A educação sexual é uma das formas mais eficazes de prevenir e enfrentar o abuso sexual contra crianças e adolescentes

Fácil ou difícil, confortável ou desconfortável, priorizada ou negligenciada, fato é que a Educação Sexual é uma questão que gera muitas discussões e opiniões divergentes. O conceito que trata da sexualidade humana, abrangendo aspectos biológicos, psicológicos, sociais e culturais tem sido bastante difundido nos últimos anos, no entanto, a desinformação em massa ainda persegue o tema.
Para descomplicar o assunto, a Agência Aids conversou com especialistas. São pessoas que trabalham todos os dias com a pauta no Projeto de Educação em Sexualidade, na Clínica Perasso, em Santo André, no ABC Paulista.

Lara Perasso, fundadora e coordenadora da iniciativa, é formada em Psicologia, pós-graduada em Sexologia Aplicada, Educação em Sexualidade e compartilha um pouco sobre como aplicam os conhecimentos. “Nosso projeto tem como objetivo principal o trabalho preventivo. Isto é, visamos ajudar crianças e adolescentes a se munirem contra o abuso e o assédio sexual. Claro que ao longo das aulas e das discussões em grupo, percebemos gatilhos de situações vividas e que acabam por serem assimiladas durante nossos encontros. Desta forma, nossa equipe consegue encaminhar os casos em que já existiu algum tipo de vivência traumática, dando continuidade a esta luta constante que, muitas vezes, esbarra numa relação familiar disfuncional e negligente, visto que a maioria dos abusos sexuais na infância ocorrem através de pessoas próximas, como familiares, vizinhos, parentes, entre outros.”
“Apesar deste tema ser de grande importância e urgência, temos como projeto de educação em sexualidade, possibilitar um crescimento individual e social crítico, trazendo para estes jovens espaços para questionar ‘verdades absolutas’, imposições e regras sociais, muitas vezes estereotipadas e que carregam grande carga de preconceitos estruturais. Em resumo, trabalhamos temas muito além do ato sexual, abrindo espaço para que eles possam (res)significar a própria identidade, refletindo sobre a responsabilidade de cada um em busca de uma sociedade mais pacífica e saudável.”
O projeto, de iniciativa privada, que Lara lidera se propõe a levar as informações para as salas de aula de escolas públicas, privadas e/ou outros ambientes educativos a alunos de diferentes faixas etárias. Ele nasceu quando a educadora começou a ser requisitada pelo Colégio Xingu – escola particular localizada em Santo André -, para realizar suas primeiras orientações, atendendo demandas emergenciais de crianças e adolescentes que traziam problemáticas e vivências próprias com relação à orientação sexual e identidade de gênero para a sala de aula. Desde então, foi impulsionada a refletir e se engajar mais na questão.

Lá, a equipe atua com crianças a partir dos 3 anos. Com os familiares, são realizados encontros periódicos reunindo pais e cuidadores, a fim de alinhar o trabalho e fortalecer o vínculo com as figuras de cuidado.

O programa aborda a pauta da Educação Sexual também com alunos do Ensino Médio e universitários, desenvolvendo treinamentos, palestras e grupos de estudo. No âmbito escolar, direção, coordenação e corpo docente também são treinados ao longo do tempo.
Com adultos, em ambientes de trabalho, a equipe oferece consultoria para empresas e instituições que tenham como objetivo promover um ambiente múltiplo, diverso e inclusivo.

Já com pessoas da terceira idade, são articulados grupos terapêuticos e/ou eventos pontuais, com o intuito de trabalhar o tema sexualidade na fase madura, gerando discussões e reflexões sobre qualidade de vida, sexo e prazer sem tabus ou preconceitos.
O papel da escola
A comunicadora Thais Gutierrez, especialista em Educação em Sexualidade e integrante do Projeto, defende que os conhecimentos em educação sexual desempenham papel importante em diferentes frentes. A escola, por exemplo, pode ser um espaço muito proveitoso para se disseminar este assunto. No entanto, “é fundamental que as escolas ampliem as estratégias pedagógicas, adaptando os conteúdos para diferentes faixas etárias”, orienta, destacando que a compreensão e a conscientização se tornam ainda mais eficazes.
“A sexualidade é inerente aos seres humanos, onde houver espaço de convivência, os conteúdos sobre sentimentos, corpo, relacionamentos, desejos estarão presentes de diversas maneiras. Além de ser possível, é incontroverso que a linguagem e os temas devem ser adaptados por faixa etária. [Inclusive], alguns materiais publicados pela UNESCO já colaboram para nortear essa questão”, afirma a educadora, que destaca que com crianças menores, de forma lúdica, “podemos usar dinâmicas, livros ou músicas como ferramentas para que alguns conceitos básicos sejam explorados.”
Já no trabalho com crianças do fundamental I, sugere conversas, ilustrações, vídeos e gameficações que ajudem a abordar o conceito de intimidade, público e privado, compreender situações de risco, autoproteção, mudanças do corpo, limites, consentimento, respeitar seu corpo e o do outro e falar sobre as emoções.
De acordo com Thais, além de ser um momento de aprendizado e diversão, as aulas de educação sexual podem ser fundamentais para que as crianças compreendam como o próprio corpo funciona, para que nomeiem suas partes, aprendam sobre autonomia, afeto, a diferença entre toque de carinho e toque de abuso, e até mesmo expressem e nomeiem seus sentimentos. Aspectos como desejo, diversidade, autoestima, autocuidado, autoestima, protagonismo, responsabilidade afetiva, prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis, gestações precoces, entendimento sobre outros comportamentos de risco, que sendo elementos-chave no desenvolvimento integral do aluno (a), também não ficam de fora. ‘‘Vale ressaltar que crianças e jovens têm acesso cada vez mais cedo a conteúdos inapropriados através do mundo digital. Isso reforça ainda mais a importância do diálogo aberto e informação”, destaca.
Questões de gênero, diversidade sexual e prevenção

