Profilaxia e mulheres: desafios no combate ao HIV

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A cada semana, 4.000 jovens mulheres cisgênero entre 15 e 24 anos de idade contraem o HIV em todo o mundo, conforme dados de 2023. As infecções nessa faixa etária representaram 44% das novas infecções globais naquele ano, destacando a vulnerabilidade dessa população ao vírus da aids.

Em 2022, cerca de 20,2 milhões de mulheres e meninas cisgênero viviam com HIV ou aids, totalizando 53,5% de todos os casos registrados globalmente. Apesar da gravidade desses números, a conscientização e o acesso a opções preventivas, como a profilaxia pré-exposição (PrEP) e pós-exposição (PEP), permanecem limitados, tanto para as mulheres quanto para os profissionais de saúde que deveriam recomendá-las.

No Brasil, o cenário reflete essa realidade preocupante. Dados do Boletim Epidemiológico de HIV e Aids, publicado em dezembro de 2024 pelo Ministério da Saúde, apontam que, entre 2013 e 2023, foram registrados 125.753 casos de HIV em jovens de 15 a 24 anos, correspondendo a 23,2% do total nacional.

Desses, 24,8% ocorreram entre homens e 19,4% entre mulheres, evidenciando a urgência de políticas públicas voltadas à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao tratamento acessível para essa faixa etária.

Outro dado alarmante diz respeito ao aumento de infecções entre mulheres acima de 50 anos. Nesse grupo, a proporção de casos femininos cresceu de 12,8% em 2013 para 21,1% em 2023, enquanto, entre os homens, o aumento foi de 9% para 12%. Esses números ressaltam a importância de estratégias que levem em conta as especificidades de diferentes estágios da vida feminina, como a profilaxia, a detecção precoce e a prevenção da transmissão vertical do HIV.

Barreiras invisíveis

Embora as mulheres enfrentem riscos significativos de contrair o HIV, uma teia de barreiras interligadas impede o uso generalizado da PrEP e da PEP por essa população. A percepção equivocada de risco pessoal é uma das principais dificuldades.

Um estudo realizado nos Estados Unidos revelou que apenas 37,5% das participantes mostraram interesse inicial na PrEP. Após sessões educativas sobre o medicamento, esse número despencou para 2,8%, destacando como a subestimação do risco é um obstáculo crítico à adoção de medidas preventivas.

A falta de conhecimento sobre a PrEP também é evidente. Uma revisão sistemática nos Estados Unidos mostrou que apenas um terço das mulheres já havia ouvido falar da profilaxia, embora muitas demonstrassem interesse ao receber mais informações.

Esse problema é agravado pela ausência de campanhas educativas específicas e pelo estigma associado ao uso do medicamento. Em uma pesquisa de 2017 com 597 mulheres em clínicas de planejamento familiar, 37% associaram o uso da PrEP à promiscuidade, e 32% acreditavam que seria um sinal de soropositividade, desencorajando discussões com seus profissionais de saúde e perpetuando o ciclo de desinformação.

Outro desafio significativo é a falta de orientação adequada por parte dos profissionais de saúde. Muitos provedores hesitam em prescrever a PrEP devido a lacunas no treinamento ou desconhecimento das diretrizes. Além disso, interações negativas com provedores de saúde foram citadas em outro estudo dos Estados Unidos como uma das principais razões para a interrupção do uso da profilaxia. Isso ressalta a necessidade de capacitação profissional contínua e de um acompanhamento mais sensível e consistente para as pacientes.

Barreiras socioeconômicas e estruturais também pesam sobre a adesão. Custos elevados, falta de cobertura por seguros de saúde e acesso limitado a serviços médicos são fatores frequentemente mencionados.

Na África do Sul, um estudo qualitativo com mulheres com alto grau de instrução revelou que o julgamento social e as dinâmicas de relacionamento são fatores que frequentemente dificultam o acesso à PrEP. Esses desafios transcendem fronteiras e destacam a necessidade de uma abordagem integrada e sensível para promover a prevenção e o cuidado.

Avanços nas opções de profilaxia

A evolução das opções de profilaxia para o HIV traz um fio de esperança para enfrentar a epidemia de forma mais eficaz. Atualmente, além dos métodos orais tradicionais, novas alternativas emergem como promessas para facilitar a adesão e reduzir o estigma associado ao tratamento.

Recentemente, um guia publicado no periódico Therapeutic Advances in Infectious Disease destacou abordagens inovadoras para a profilaxia do HIV em mulheres, um marco significativo em um campo historicamente negligenciado. Essas estratégias incluem avanços tecnológicos e medicamentosos que buscam aumentar a adesão, melhorar a eficácia e reduzir as barreiras sociais, culturais e logísticas enfrentadas pelas mulheres.

Entre as inovações mais promissoras está o cabotegravir injetável de longa duração, um medicamento antirretroviral que demonstrou eficácia superior à da combinação oral de tenofovir e entricitabina (TDF/FTC). Em estudos clínicos, o cabotegravir reduziu drasticamente a incidência de HIV, sendo administrado a cada dois meses. Essa opção oferece maior discrição e conveniência, fatores cruciais para mulheres que enfrentam dificuldades com o uso diário de comprimidos, como restrições de tempo, estigmatização ou dinâmicas sociais desafiadoras.

Outra alternativa inovadora é o anel vaginal contendo dapivirina, aprovado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Esse dispositivo, de uso mensal, é uma ferramenta preventiva altamente eficaz, especialmente para mulheres em situações de maior vulnerabilidade social ou com acesso limitado a cuidados médicos. Estudos demonstraram que o anel pode reduzir a incidência de HIV em até 62%, além de ser bem tolerado e facilmente aceito pelas usuárias.

Os implantes subdérmicos também estão sendo explorados como uma solução de liberação prolongada de antirretrovirais. Esses dispositivos têm potencial para fornecer proteção contínua por meses, minimizando a necessidade de acompanhamento médico frequente e aumentando a autonomia das mulheres sobre sua saúde sexual.

Adicionalmente, filmes vaginais contendo nanomicelas de bictegravir estão sendo testados em ensaios clínicos como uma opção preventiva prática e discreta. Embora ainda em fases iniciais, esses métodos destacam a convergência entre avanços farmacêuticos e as necessidades específicas das mulheres.

No Brasil, o Ministério da Saúde adota estratégias consagradas para a profilaxia pré e pós-exposição ao HIV, conforme descrito no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) de 2022.

Para a PrEP, a combinação de TDF/FTC é recomendada como um comprimido diário, oferecendo proteção eficaz tanto para homens quanto para mulheres em risco elevado de infecção pelo HIV.

Já para a PEP, o protocolo inclui um esquema com três antirretrovirais ─ tenofovir, lamivudina e dolutegravir ─ administrados por 28 dias após exposição de alto risco. Além disso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também aprovou o cabotegravir, importante indicação para profilaxia no Brasil.

Profilaxia para populações especiais

Populações femininas vulneráveis ao HIV enfrentam desafios que, embora diversos em suas origens, compartilham barreiras sociais, culturais e estruturais que dificultam o acesso e a adesão à profilaxia.

Tais peculiaridades também foram contempladas no guia publicado no periódico Therapeutic Advances in Infectious Disease. Mulheres grávidas e no pós-parto, vítimas de violência íntima e adolescentes ilustram como vulnerabilidades distintas podem convergir em obstáculos semelhantes e, ao mesmo tempo, apontam caminhos para estratégias mais inclusivas e eficazes.

Gestantes ou puérperas, por exemplo, carregam o duplo fardo de proteger a própria saúde e prevenir a transmissão vertical do HIV para seus bebês. Estudos demonstram que a profilaxia com TDF/FTC é segura e eficaz, mas o estigma social e a falta de diretrizes consistentes em alguns países tornam essa etapa desafiadora.

Similarmente, adolescentes e jovens mulheres enfrentam normas de gênero e expectativas sociais que muitas vezes dificultam a busca pela prevenção, perpetuando a desinformação e o estigma. Em ambos os casos, o medo do julgamento e a ausência de apoio comunitário são barreiras comuns.

As vítimas de violência íntima, por outro lado, enfrentam dinâmicas de poder em suas relações que frequentemente limitam sua capacidade de decidir sobre cuidados preventivos. O receio de revelar o uso da PrEP aos parceiros e a desconfiança em relação aos sistemas de saúde espelham as dificuldades enfrentadas por adolescentes e jovens mulheres em contextos em que normas patriarcais restringem sua autonomia. Em todos esses cenários, a construção de redes de apoio e a promoção de confiança entre as usuárias e os provedores de saúde são intervenções fundamentais.

Embora as histórias sejam diferentes, um denominador comum une essas populações: a necessidade de abordagens sensíveis que reconheçam suas especificidades, mas que também lidem com os pontos convergentes. Desde a integração de serviços de PrEP em clínicas de saúde reprodutiva até campanhas educativas que envolvam comunidades, cada ação pode contribuir para transformar a profilaxia em uma ferramenta acessível e eficaz.

 

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