O Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, foi palco de um protesto na manhã dessa sexta-feira (3), organizado pela Associação dos Médicos do Emílio Ribas, pela Associação dos Médicos Residentes, pela Residência Multiprofissional e com apoio de entidades sindicais como o Simesp e o SindSaúde-SP. Médicos residentes, profissionais da saúde e apoiadores denunciaram o bloqueio de leitos em enfermarias e UTIs e o atraso de cerca de 50 dias no pagamento de trabalhadores. O ato também teve como foco a crítica à terceirização de serviços e a cobrança pela imediata convocação de profissionais concursados.

Durante a manifestação, os participantes exibiram cartazes com mensagens como “Terceirizar é precarizar”, “O SUS não está à venda”, “Saúde não é mercadoria”, “Basta de precarização” e “Queremos Emílio Ribas por inteiro”. Também se viam frases como “Convocação de concursos já” e “Buzine a favor do SUS”, chamando atenção de quem passava pelo local.
Crise nos leitos e atraso de salários

“A gente foi surpreendido pela segunda vez no ano com leitos bloqueados por problemas em contratos de terceirizada. Isso gera descontinuidade e desassistência aos nossos pacientes”, afirmou a médica infectologista Cláudia Melo, diretora da Associação dos Médicos.
Ela destacou que o impacto direto foi imediato:
“Tivemos pacientes que tiveram que descer para o pronto-socorro, em estado grave, porque não havia vagas na UTI. Metade das vagas ficaram bloqueadas por uma semana. Pelo menos cinco pacientes foram prejudicados diretamente”.

Cláudia também ressaltou a rotatividade imposta pela terceirização:
“De março de 2024 até agora, na enfermaria que está inteira terceirizada, já tivemos cinco diferentes chefes de enfermagem. Não há tempo de treinar adequadamente os profissionais e isso impacta na assistência e na formação dos residentes. O Emílio Ribas é o maior formador de infectologistas do país, e essa precarização compromete até a formação médica”.

Para os residentes, o atraso salarial é um dos pontos mais graves. Bernardo Vale, residente do terceiro ano e vice-presidente da Associação de Residentes, relatou:
“Tem enfermeiros e técnicos que não conseguem nem vir trabalhar porque estão dois meses sem receber salário. Não é greve, não é falta de vontade. É que não têm dinheiro nem pra pagar a passagem. Isso é um absurdo” .

Bernardo lembrou ainda da longa novela da obra de expansão do hospital, iniciada há 11 anos:
“Essa é talvez a única reforma da história que diminuiu a capacidade de um hospital. Em 2014 tínhamos 200 leitos, hoje temos menos da metade. A promessa era de 330 leitos em três anos, e já se passaram 11 anos. Não vamos parar de protestar até termos os leitos abertos e funcionando”.
Prejuízos aos pacientes

O residente Estevão Arantes, do segundo ano de infectologia, também destacou os efeitos da crise diretamente na assistência:
“Metade da nossa UTI está desabastecida porque depende de profissionais terceirizados sem salário. Casos graves estão sendo manejados em enfermarias, o pronto-socorro está lotado porque não há leito na UTI. Isso impacta diretamente na vida dos pacientes, que não são casos simples, são casos complexos, de um hospital de referência” .

Ele reforçou que a reivindicação é imediata:
“O governo precisa regularizar os pagamentos, finalizar a reforma e reabrir leitos. Só assim vamos retomar o que já fomos”.
Marcha até a Secretaria de Saúde

O protesto não se restringiu à frente do hospital. Os manifestantes deram a volta no quarteirão e realizaram uma paralisação em frente à Secretaria de Estado da Saúde, exigindo falar com o secretário ou sua assessoria, o que não aconteceu.
Diante dos portões da Secretaria, os gritos ecoaram:
“Secretário, cadê você? Nós viemos aqui para receber!” e “Que decadência! O seu calote gerou desassistência!”. Após a pressão, o grupo retornou ao ponto inicial, em frente ao Emílio Ribas, onde encerrou a mobilização.
Histórico de lutas
O panfleto distribuído no ato reforçava que a terceirização é “inadmissível” diante da existência de médicos e enfermeiros já aprovados em concurso aguardando convocação. O texto também lembrava que o hospital acumula 145 anos de história, foi linha de frente em epidemias de Covid-19, dengue e Aids, e é o maior formador de residentes em infectologia da América Latina.
“Não basta nossa trajetória para que o governo reconheça a importância desse instituto?”, questionavam os trabalhadores no documento.
Cobranças diretas

Os profissionais encerraram o ato com um recado direto ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas:
“Chame imediatamente os profissionais concursados que aguardam apenas uma decisão sua para começar a atender adequadamente a população e seguir com a missão do nosso instituto”, exigiu Cláudia Melo.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins



