Projeto Xirê têm expandido a prevenção combinada do HIV/aids a partir da integração entre o SUS e as religiões de matriz afro-brasileira

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As ações acontecem em diferentes terreiros da cidade e variam entre distribuição de insumos de prevenção, debates, rodas de conversa e outras atividades educativas em saúde

Pra Cego Ver: Arte em formato circular com o texto Projeto Xirê escrito em preto e vermelho. Ao centro há uma ilustração de uma baiana vestida de branco com saia rodada. Ao entorno circular da figura há uma série de ilustrações de entidades do candomblé.

Em meio aos arranha-céus e a agitação da cidade de São Paulo, um projeto inovador vem expandindo e revolucionando as ações de prevenção ao HIV/aids e outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).  Trata-se do Projeto Xirê, uma iniciativa da Coordenadoria de IST/Aids do Município de São Paulo, que tem por objetivo a coordenação de ações de promoção da saúde e prevenção ao HIV/IST/aids, em articulação territorial entre os Terreiros e as unidades da Rede Municipal Especializada (RME) em IST/Aids, em atenção às pessoas com vulnerabilidade acrescida. Com metodologia e linguagem associada à realidade das comunidades tradicionais de Terreiro, está pavimentando o caminho da prevenção, aproveitando a perspectiva, filosofia e cosmovisão das religiões de matriz africana.

Ou seja, diferentes terreiros, desde 2007 – ano em que nasceu o projeto -, se tornaram espaços de cuidado coletivo, promoção à saúde e manutenção do bem-estar integral. A iniciativa reconhece os Terreiros como núcleos de promoção da saúde, no que se deve considerar a importância do saber milenar contido no complexo universo das tradições afro-brasileiras como parceria em potencial.

Nesse projeto, os profissionais de saúde de diferentes áreas se unem às lideranças religiosas para ampliar o debate sobre sexo seguro e prevenção combinada, além de prestar amplo acolhimento a quem já vive com HIV/aids e estimular adesão ao tratamento antirretroviral.

Arquivo da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo/Reprodução

Para conhecer mais sobre a iniciativa, a Agência Aids conversou com Celso Ricardo, responsável pelo projeto, que integra a Divisão de Articulação com Sociedade Civil na Coordenadoria de IST/Aids. Celso é cientista social e também um homem de axé (de Candomblé).

Segundo Celso, o pontapé nos trabalhos junto aos Terreiros se deu há pouco mais de 16 anos [2007]. Naquele momento, a iniciativa se mostrava algo novo, muito diferente de qualquer coisa já vista antes na resposta à epidemia de HIV/aids na cidade. “Xirê é uma palavra Yorubá que significa roda, ou dança para a evocação dos Orixás conforme cada nação. Esse rito acontece para que os Orixás descem à terra para celebrar a vida com alegria e festividade junto aos seus filhos.“

O Projeto Xirê consiste na oferta de serviços de saúde atentos à promoção de um estado laico, democrático e de direito, rompendo assim, com o racismo, o preconceito, a discriminação e as intolerâncias correlatas, promovendo o acesso universal ao sistema público de saúde e, uma resposta à epidemia de aids, com o envolvimento da sociedade em sua ampla diversidade.

O Candomblé, por exemplo, é uma religião afro-brasileira em que se pratica o culto de divindades de origem africana chamadas orixás. Apesar de ter nascido na Bahia, no século XIX, o candomblé foi formado a partir de tradições religiosas africanas de povos iorubás. Essas tradições foram trazidas ao Brasil por populações negras escravizadas vindas de países da África Ocidental, como Nigéria, Benin e Togo.

“Quando o Candomblé nasceu na Bahia, no século XIX, o que se tinha era a necessidade de organizar a comunidade e o trato para a relação com os seus ancestrais, divindades, com as outras comunidades, com o estado… Era preciso uma ordem, então o terreiro que tem como princípio central a hierarquia, vai se organizar no Xirê, com uma ordem que dá norte ao processo”, explicou Celso.

Ele ainda esclareceu que quando os Orixás são convidados a voltar à terra na cerimônia pública – o que também não foge da lógica da ordem -, a soma das presenças e contribuições, podem ser interpretadas de forma política. Ao mencionar, relacionou este conceito espiritual com a questão do HIV/aids, enfatizando que a resposta à aids, requer coletividade e múltiplos esforços para enfrentamento dos desafios da epidemia que são, sobretudo, sociais.

