Prevenção ao HIV vai muito além da camisinha: especialistas recomendam combinar estratégias

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

O HIV e os métodos de prevenção combinada. - DFÁguasClaras

Nas últimas décadas, a abordagem da prevenção ao HIV/aids centrava-se somente no uso do preservativo. No entanto, se antes a conversa circundava exclusivamente o uso da camisinha, atualmente testemunhamos uma mudança de paradigma desde a chegada da prevenção combinada.

Se você quer saber como se cuidar e proteger sua saúde sexual, ou se algo deu errado, como um problema com a camisinha, a prevenção combinada pode ser a resposta! Confira o guia que a Agência Aids preparou junto com especialistas no assunto:

A estratégia conhecida como prevenção combinada consiste na integração de diversos métodos preventivos, tais como: a profilaxia pré-exposição (PrEP); profilaxia pós-exposição (PEP); redução de danos; testagem regular para o HIV; testagem das ISTs (Infecções sexualmente transmissíveis) e hepatites virais; imunização para as hepatites A e B; tratamento de pessoas vivendo com HIV/aids; prevenção da transmissão vertical; gel lubrificante e o tradicional uso de preservativo interno e externo.

PrEP 

Em entrevista à Agência Aids, o infectologista Álvaro Furtado, do Centro de Referência e Treinamento em São Paulo, esclarece que a PrEP é empregada de forma preventiva, ou seja, antes da atividade sexual. “A profilaxia pré-exposição é estudada desde 2010 e está disponível nos serviços de saúde. Utilizando o medicamento corretamente todos os dias, antes da exposição, reduz para quase 1% a chance de contrair o vírus.”

PEP

Quanto à PEP, o médico explica que tem a finalidade oposta, sendo aplicada em situações de emergência, como em caso de rompimento da camisinha durante uma relação sexual. Se o medicamento for administrado em até 72 horas após a exposição ao vírus e durante 28 dias consecutivos e ininterruptos, as chances de contrair o HIV/aids também são mínimas.

Imagine que alguém teve uma situação de risco, como uma relação sexual desprotegida, foi vítima de violência sexual de alguma natureza ou compartilhou agulhas possivelmente infectadas ou outros objetos perfurantes. Em casos como este, a PEP também funciona como uma intervenção de emergência, impedindo que o vírus entre no seu organismo e estabeleça uma infecção. 

Como é um atendimento de urgência, a PEP está disponível em todos os serviços de urgência e emergência – em serviços públicos e privados -, além dos centros especializados como CTAs/SAE.

Testagem regular

Prefeitura de Itapevi oferece testes rápidos para detectar HIV e ISTs - Agência Itapevi de Notícias

Dr. Álvaro destaca que a testagem regular e em massa da população é uma estratégia altamente eficaz. Ao conhecer a condição sorológica, é possível planejar os passos seguintes. “O tratamento de pessoas soropositivas, além de prolongar seu ciclo de vida e proporcionar melhor qualidade de vida para as mesmas, acelera o enfrentamento da doença no país. Tratando todas as pessoas que vivem com HIV/aids, existe a chance de o vírus chegar a um nível tão baixo no corpo que os pacientes se tornam i=i, ou seja, indetectável é igual a intransmissível, consequentemente a circulação do vírus é barrada.”

Redução de danos

O infectologista não deixa de abordar a redução de danos, que envolve um conjunto de medidas que buscam minimizar os impactos físicos e psicológicos causados por psicoativos em quem faz uso de alguma substância, incluindo a troca de seringas para usuários de drogas injetáveis.

Imunização

Imunizar para hepatite A (HAV), hepatite B (HBV) e HPV; e testar-se regularmente para o HIV também é vital na prevenção. Essa também é uma maneira de monitoramento da saúde sexual.

Rastreio de ISTs

Diagnosticar e tratar todas as pessoas com HIV/aids e outras ISTs  é mais uma opção estratégica preventiva eficaz, já que também o diagnóstico precoce permite intervenções rápidas, inserindo estas pessoas à TARV o quanto antes, interrompendo então o ciclo de transmissibilidade. Além disso, o tratamento do HIV reduz a carga viral a níveis tão baixos, que torna o sujeito HIV+ indetectável e intransmissível [I=I].

Gel lubrificante

Na Mandala da Prevenção Combinada, um gel lubrificante à base d’água também compõe a prevenção. O uso de lubrificantes pode reduzir o atrito durante a atividade sexual, consequentemente reduzindo o risco de fissuras na região vaginal ou perinatal, que podem servir como ‘porta de entrada’ para o vírus. Utilizar um lubrificante à base d’água combinado com ao preservativo também evita desconforto, proporcionando mais prazer.

