A resposta global ao HIV enfrenta um momento decisivo. Após décadas de avanços, especialistas alertam que a redução no financiamento e a perda de prioridade política para a prevenção podem comprometer conquistas históricas e reacender o crescimento de novas infecções em todo o mundo.
Dados recentes apontam que o número de novas infecções permanece estagnado em níveis elevados: foram 1,3 milhão de novos casos tanto em 2023 quanto em 2024. O cenário revela que o mundo ainda está distante de encerrar a pandemia, embora experiências bem-sucedidas mostrem que esse objetivo é possível.
Até o fim de 2024, cinco países — Lesoto, Malawi, Nepal, Ruanda e Zimbábue — conseguiram reduzir em 75% as novas infecções por HIV em comparação com 2010. Os resultados reforçam que, com estratégias adequadas e financiamento contínuo, a trajetória da epidemia pode ser revertida.
É nesse contexto que surge o novo Quadro Global de Acesso à Prevenção do HIV 2030, estruturado a partir do Unaids e da Coalizão Global para a Prevenção do HIV, em alinhamento com a Estratégia Global de Aids 2026–2031.
A proposta estabelece metas ambiciosas: até 2030, garantir que 90% das pessoas que necessitam de serviços de prevenção tenham acesso a eles e que 90% das pessoas vivendo com HIV alcancem carga viral indetectável. A combinação dessas ações pode levar a uma redução de 90% nas novas infecções globalmente.
“Nossa visão é que todas as pessoas necessitadas tenham acesso a opções de prevenção do HIV. Isso é possível se os investimentos em prevenção forem robustos e sustentáveis, se os países garantirem o uso eficaz dos recursos e se os programas forem baseados em evidências e fundamentados nos direitos humanos, com as comunidades no centro”, disse Angeli Achrekar, diretora executiva adjunta o Unaids.
Priorizar quem mais precisa
O novo quadro organiza a resposta global a partir de cinco eixos estratégicos — conhecidos como “cinco Ps”: pessoas, lugares, plataformas, pacotes e preço. A lógica é direcionar recursos para quem mais precisa, focar nos territórios com maior incidência, ampliar canais de acesso, diversificar as opções de prevenção e garantir sustentabilidade financeira.
A estratégia também reforça a necessidade de fortalecer programas liderados pelos próprios países, com maior financiamento doméstico e soluções adaptadas às realidades locais.
Entre as metas numéricas estabelecidas para 2030 estão: 40 milhões de pessoas vivendo com HIV em tratamento antirretroviral, 20 milhões com acesso à profilaxia pré-exposição (PrEP), distribuição de 20 bilhões de preservativos e a destinação de pelo menos 20% do financiamento nacional para ações de prevenção.
Inovação e acesso ampliado
O avanço científico tem ampliado significativamente as possibilidades de prevenção. Entre as principais novidades estão tecnologias de longa duração, como o lenacapavir — uma injeção aplicada a cada seis meses para prevenir o HIV.
Além disso, novas formas de acesso ganham destaque: serviços de saúde livres de estigma, iniciativas comunitárias, farmácias, plataformas digitais e soluções de telessaúde voltadas especialmente para jovens, incluindo ferramentas apoiadas por inteligência artificial.
“O custo da inação é prejudicial. Inovações, incluindo novas opções de prevenção de longa duração, especialmente o lenacapavir, ampliaram o leque de alternativas de prevenção. Agora, velocidade, escala e equidade ainda são necessárias para traduzir descobertas científicas promissoras em impacto na saúde pública”, disse Mitchell Warren, copresidente da Coalizão e diretor executivo da AVAC. “A história nos julgará severamente se nós, como comunidade global, falharmos neste momento científico.”
Lacunas persistentes no financiamento
Apesar dos compromissos internacionais, o financiamento para a prevenção ainda está aquém do necessário, sobretudo em países de baixa e média renda. Especialistas defendem que governos direcionem ao menos um quinto de seus orçamentos para HIV exclusivamente à prevenção.
Isso inclui garantir acesso a insumos essenciais, como medicamentos antirretrovirais, preservativos, agulhas e seringas, além da circuncisão masculina voluntária como estratégia preventiva.
“Um mecanismo global de prevenção eficaz deve reforçar a liderança nacional, salvaguardar e otimizar o financiamento da prevenção e alinhar parceiros e recursos às prioridades e sistemas de cada país. Isso reduzirá a fragmentação e fortalecerá a priorização e a tomada de decisões oportunas, para que os recursos disponíveis sejam plenamente aproveitados para gerar impacto”, afirmou Nduku Kilonzo, copresidente da Coalizão.
Jovens e populações vulneráveis no centro
A resposta global também enfatiza a necessidade de integrar a prevenção do HIV à saúde sexual e reprodutiva, com atenção especial a populações historicamente mais vulneráveis.
“O futuro da resposta ao HIV será determinado pela nossa capacidade de implementar a prevenção combinada em larga escala, fundamentada nos direitos humanos e na dignidade, liderada por governos, comunidades e jovens, e integrada à saúde sexual e reprodutiva. O UNFPA está empenhado em atender às necessidades de todos os grupos populacionais, em especial as de meninas adolescentes e mulheres jovens. Continuaremos trabalhando com parceiros para sanar as lacunas críticas e garantir que ninguém seja deixado para trás”, afirmou Pio Smith.
Uma corrida contra o tempo
Com metas claras e ferramentas mais eficazes do que nunca, o desafio agora é transformar compromisso em ação. Para o Unaids e seus parceiros, o sucesso da resposta global dependerá da capacidade de acelerar investimentos, ampliar o acesso e garantir que a prevenção seja tratada como prioridade absoluta.
Sem isso, alertam especialistas, o mundo corre o risco de perder uma oportunidade histórica de controlar a epidemia — e salvar milhões de vidas.
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações do Unaids