De acordo com o gestor, quando o Projeto Xirê teve início, existiam inquietações e alguns questionamentos, que foram norteadores fundamentais de atividades que viriam mais à frente serem executadas de forma prática nos territórios. “Nós nos perguntávamos: como é que a gente organiza uma festa pública para pessoas tão diferentes, que vão participar da mesma festa pública, mas com especificidades, com necessidades que se diferem de pessoa para pessoa, como por exemplo, hábitos alimentares? Pode-se comer qualquer coisa?; o que é que fulano não pode comer; o que que o outro gosta mais?”.

“Ali, este convite de juntar todo mundo na mesma comunidade soava muito estranho ao sistema […] era uma novidade. Então, eu [Celso] buscava conectar uma coisa à outra: fazer a articulação entre o sistema e a tradição religiosa dos terreiros, cujo as religiões são múltiplas, porque quem viu um terreiro não viu todos! Somente em São Paulo, existem pelo menos dez diferentes religiões afro-brasileiras. Então, naquela época, nós tínhamos bastante perguntas do tipo: qual é a compreensão desse terreiro com relação a homossexualidade e consequentemente a homofobia? e como isso se dialoga com a aids? como é possível fazer prevenção de HIV/aids a partir da junção destes fenômenos? quais são as diferenças e os problemas que são colocados neste debate? […] daí, os profissionais questionavam: as pessoas tomam medicamentos? comem o que? As perguntas foram das mais simples às mais complexas”, compartilhou ao ressaltar os fatores socioculturais programáticos que influenciam a progressão do HIV, como é o caso desigual ao acesso à alimentação de qualidade. “As demandas da resposta à epidemia não se resumem a insumos de prevenção, apesar de reconhecer a importância dos mesmos.”

“Percebemos que muitas contribuições que o terreiro podia dar, já estavam lá disponíveis, uma vez que há comida adequada, aconselhamento e orientações individuais. A filosofia do terreiro e a visão de mundo destes espaços já trazia recursos suficientes para nós lidarmos com a aids de forma integral com todas as pessoas, independente de gênero, raça ou etnia”, afirmou.

Imagem: Arquivo da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo/Reprodução

Atualmente, as ações articuladas entre os terreiros e os serviços de saúde pertencentes a Rede Municipal Especializada variam entre: organização de debates, rodas de conversa e outras atividades educativas, e também a distribuição de insumos, como camisinhas, gel lubrificantes, autoteste de HIV, PEP e PrEP… tudo isso respeitando e honrando a tradição religiosa.

Saúde integral

Imagem: Arquivo da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo/Reprodução

Na entrevista, o coordenador do Projeto Xirê, ainda dividiu que o estímulo à terapia antirretroviral e o olhar integral à saúde dos indivíduos são outros pontos altos que fazem a diferença.

“Quando alguém questiona o porquê de tomar medicamento ao invés de pedir benção aos orixás, nós respondemos que o médico e o remédio são abençoados, então o fiel vai pedir a benção aos orixás, mas vai também fazer o tratamento, porque uma coisa não compete com a outra, elas são complementares!”

Para Celso, iniciativas como essa demonstram o compromisso da Coordenadoria na luta contra a aids na cidade de São Paulo. Ele celebra os muitos avanços conquistados até aqui – inclusive em âmbito nacional da resposta -, e o fortalecimento do vínculo de parceria da rede com as religiões de matriz africanas, todavia, garante que há muito trabalho ainda pela frente.

“Esta é a proposta do Xirê: juntar todo mundo na mesma roda para discutir prevenção das ISTs/aids: profissionais de saúde, líderes religiosos, os vizinhos, feirantes, a comunidade do entorno… o terreiro não pode ser compreendido como espaço fechado!”

Imagem: Arquivo da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo/Reprodução

“Começamos do zero em 2007 e hoje estamos chegando na marca de 95 terreiros atendidos, estes já com algum nível de informação de qualidade e algum nível de parceria com o sistema [da RME] ao longo de toda essa trajetória. Quando eu olho para trás, vejo que fizemos um golaço quando juntamos todo mundo para garantir acesso a bens, recursos e serviços, sobretudo para a população preta paulistana, e de forma bem considerável a comunidade de jovens gays que pertencem aos terreiros, mas nós queremos mais!”, finalizou.

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Coordenadoria Municipal de IST/Aids de SP

Tel.: (11) 2027-2196

E-mail: comunicacao.istaids@prefeitura.sp.gov.br

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