A prevenção do HIV pode estar prestes a entrar em uma nova etapa. Após a consolidação da PrEP diária — estratégia altamente eficaz que revolucionou a prevenção ao vírus — pesquisadores agora investigam a possibilidade de um comprimido tomado apenas uma vez por mês.
Essa é a proposta do EXPrESSIVE-011, ensaio clínico internacional de fase 3 que avalia o antirretroviral experimental MK-8527 como profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP). O estudo compara o comprimido mensal com a PrEP oral diária atualmente utilizada, baseada na combinação de tenofovir e emtricitabina.
No Brasil, a pesquisa conta com a participação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), um dos centros envolvidos no estudo. No serviço, a investigação é liderada pelo infectologista Dr. Rico Vasconcelos, médico e pesquisador da instituição.
Em entrevista à Agência de Notícias da Aids, ele explica por que a adesão continua sendo um dos principais desafios da prevenção, como funciona o novo medicamento e por que ampliar as opções de PrEP pode ser decisivo para alcançar populações mais vulnerabilizadas.
Agência Aids: A PrEP mensal pode representar uma mudança histórica na prevenção do HIV. O que torna o MK-8527 uma inovação tão promissora?
Dr. Rico Vasconcelos: A PrEP, por si só, já é uma revolução na prevenção do HIV desde que foi criada, em 2010. No entanto, quando observamos sua implementação na vida real, fica claro que a proteção depende diretamente de uma boa adesão aos comprimidos — assim como acontece com a camisinha.
A camisinha também é extremamente eficaz na prevenção do HIV e de outras ISTs, desde que seja usada corretamente. Ao longo desses 16 anos de ciência da PrEP, ficou evidente que nem todas as pessoas conseguem tomar comprimidos diariamente ou sob demanda, assim como nem todo mundo consegue usar preservativo de forma consistente. Por isso, estratégias de PrEP que facilitem a adesão podem representar uma nova revolução e ajudar especialmente as populações mais vulnerabilizadas.
O que diferencia o MK-8527 dos antirretrovirais já usados na PrEP?
A PrEP em comprimidos atualmente utiliza tenofovir e emtricitabina, que são antirretrovirais muito potentes, mas que dependem de uma tomada diária ou sob demanda. Não é possível fazer uma PrEP de longa duração com esses medicamentos.
O MK-8527 tem como vantagem ser bastante potente contra o HIV e apresentar um perfil de absorção e eliminação no organismo que permite a tomada de apenas um comprimido por mês, mantendo níveis adequados do medicamento no sangue entre as doses.
Como um comprimido mensal consegue manter proteção contínua contra o HIV? Qual é o mecanismo de ação do medicamento no organismo?
O MK-8527 pertence a uma classe nova de antirretrovirais, chamada inibidores da translocação da transcriptase reversa, ainda sem medicamentos aprovados para uso clínico. Ele é bastante potente no bloqueio da replicação do HIV.
Mas a questão central — se um comprimido mensal consegue realmente manter proteção — é justamente o que o estudo pretende demonstrar. Ainda não sabemos se ele será capaz de proteger contra o HIV. Existe uma expectativa e uma hipótese científica, mas será o estudo que mostrará se a proteção funciona dessa forma.
A lógica é a mesma da PrEP diária ou da PrEP injetável de longa duração: ao bloquear a replicação do vírus, impede-se que uma eventual infecção se estabeleça no organismo. Se o vírus entra no corpo, mas encontra um medicamento que bloqueia sua replicação, ele não consegue se instalar.
Existe risco maior de resistência viral caso a pessoa esqueça a dose mensal?
Essa é outra questão que o estudo pretende responder. Ainda não sabemos se isso pode acontecer. A expectativa é que não, mas somente os dados da pesquisa poderão confirmar.

