Quando o Google vira consultório: Autodiagnóstico de ISTs pode agravar sintomas e atrasar tratamento, alerta infectologista Hilton Alves Filho, do CTA Pelotas, Rio Grande do Sul

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Foto: Freepik

Vergonha, medo de julgamento e dificuldade de acesso ao sistema de saúde estão entre os principais motivos que levam tantas pessoas a buscar respostas online. Mas essa escolha, aparentemente mais segura, pode trazer riscos sérios.

O Dr. Hilton Luís Alves Filho é médico infectologista pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e pós-graduado em sexologia com foco em saúde LGBTQIAPN+, HIV/aids e ISTs. Ele explica com propriedade os motivos e riscos dos autodiagnósticos:

“O estigma que envolve tanto o HIV, a aids e as outras ISTs, muitas vezes é porque elas são tratadas como falhas morais, não como uma questão de saúde pública. E isso acaba empurrando os usuários, essas pessoas, para a internet, para tentar encerrar um ciclo de ansiedade que ela está sentindo. O que vai levar a esse autodiagnóstico e essa automedicação”.

Com o avanço da tecnologia, a internet virou um “confidente”, como define o especialista. Mas isso não significa que seja uma boa fonte de diagnóstico.

“Essa ilusão desse saber o que tem através de uma busca na internet revela uma coisa que é bem ambígua: tanto o conforto por ter aonde perguntar, sem se expor, mas também um desespero que pode gerar por um diagnóstico errado.”

Segundo o infectologista, os riscos do autodiagnóstico são muitos, a começar pelo fato de que sintomas comuns a várias condições podem ser interpretados erroneamente.

“Uma coceira pode ser uma IST, mas também pode ser uma alergia ou uma infecção fúngica, como uma candidíase, ou uma dermatite, uma reação autoimune da pessoa.”

A automedicação, baseada em “palpite”, como ele define, pode mascarar sintomas, atrasar diagnósticos e ainda dificultar o tratamento. “Isso é muito comum no caso das gonorreias, dos corrimentos uretrais e da cervicite, o uso incorreto do antibiótico acaba gerando alta resistência dessas bactérias, que é um problema de saúde hoje no mundo todo.”

O Dr. Hilton Luís Alves Filho

Sistema de saúde e julgamento

Para o Dr. Hilton, o principal motivo que afasta as pessoas do atendimento presencial não é a internet em si, mas o medo do julgamento.

“A pessoa já está com um problema que está gerando uma ansiedade. Essa ansiedade piora porque o caminho que leva a um diagnóstico, a um tratamento, pode ser um caminho de estigma, um caminho de preconceito.”

Para o médico, o fato de os pacientes sentirem receio de irem ao consultório por conta do estigma afeta não só a dificuldade de obter um diagnóstico seguro, mas também perpetua essa fuga:

“Quando as pessoas ainda não encontram acolhimento, são julgadas e têm seus sintomas diminuídos, a gente reforça essa expulsão das pessoas da unidade de saúde”.

Redes sociais: orientação ou confusão?

A popularização de vídeos sobre ISTs e HIV no TikTok, YouTube e Instagram pode ajudar ou atrapalhar.

“A gente não pode ignorar essa ferramenta. Mas vamos encontrar mitos, vai ter desinformação. A métrica das curtidas, das visualizações, do algoritmo, não são o que definem o que é de confiança.”

Foto: Freepik

O infectologista orienta que os usuários busquem conteúdos produzidos por profissionais de saúde e desconfiem de promessas milagrosas ou linguagens alarmistas. “Prefira sempre conteúdos que vão citar as fontes.”

A telemedicina também é uma alternativa válida para quem sente vergonha de ir até um serviço presencial.

“É uma forma, sim, de acesso, principalmente para pessoas que têm alguma dificuldade de procurar o médico na sua cidade.”

Educação, prevenção e prazer

Para mudar esse cenário, a aposta é na educação sexual, tanto nas escolas quanto em espaços comunitários.

O Dr. Hilton cita a importância de abordar métodos como PrEP, PEP, gel lubrificante e vacinas, mas também trabalhar temas como consentimento, afetividade e autonomia corporal:

“Compreender como se prevenir e quando procurar ajuda profissional deve fazer parte da vida de qualquer pessoa, mas especialmente dos jovens, dos adolescentes que estão iniciando a sua vida sexual.”

Campanhas contínuas e sem moralismo são outro ponto fundamental. “Quando a comunicação é feita com essa escuta de forma empática e reforçando as verdades que essas pessoas têm para a sua vida, ela vai romper o ciclo do medo.”

Onde e como buscar ajuda?

Apesar dos obstáculos, existem caminhos seguros e gratuitos para a testagem e o cuidado.

“Hoje os centros de testagem e aconselhamento, CTAs, e todas as unidades básicas de saúde oferecem os testes rápidos gratuitos no SUS, para HIV, sífilis, hepatites B e C”, lembra o Doutor.

A recomendação é que a pessoa procure um profissional ou serviço em que se sinta segura:

“Mesmo que não seja para fazer o diagnóstico, mas pelo menos para ser acolhida, para ouvir e encaminhada para o lugar mais adequado.”

Dr. Hilton reforça que os sintomas nunca devem ser ignorados ou tratados com receitas da internet:

“Qualquer sinal de IST, a recomendação é sempre buscar um profissional de saúde, uma unidade de saúde, pessoas capacitadas para avaliar corretamente, diagnosticar e oferecer o tratamento adequado a cada caso.”

Saúde como direito

No fim das contas, o autodiagnóstico não vai desaparecer, mas pode ser encarado com mais cuidado.

“A gente tem que entender que o autodiagnóstico, essa pesquisa pelo celular, pelas redes sociais digitais, pela internet, ela é uma coisa que faz parte do cotidiano. Então não adianta a gente vir e falar para as pessoas não fazerem. A gente tem que alertar para os riscos.”, complementa o infectologista.

E esses riscos, quando se trata de ISTs, não são pequenos:

“As ISTs, quando não diagnosticadas precocemente, podem causar danos sérios, como infertilidade, lesões graves e até cânceres, como no caso do HPV.”

Finalizando, o Dr. Hilton reafirma a importância de se lutar por um acesso mais digno à saúde:

“A saúde é um direito humano. Todas as pessoas merecem viver esse direito à saúde, o direito à sexualidade com liberdade, com informação adequada e com dignidade.”

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dica de entrevista:

Dr. Hilton Luís

E-mail: drhiltonsaudelgbt@gmail.com

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