Nem todo corpo é ouvido, mas todo corpo carrega uma história. Com esse chamado potente, o coletivo Preto Positivo chega a Belo Horizonte no dia 1º de novembro para realizar a oficina “Corpos que Contam” — um encontro voltado para pessoas LGBTQIAPN+ migrantes, que vivem ou não com HIV, e que desejam transformar suas vivências em potência coletiva.
A iniciativa, apoiada pelo Programa de Apoio ao Trabalho de Direitos Humanos LGBTQ+ na América Latina e Caribe, criado pela MPACT Global, propõe um espaço de escuta, arte e reconstrução emocional. Mais do que uma atividade formativa, “Corpos que Contam” é um ato político de cuidado, que compreende a saúde mental como parte essencial da resistência LGBTQIAPN+.
A programação contará com o psicólogo Ítalo Andrade (BH) e o arteterapeuta Jean Carlos (SP), conduzindo experiências de criação artística e fortalecimento emocional.
Em entrevista à Agência Aids, o diretor criativo e um dos fundadores do Preto Positivo, Raul Nunnes, fala sobre arte, cura e a urgência de criar espaços de acolhimento em meio a tempos de retrocessos.
A origem: do online ao encontro presencial

A oficina nasceu do desejo de transformar o Preto Positivo — conhecido por sua atuação digital — em um espaço também presencial, de troca e afeto.
“Essa oficina já nasceu de uma vontade minha e do Emer (Conatus) de fazer atividades de forma offline, de contato com pessoas. A gente entende que a arte é uma forma de potencializar vozes e canalizar emoções.”
Raul explica que o projeto surge de um desejo de expandir o trabalho para além das redes: “O Preto Positivo para de pensar no ‘eu vivo com HIV’ e passa a pensar no ‘o que juntos podemos fazer para melhorar a vida e a saúde mental da comunidade LGBTQIA+’.”
Corpos e histórias que precisam ser ouvidos
O nome “Corpos que Contam” não é à toa. A proposta é reunir histórias que, muitas vezes, ficam silenciadas.
“Eu quero escutar novas narrativas de pessoas que saem de espaços onde não se sentem acolhidas e buscam um voo maior. Quero entender quem são, o que buscam, como está a saúde mental delas.”
Realizar o encontro em Belo Horizonte, sua cidade natal, também tem um peso simbólico. “Aqui isso ainda é muito preso, muito silenciado. Então quero que essas vozes sejam potencializadas, pra criar novas narrativas e redes de acolhimento.”
Resistir com arte e afeto
Quando fala de resistência, Raul fala também de cuidado — e a arte, para ele, é o caminho.
“Resistir significa encontrar o seu espaço no mundo. Quando você é uma pessoa LGBTQIAPN+, que vive ou não com HIV, ou que é migrante, sempre tem que dar dez vezes mais para conseguir esse espaço.”
Para o fundador do Preto Positivo, o autocuidado e a saúde mental são pilares da luta coletiva. “O HIV hoje é uma infecção, mas ele sempre afeta mais o psicológico do que o físico. Quando o emocional não está bem, acontecem os abandonos de tratamento, a rejeição, a não aceitação. Criar redes de apoio é essencial.”
A arte como cura
Desde o início, o Preto Positivo usa a arte como ferramenta política e emocional. “O Preto Positivo nasceu da expressão minha e do Emer. A gente sempre criou conteúdos ligados à arte, à moda, à música. A psicologia entra nesse lugar de autocuidado mesmo.”
A arte, diz Raul, é também uma forma de cura: “Seja escrita, pintada, cantada ou tocada, a arte é um condutor de vida. Quando a gente fala, cria e se reconhece, abre espaço para um novo capítulo coletivo.”
Migrar com afeto
A oficina é voltada a pessoas LGBTQIAPN+ migrantes, um público que vive deslocamentos, mas também reinvenções.
“Cada cidade acolhe de um jeito. BH é acolhedora, mas ainda há resistência quando se trata de uma pessoa LGBTQIAPN+. Tem um chileno que veio pro Brasil porque não conseguia tratamento lá. Ele migrou pra sobreviver.”
Migrar, diz Raul, é também reconstruir o sentido de casa — e o Preto Positivo tenta criar esse lar simbólico.
“Criamos esse espaço através do podcast, que potencializa vozes de ativistas, mães e pessoas que vivem nossa realidade. Todo espaço criado com afeto é um espaço de ressignificar a vida.”
Negritude, HIV e acolhimento
A negritude atravessa a oficina — não como pauta isolada, mas como base de cuidado e reconhecimento.
“São vidas negras acolhendo vidas negras. O foco não é exclusivo em HIV, mas o acolhimento está presente, entendendo as realidades de diferentes cidades e países.”
Hoje, Raul vê o HIV como parte de sua rotina — uma marca que deixou de ser fardo para virar força. “Já são oito, nove anos vivendo com HIV. Falar sobre isso me colocou num lugar de conforto. Eu não preciso ter medo disso.”
Transformar histórias
Raul reflete ainda sobre o que espera da oficina — tanto para o público quanto para si. “Quero que as pessoas entendam que não estão sozinhas. Existem grupos, instituições dispostas a ouvir e ajudar. E quero entender a realidade delas para pensar, junto com nossos parceiros, novas formas de acolher.”
O mote da oficina — “Nosso corpo guarda o que a história não contou” — sintetiza o espírito da jornada:
“Temos direito de contar o que sentimos. Quando contamos uma história que o corpo guarda, podemos transformar vidas. Que essas pessoas usem suas histórias pra serem mais leves, mais livres.”
Um espaço de afeto e reconstrução
Ainda há vagas limitadas para participar da oficina. As inscrições podem ser feitas por mensagem direta no perfil @pretopositivo.
“Queremos continuar com novas edições, mas dependemos de apoio financeiro. A ideia é que seja presencial, porque é diferente. A emoção vem de outra forma.”
Com “Corpos que Contam”, o Preto Positivo inaugura um novo ciclo de ações. Uma jornada guiada por arte, política e afeto — porque, como diz Raul, “Todo espaço criado com afeto é um espaço de ressignificar a vida.”
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Preto Positivo
Instagram: @pretopositivo