O perfil de segurança já observado é semelhante ao da PrEP diária?
O EXPrESSIVE-011 é o primeiro estudo de fase 3 com o MK-8527. Isso significa que agora existe um número muito maior de pessoas tomando o medicamento.
Nos estudos anteriores, de fase 1 e fase 2, o número de participantes foi menor, mas até agora o perfil de segurança observado foi bastante favorável. Não houve efeitos colaterais graves que gerassem preocupação.
Agora será possível avaliar esse perfil com um número muito maior de participantes. A expectativa é que os resultados continuem positivos, mas quem poderá confirmar isso é o próprio estudo.
É importante destacar que se trata de um estudo de investigação, uma pesquisa clínica — não de implementação. O medicamento ainda é experimental. O objetivo é entender como ele funciona, se realmente protege contra o HIV e quais efeitos colaterais podem surgir. Muitas dessas respostas só virão quando os dados do estudo forem publicados.
O principal objetivo do estudo é provar não inferioridade ou superioridade em relação à PrEP diária?
O estudo pretende avaliar a eficácia protetora e a segurança do uso do MK-8527. O cenário ideal seria que ninguém se infectasse por HIV durante o estudo. Mas, caso ocorram infecções, será possível comparar qual foi o nível de proteção entre quem utilizou a PrEP diária e quem utilizou o comprimido mensal.
O objetivo é entender se a proteção será menor, igual, não inferior ou até superior. Ainda não é possível saber qual será o resultado.
Quais vantagens clínicas ou comportamentais a PrEP mensal pode trazer?
O principal trunfo desse medicamento experimental é facilitar a adesão. Trata-se da primeira PrEP em comprimido de longa duração. Já existem PrEPs de longa duração, mas todas são injetáveis. Nesse caso, estamos falando do primeiro comprimido mensal, o que pode representar uma nova revolução na prevenção.
Por que o estudo 011 prioriza populações específicas como pessoas trans e homens que fazem sexo com homens?
O estudo 011 está avaliando o MK-8527 nessas populações. Existe também o estudo 010, que testa o mesmo medicamento como PrEP mensal em mulheres cisgênero heterossexuais.
Esse estudo não poderia ser realizado no Brasil porque mulheres cis heterossexuais não representam uma população de alta incidência de HIV no país. Em regiões como a África Subsaariana, porém, essa realidade é diferente. Por isso, o estudo voltado para essa população está sendo conduzido naquela região.
Existe estratégia para alcançar populações mais vulneráveis?
Sim. O estudo prevê uma porcentagem mínima de participantes mais jovens e de pessoas trans, que são duas das populações mais vulnerabilizadas à infecção pelo HIV no Brasil e em muitas partes do mundo.
No nosso centro, também buscamos promover diversidade racial e social entre os participantes. A ideia é evitar incluir apenas pessoas brancas, com maior escolaridade ou melhor condição socioeconômica, e ampliar a participação de jovens, pessoas negras, trans e moradores de periferias — justamente grupos que muitas vezes mais precisam dessas estratégias de prevenção.
Quantos participantes o estudo pretende recrutar no Brasil?
Em torno de 4 mil pessoas.
Quanto tempo os participantes serão acompanhados?
Por três anos, com visitas mensais.
Quais serão os principais desfechos avaliados?
Eficácia e segurança: a capacidade de proteção contra o HIV e os possíveis efeitos colaterais observados entre os participantes.
Existe preocupação com toxicidade acumulada por ser dose mensal?
Sim. Segurança, toxicidade e efeitos colaterais são pontos centrais em estudos de fase 3 e em todas as etapas da pesquisa clínica.
A preocupação não é apenas saber se o medicamento protege contra o HIV, mas também entender quais impactos ele pode ter na saúde e no organismo das pessoas participantes.
A PrEP mensal pode mudar o paradigma da prevenção do HIV?
Pode sim. Se o medicamento experimental demonstrar alta eficácia — ou até superioridade em relação à PrEP diária — isso pode representar uma grande mudança no paradigma da prevenção.
É possível imaginar que, no futuro, a PrEP diária deixe de ser utilizada e seja substituída por comprimidos mensais. Isso dependerá dos resultados dos estudos.
Como essa estratégia se compara à PrEP injetável de longa duração?
Hoje já existem dois antirretrovirais injetáveis de longa duração que demonstraram superioridade em relação à PrEP em comprimidos diários: o cabotegravir, aplicado por via intramuscular a cada dois meses, e o lenacapavir, aplicado por via subcutânea a cada seis meses.
São estratégias extremamente eficazes, mas ainda enfrentam algumas barreiras. Além do custo, há pessoas que não se adaptam bem a medicamentos injetáveis e podem apresentar reações no local da aplicação, como dor, nódulo, inchaço ou hematoma.
Da mesma forma que a tomada diária de comprimidos é uma barreira para algumas pessoas, a aplicação injetável também pode ser para outras.
Por isso, ter um comprimido mensal de longa duração pode ampliar as opções disponíveis. Quanto mais diferentes métodos de prevenção existirem, maior a chance de cada pessoa encontrar uma estratégia que se adapte ao seu contexto de vida.

O futuro da prevenção tende a caminhar para regimes cada vez mais espaçados?
Talvez, mas o mais importante provavelmente será a diversificação das estratégias de prevenção. Hoje já existe, por exemplo, um estudo de fase 2 avaliando uma PrEP com lenacapavir intramuscular anual. Também há pesquisas explorando a possibilidade de implantes subcutâneos trocados uma vez por ano.
Mesmo que no futuro existam métodos com intervalos muito longos entre as doses, isso não significa que todas as pessoas vão preferir esse modelo. Algumas continuarão optando por preservativos, outras por comprimidos.
Por isso, a diversidade de métodos será fundamental para contemplar diferentes realidades e necessidades. Quanto mais opções existirem, maior será a chance de ninguém ficar de fora da prevenção.
Enquanto novas estratégias são testadas
Enquanto a ciência avança na busca por métodos de prevenção cada vez mais eficazes e adaptados às diferentes realidades, estudos clínicos como o EXPrESSIVE-011 são fundamentais para responder perguntas que ainda estão em aberto: um comprimido mensal pode oferecer a mesma proteção da PrEP diária? A estratégia será segura? E conseguirá ampliar o acesso à prevenção?
As respostas virão com o acompanhamento dos participantes ao longo dos próximos anos. Para isso, a participação de voluntários é essencial.
Quem pode participar
Podem se candidatar:
* homens gays ou bissexuais
* homens trans ou pessoas transmasculinas
* mulheres trans, travestis ou pessoas não binárias
* tenham entre 18 e 60 anos
* não tenham diagnóstico de HIV

Interessados podem obter mais informações clicando aqui ou se inscrever apontando a câmera do celular para QR Code que consta no card divulgado pela equipe de pesquisa.
Redação da Agência de Notícias da Aids
Dica de entrevista
Dr. Rico Vasconcelos
Instagram: @ricovasconcelos



