15/3/2007 – 19h30
Penitenciária Feminina de Sant’Ana. Cerca de 3 mil mulheres confinadas em três pavilhões e nenhum ginecologista para atende-las. “Aquilo é um depósito de seres humanos”, criticou a coordenadora do Coletivo de Feministas Lésbicas, Marisa Fernandes. O sistema prisional feminino foi o alvo de indignação das mulheres que participaram na tarde desta quinta (15) do III Seminário Destaque Mulher, promovido pelo Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo. Depois das críticas, a coordenadora do Programa, Maria Cristina Abbate, sugeriu uma parceria entre o órgão da prefeitura e o Condepe (Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana) para pensar em estratégias de saúde no local.
“Precisamos entender que a questão da pasta é importante. Não adianta apenas adentrar um presídio, nós, como Saúde, se a Secretaria de Segurança Pública diz que já existe este serviço internamente. Precisamos estabelecer fluxo [com as presidiárias] e montar estratégias”, disse a coordenadora do PM-DST/Aids de São Paulo, Maria Cristina Abbate. Ela realizou o convite para Marisa Fernandes, que também é tesoureira do Condepe, órgão que tem poder para realizar ações no sistema prisional.
As outras funcionárias de saúde, que assistiram o evento, preencheram uma lista para participarem como voluntárias de futuras ações em penitenciárias femininas.
“Trouxe essa questão aqui, porque quis sensibilizá-las. As mulheres no sistema prisional são desfavorecidas, mais que os homens”, afirmou Fernandes. Ela relembrou que há 10 anos, o sistema prisional feminino não permitia visita íntima. “A partir de 2000, houve uma mudança, mas ainda sim as mulheres têm direito a apenas 2 horas por mês de contato íntimo. Já os homens, todos os domingos. O governo vem com a desculpa que homem precisa mais de sexo para não realizar rebeliões”, critica Fernandes.
A ativista também atacou o Conselho Regional de Medicina, que em janeiro exigiu a suspensão de atendimentos de presos em hospitais públicos, enquanto não houvesse mais segurança para os médicos. “Ora, as facções vão atrás dos bandidos e não dos médicos. Quantas de vocês já ouviram relatos de funcionários baleados ou mortos?”, perguntou ela à platéia do evento, em que nenhuma pessoa levantou a mão no momento de seu discurso. “ Casos envolvendo mulher presidiária então, nem se fala, só se for a Maria do Pó, do contrário ninguém nem conhece algum caso assim”, acrescentou Fernandes.
A diretora da ONG Fala Preta, Deise Benedita, relembrou da saúde no sistema colonial brasileiro, em que os escravos tinham uma boa saúde, mantida pelos donos, por serem considerados mercadorias. Depois, lamentou sobre a situação da violência brasileira. “O Estado é cúmplice desse quadro, na medida que não oferece assistência à moradia e à educação de qualidade para pessoas pobres”, disse.
Benedita contou também as mulheres são vítimas de traficantes, principalmente quando ficam grávidas. “O parceiro liga para a polícia, faz uma denúncia anônima e diz em qual local a fulana estará entregando drogas e assim se livra dela e do bebê”, relatou.
Deise afirmou também que a maioria dos pacientes do SUS são negros, as principais vítimas da pobreza que sofrem com atendimento. “A maioria dos brancos possuem planos de saúde. O que precisamos é acabar com o descaso de médicos dos sistema público que tratam os pacientes por número. ‘Hoje eu tenho x cabeças para atender’”, desabafou.
Rodrigo Vasconcellos



