PrEP sob demanda pode ampliar prevenção do HIV com menor custo, aponta estudo em 16 países

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Pesquisa analisada pelo Aidsmap mostra que a PrEP injetável pode evitar mais infecções, mas os altos preços ainda dificultam sua ampliação; modalidade oral sob demanda surge como alternativa economicamente vantajosa

A ampliação do acesso à profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) pode evitar milhares de novas infecções, mas o custo dos medicamentos continua sendo um dos principais desafios para os sistemas de saúde. Um estudo que analisou 15 países asiáticos e a Austrália aponta que, embora a PrEP injetável de longa duração tenha maior potencial de prevenção, a modalidade oral sob demanda pode oferecer uma relação custo-benefício mais favorável, especialmente em países de renda média.

Os resultados foram apresentados em reportagem do jornalista Gus Cairns, publicada pelo Aidsmap em 16 de outubro. A análise indica que o cabotegravir injetável poderia reduzir o número de novas infecções por HIV entre homens gays e bissexuais em pelo menos 50% a mais do que a PrEP oral. Entretanto, seu preço elevado representa um obstáculo à implementação em larga escala.

Em contrapartida, a PrEP sob demanda, utilizada em períodos relacionados à atividade sexual, apresentou resultados projetados semelhantes aos da modalidade oral diária, com custos consideravelmente menores. Para os pesquisadores, essa diferença deve ser considerada na formulação de políticas públicas de prevenção.

Preferências e acesso influenciam os resultados

O estudo utilizou informações da pesquisa PrEP APPEAL, realizada em 2022 com homens gays, bissexuais e mulheres trans em diferentes países da Ásia e na Austrália. Uma das análises reuniu 21.943 homens gays e bissexuais e 1.522 mulheres trans, investigando preferências relacionadas ao tipo de medicamento, preço, local de atendimento, possíveis efeitos adversos e frequência das consultas.

Os resultados mostraram que o custo é um fator decisivo. Entre os homens gays e bissexuais, a PrEP oral sob demanda foi a modalidade preferida em oito dos 16 países, enquanto a PrEP oral de longa duração, ainda não disponível, liderou as preferências em outros seis. Entre as mulheres trans, a preferência foi pela modalidade injetável.

A pesquisa também identificou que a gratuidade, a oferta em serviços comunitários e a possibilidade de realizar testes para infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) no mesmo local aumentavam o interesse pela prevenção.

Em outra análise, com 13.899 participantes e sem os dados australianos, 83% conheciam a PrEP, mas apenas 20% estavam utilizando o método no momento da pesquisa. Os números evidenciam a distância entre conhecer uma tecnologia de prevenção e conseguir incorporá-la à rotina.

PrEP injetável pode evitar mais infecções, mas custa mais

Para estimar o impacto das diferentes estratégias, os pesquisadores desenvolveram um modelo matemático considerando a incidência do HIV, as preferências dos participantes e os custos dos medicamentos.

Em países de alta renda, a adoção da PrEP injetável poderia reduzir em 28% as novas infecções anuais entre homens gays com risco substancial de adquirir HIV. Com a PrEP oral, diária ou sob demanda, a redução estimada seria de aproximadamente 18%.

Nos países de renda média, a diferença também apareceu, embora em proporções menores: a modalidade injetável poderia evitar 18% das novas infecções nessa população, enquanto a oral evitaria 14%.

Entre mulheres trans dos países de renda média analisados, a redução projetada seria de 23% com a PrEP injetável e 13% com a oral. Uma estratégia combinando diferentes modalidades, conforme as preferências individuais, poderia evitar 22% das infecções.

Apesar dos resultados favoráveis à modalidade injetável, o custo permanece como um dos maiores obstáculos. Segundo o Aidsmap, os pesquisadores estimaram que o preço anual do cabotegravir poderia variar de US$ 477 na Índia a US$ 15.738 em Hong Kong, dependendo dos descontos considerados em cada país.

Já a PrEP oral diária apresentou custos anuais estimados entre US$ 41 no Camboja e US$ 619 no Japão. A modalidade sob demanda custaria aproximadamente metade desses valores, considerando uma média de 16 comprimidos mensais.

Prevenção sob demanda apresenta vantagem econômica

A análise também considerou os anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs), indicador utilizado para avaliar o impacto das intervenções em saúde e os benefícios associados à prevenção de doenças.

Em países como Hong Kong e Taiwan, tanto a PrEP oral diária quanto a sob demanda poderiam gerar economia para os sistemas de saúde ao reduzir os custos futuros relacionados ao HIV. Em Singapura, a modalidade sob demanda também apresentou potencial de economia, assim como no Japão.

Entre os países de renda média, os resultados foram mais variados. No Vietnã, a PrEP sob demanda mostrou potencial para gerar economia, enquanto em Mianmar apresentou resultados próximos desse cenário. Em outros países, os custos continuaram relativamente elevados diante dos recursos disponíveis.

A pesquisa ressalta que a escolha de uma estratégia de prevenção não depende apenas da eficácia do medicamento, mas também do preço, da adesão, das condições de acesso e da capacidade de financiamento dos sistemas de saúde.

Diversificar as opções pode ampliar a prevenção

Outro ponto considerado pelos pesquisadores foi a possibilidade de reduzir o preço das formulações injetáveis. Uma análise adicional simulou cenários com medicamentos de menor custo, incluindo valores associados à perspectiva de versões genéricas do lenacapavir.

Os resultados indicaram que preços mais baixos poderiam tornar a prevenção injetável economicamente viável em um número maior de países. Ainda assim, diferenças entre os sistemas de saúde e os custos locais impediriam que essa alternativa fosse igualmente acessível em todos os contextos.

Os autores destacam que estratégias orientadas pelas preferências individuais podem aumentar o alcance da prevenção, especialmente quando diferentes modalidades estão disponíveis. Também defendem a priorização de recursos para populações com maior risco de adquirir HIV.

As conclusões, entretanto, devem ser interpretadas como projeções, e não como resultados observados de uma intervenção. O modelo depende de estimativas sobre preços, adesão e incidência do HIV, que podem variar ao longo do tempo. Além disso, a PrEP sob demanda não é indicada para todas as populações e situações, devendo seguir as recomendações clínicas específicas.

Para os pesquisadores, o desafio está em equilibrar a maior eficácia projetada da PrEP injetável de longa duração com a eficiência econômica da modalidade oral sob demanda. A combinação de diferentes estratégias, considerando as necessidades de cada população e os recursos disponíveis, pode representar um caminho para ampliar a prevenção do HIV.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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