Presidente da AIDS 2026, dra. Beatriz Grinsztejn, dá nota 6 para a resposta global ao HIV e alerta: “Acesso às novas tecnologias ainda é uma questão enorme”

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A 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2926) começou neste domingo (26), no Rio de Janeiro, reunindo milhares de pesquisadores, profissionais de saúde, gestores, ativistas e pessoas vivendo com HIV de todo o mundo. Em um dos corredores do Riocentro, entre uma reunião e outra, a presidente da International Aids Society (IAS) e da AIDS 2026, Beatriz Grinsztejn, concedeu uma entrevista exclusiva à jornalista Roseli Tardelli, diretora da Agência Aids.

Na conversa, ela destacou o significado histórico de a América do Sul receber, pela primeira vez, a maior conferência mundial sobre HIV, defendeu o Sistema Único de Saúde (SUS) como referência internacional, alertou para os impactos dos cortes no financiamento global da resposta ao HIV e afirmou que, apesar dos avanços científicos sem precedentes, o acesso às novas tecnologias ainda está longe de ser uma realidade para grande parte da população.

Confira a entrevista.

Agência Aids:Pela primeira vez a Conferência Internacional sobre AIDS acontece na América do Sul. O que representa receber esse evento no Brasil?

Dra. Beatriz Grinsztejn: É um prazer enorme ter vocês aqui. Estamos muito felizes com a forte presença da Agência Aids na conferência. Também estou felicíssima por recebermos o mundo aqui nesta semana. É um evento único. Nunca tivemos uma Conferência Internacional de Aids no Rio de Janeiro. Tivemos a Conferência da IAS, voltada para ciência, em 2005, mas agora, pela primeira vez, a América do Sul recebe essa conferência mundial.

É um prazer enorme, principalmente em um país que tem um Sistema Único de Saúde e tanto para mostrar às pessoas que vieram participar desse encontro.

Agência Aids: O ministro da Saúde afirmou que, quando existem avanços científicos sem acesso, isso se chama injustiça. Como esta conferência pode contribuir para tornar esse acesso mais equitativo?

Dra. Beatriz Grinsztejn: Acho que esse é um dos principais pontos desta conferência. Estamos vivendo um momento em que temos tecnologias impressionantes: prevenção com aplicação a cada dois meses, a cada seis meses e, agora, a PrEP oral de uso mensal em fase final de estudos.

São avanços extraordinários que, infelizmente, continuam inacessíveis para a maior parte dos países da nossa região.

Esta conferência é um momento crítico para mostrar que, apesar desses enormes avanços científicos, o acesso continua sendo uma enorme questão, principalmente para países que ficaram fora dos acordos de produção e acesso aos medicamentos genéricos dessas tecnologias de longa duração.

É também uma oportunidade para mostrarmos que, mesmo em um país com um sistema universal de saúde, ainda enfrentamos barreiras importantes para adquirir essas tecnologias por um preço justo para a nossa realidade econômica.

Agência Aids: Que nota a senhora daria, de zero a dez, para a resposta mundial ao HIV?

Dra. Beatriz Grinsztejn: O mundo estava indo relativamente bem, até ser atropelado, este ano, por questões geopolíticas relacionadas ao financiamento da resposta ao HIV.

Durante esta conferência vamos mostrar o enorme impacto que esses cortes estão causando na vida das pessoas.

Um número enorme de crianças deixou de ter acesso à terapia antirretroviral. Milhões de pessoas perderam acesso à prevenção. E, principalmente, homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, pessoas privadas de liberdade e pessoas que usam drogas vivem hoje uma situação extremamente difícil porque muitos serviços destinados a essas populações deixaram de ser financiados.

Ao mesmo tempo, esta conferência também é importante para mostrar como o SUS faz diferença. No Brasil temos acesso universal ao tratamento, ao monitoramento clínico e a toda a linha de cuidado, desde a prevenção até o tratamento.

Ainda assim, o diagnóstico tardio e o atraso no vínculo com os serviços de saúde continuam sendo desafios importantes, tanto no Brasil quanto em outros países da região e do mundo.

Também precisamos lembrar que o estigma e a discriminação continuam impedindo que muitas pessoas em maior situação de vulnerabilidade consigam acessar os serviços de saúde.

Agência Aids: Então, qual seria essa nota?

Dra. Beatriz Grinsztejn: Eu daria nota 6 para o mundo.

Agência Aids: E para o Brasil?

Dra. Beatriz Grinsztejn: O Brasil está, pelo menos, com nota 9.

A nota 6 atribuída por Beatriz Grinsztejn à resposta global ao HIV sintetiza o momento vivido pela epidemia. Nunca houve tantos avanços científicos capazes de mudar o curso da infecção, mas milhões de pessoas ainda permanecem distantes dessas conquistas. Nos próximos dias, a AIDS 2026 terá justamente o desafio de transformar conhecimento em compromisso político e inovação em acesso — para que as descobertas apresentadas no Rio de Janeiro cheguem, de fato, a quem mais precisa.

* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.

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