratégias disponíveis gratuitamente pelo SUS — da testagem ao tratamento, passando por tecnologias como PEP (profilaxia pós-exposição) e PrEP (profilaxia pré-exposição).

Guggã explicou: “Hoje, quem faz o tratamento e atinge carga viral indetectável não transmite o vírus. Isso se chama I=I: indetectável é igual a intransmissível. Isso muda tudo. Mostra que a gente pode viver plenamente e sem medo.”

Roseli completou: “O Brasil tem um dos programas de HIV mais avançados do mundo. Nosso SUS garante tratamento gratuito, distribuição de medicamentos, e está prestes a incorporar o lenacapavir, uma injeção de longa duração que será aplicada a cada seis meses. É uma revolução. Mas o que a gente precisa mesmo é evoluir como humanidade.”

“O preconceito ainda é a pior epidemia”

Entre perguntas e depoimentos dos alunos, uma jovem quis saber se o preconceito seria uma barreira maior que o próprio vírus.

“O preconceito é a pior epidemia que existe”, respondeu Micaela. “Tem gente que é expulsa de casa, perde emprego, é julgada por algo que não escolheu. O vírus eu controlo com o remédio. O preconceito, com amor, acolhimento e informação.”

Guggã completou: “A gente não precisa se curar do HIV pra viver bem. A gente precisa se curar do medo e da ignorância. O preconceito adoece mais do que o vírus.”

Lucila Mara Sbrana Sciotti, superintendente de Operações do Senac São Paulo, acompanhou pela primeira vez o bate-papo e fez uma fala que resumiu o sentido das rodas de conversas:

“Quero agradecer profundamente a presença de todos vocês e dizer que esse momento é de uma importância enorme. O Senac acredita que a educação é um instrumento de transformação social — e falar de saúde é também educar para a cidadania. A escola não forma apenas para o trabalho. Ela forma para a vida. E é por isso que projetos como esse, que unem informação, emoção e respeito, são tão necessários. O que vocês viveram aqui hoje é parte da formação de cada um — como profissional e como ser humano. Que a gente leve daqui não só conhecimento, mas empatia e compromisso com o outro. Isso também é aprender.”

“A falta de informação mata. Quando a gente fala de HIV, de sexualidade, de saúde, a gente está salvando vidas. Falar é cuidar. E cuidar é um ato de amor”, disse Roseli.

O encontro foi encerrado com um convite especial aos estudantes: conhecer o guia “Toques descolados: a informação chegando antes que o HIV entre no seu rolê”, uma publicação da Agência de Notícias da Aids que reúne informações sobre prevenção e sexualidade de forma leve, direta e feita especialmente para o público jovem.

Confira algumas fotos a seguir:

O gerente do Senac Tatuapé, Alexandre Martinez, a gerente do Senac Penha, Débora Miquelin, e Daniela Andriollo, do Sesi, acompanharam o encontro.

A superintendente de Operações do Senac São Paulo, Lucila Mara Sbrana Sciotti, contou que sempre conversou com seus filhos sobre saúde sexual.

O gerente do Senac Tatuapé, Alexandre Martinez, abriu o evento.

A plateia atenta a cada nova informação.

Alunos acompanhando e conhecendo novos conceitos de prevenção.

Os alunos da turma de aprendizagem prepararam várias perguntas.

A self com todos juntos no final do encontro: momento de descontração e alegria.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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