Pré-natal

Mulheres negras têm mais chance de enfrentar complicações na gravidez, mostra estudo - Revista Crescer | Gravidez

De acordo com o especialista, testagem em gestantes e realização de pré-natal adequado desde o início da gestação, “são ações que evitam a transmissão vertical, ou seja, que o vírus seja passado da mãe para o bebê.”

Mandala da prevenção

Todas essas estratégias estão representadas na Mandala de Prevenção, um gráfico circular criado pelo Ministério da Saúde em 2016, utilizado em capacitações para ilustrar de maneira lúdica e didática cada forma de prevenção.

Basicamente, a Mandala da Prevenção Combinada é uma representação gráfica que simboliza uma abordagem holística e integrada da prevenção, direcionada especificamente ao HIV. Nela, une-se aspectos biomédicos à aspectos sociais e comportamentais, com objetivo de uma maior compreensão do cuidado à saúde sexual. No Brasil, a prevenção combinada tornou-se política pública de saúde pelo Ministério da Saúde (MS), no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

Médicos e outros profissionais da saúde reforçam a importância da camisinha, ao mesmo tempo que enfatizam que não se deve considerar o preservativo convencional como a única forma válida e eficaz de prevenção. Para eles, as diversas estratégias de prevenção, quando combinadas, são de suma importância, considerando o contexto de vida de cada indivíduo e acelerando o enfrentamento das doenças, sobretudo da aids, no país.

“A camisinha ainda é extremamente válida, e as pesquisas no Brasil mostram que a maioria das pessoas opta por ela”, afirma Álvaro.

Ivone de Paula, gerente de Prevenção do Programa Estadual de IST/Aids de São Paulo, partilha da mesma perspectiva. “O uso do preservativo continua sendo uma referência estratégica de prevenção, diferente do que pensam, ele continua na moda sim, é importante que as pessoas saibam usar e que saibam que podem encontrar na rede pública de forma gratuita.”

Ela continua: “Sabemos que muitas pessoas não costumam ir ao serviço de saúde e se estiver no caminho do jovem facilita o acesso e facilita o uso’’, explicou, completando que “existem outras alternativas de prevenção.”

Ivone chama a atenção para o fato de que a PrEP não protege contra todas as ISTs, somente contra o HIV, por isso reforça a relevância da camisinha. Ela aproveita também para destacar que uma comunicação clara, afetiva e direcionada pode ser transformadora, e que todas as estratégias de saúde pública precisam chegar na ponte, ou seja, em quem mais precisa. “A gente precisa levar esse conhecimento para o jovem que está na escola, aqueles que ainda não iniciaram a vida sexual, precisamos levar os métodos de prevenção principalmente para as periferias, para a população negra, a população pobre. A gente tem a política, temos rede especializada, mas o acesso não é igual. O menino branco, rico ou de classe média acessa, mas aquele rapaz negro e homossexual da periferia ele não tem o mesmo acesso”, destaca Ivone.

Acesso à informação didática e inclusiva

“É preciso saber comunicar, levar a informação certa, da forma certa, para a pessoa certa e no momento certo, então, um desafio bem importante é como vamos comunicar com os jovens sobre tudo isso. Precisamos de uma linguagem apropriada, meios de comunicação apropriados. Se antigamente fazíamos um folder e o jovem pegava e achava bacana, hoje os jovens já não querem saber de papel, eles não têm nem bolso para guardar o papel. Então a gente precisa ir para as redes sociais, para os aplicativos de relacionamento. Nós da prevenção precisamos estar nestes lugares para falar com este público, mas falar de uma forma bacana também para que eles se interessem.’’

Dr. Álvaro Furtado partilha da mesma opinião e destaca que existe um desafio evidente de desigualdade no acesso às tecnologias e fragmentação de serviços no sistema de saúde.

“A nossa maior dificuldade é fazer com que a informação chegue à população de forma universal, são muitas as disparidades. Precisamos falar longe dos centros urbanos, precisamos falar onde as pessoas pretas, as pessoas trans moram […] mas apesar do conhecimento da população ainda ser escasso, se o nosso planejamento englobar todas as estratégias, eu acredito que conseguiremos avançar.”

O infectologista acredita que é preciso falar com clareza sobre a importância do sexo seguro. “Falar de sexo é tabu num país como o Brasil que é tradicionalmente machista, é difícil falar de educação sexual, tratar a questão do sexo nas escolas, falar das pessoas gays, trans, isso gera dificuldade em a informação chegar nas pessoas.’’

“Há pessoas que optam por uma abordagem, outras que escolhem uma diferente e aquelas que combinam ambas. É crucial conhecer as alternativas, especialmente para as pessoas mais vulneráveis, e poder contar com a orientação de um profissional”, destaca o infectologista em última análise.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Apoios