A psicóloga Luana Eugenio, pós-graduada em psicologia sexual e em sexologia, também defende estratégias pedagógicas na abordagem sobre questões de gênero, diversidade sexual, prevenção de violências, autocuidado e prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. “Algumas vezes os temas abordados em aulas de educação sexual são rodeados de tabus e preconceitos, então aproximar esses conteúdos da realidade dos adolescentes pode ser uma forma de acessá-los. Fazemos isso trazendo pautas que estão acontecendo na atualidade e também filmes e séries com os quais eles têm contato. Um ótimo exemplo são as pautas levantadas no programa Big Brother Brasil, que é permitido na maioria das casas […]. Usar dinâmicas e brincadeiras com reflexões também é uma forma de deixar o clima mais leve, e fazer com que fiquem mais participativos. As aulas têm o objetivo de trabalhar o senso crítico desses adolescentes para que eles consigam definir como se sentem em determinadas situações. A educação sexual tem que ser continuada, isso significa fazer parte de todas as matérias. À medida que todos os profissionais da escola estão alinhados nessa temática, é possível formarmos uma geração de pessoas mais sensíveis, empáticas e respeitosas para com o outro”, afirma.
Primeira infância
A pedagoga Jamily Sena diz que o trabalho em rede traz benefícios e colabora com os outros atores na promoção da educação sexual aos pequenos. “Traz uma série de benefícios, especialmente quando consideramos a interdisciplinaridade e complementaridade do tema. A colaboração entre profissionais de áreas distintas, como psicologia, educação e saúde, permite-nos uma abordagem mais ampla e integrada. A interdisciplinaridade enriquece a compreensão do assunto, e nos proporciona uma visão holística que abrange aspectos físicos, emocionais e psicológicos. A diversidade de perspectivas acaba contribuindo para a criação de programas mais abrangentes, adaptados às diferentes necessidades e realidades, e promovendo uma educação sexual mais completa e eficaz. Além disso, a colaboração em rede fortalece a capacidade de identificar sinais de abuso sexual e oferecer apoio adequado. Profissionais de diversas áreas podem contribuir para a criação de estratégias preventivas, identificação precoce e intervenção eficaz, resultando em um suporte mais efetivo para as vítimas e suas famílias.”
A partir de sua experiência no Projeto Clínica Perasso, a docente explica ainda como trabalhar tópicos mais complexos, especialmente com as crianças e adolescentes, lidando com situações em que precisa fornecer respostas para questões que podem ser desconhecidas até mesmo para você no momento, sem deixar o assunto cair no esquecimento.

“Abordar tópicos complexos como educadora exige sensibilidade e adaptabilidade. Ao lidar com crianças e adolescentes, procuro adequar a linguagem à faixa etária, utilizando recursos lúdicos para facilitar a compreensão. Em situações em que me deparo com questões desconhecidas, priorizo a honestidade, admitindo quando não tenho a resposta imediata. Nessas situações, comprometo-me a buscar informações adicionais, incentivando a curiosidade e demonstrando que aprender é um processo contínuo. Utilizo recursos como livros, materiais didáticos e, quando apropriado, consulto colegas especializados para garantir respostas precisas. Dessa forma, a gente evita que o assunto seja esquecido e criamos um ambiente de aprendizado aberto, estimulando a busca por conhecimento.”
Apesar dos avanços legislativos e da criação de leis específicas para proteger os direitos das crianças, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o Brasil ainda patina nesta temática.
A advogada Juliana Alves, especialista em Direitos Humanos, Diversidade Sexual, Racial e Religiosa, destaca os desafios enfrentados na implementação de programas de educação sexual, sobretudo nas escolas. “A opinião equivocada da sociedade impede o avanço na temática. Se fosse difundida para a população a real intenção da educação sexual, qual seja, prevenção de doenças, abuso infantil, prática de preconceito quanto a diversidade sexual e de gênero nos bancos escolares, cuidado com o corpo, incentivo ao uso de preservativos, prevenção de início precoce da vida sexual, interseccionalizado com temas como preconceito racial, machismo e lgbtfobia, poderíamos avançar cada vez mais com os projetos de lei, tal como o Ministério da Saúde e da Educação vem apontando por anos”, finaliza.
Saiba mais


Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Projeto de Educação em Sexualidade – Clínica Perasso
Instagram: @ed.em.sexualidade / E-mail: projeto.ed.sexual@gmail.com
Thais Gutierrez / Instagram: @thaisgutierrez_es
Luana Eugenio / Instagram: @luanaeugeniopsi_
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Juliana Alves de Oliveira / Instagram: @juliana_alves_advogada
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